sexta-feira, 30 de maio de 2014

A EXPLOSÃO DA VIOLÊNCIA

Índio se posiciona para flechar policiais militares em protesto no estádio Mané Garrincha, na capital da Banânia petista, dia 27 de junho























RAY CUNHA

Mapa da Violência 2014, monitorado pelo Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde e apresentado à mídia terça-feira 27, mostra que o número de assassinatos só faz crescer no Brasil. Em 2012, foram registrados 56.337 homicídios, o maior índice desde 2002. Nesse intervalo, a média é apavorante: 50 mil pessoas assassinadas. Isso, mais 43 mil mortes anuais no trânsito, conforme mostra estatística oficial. No mesmo dia 27, protestos contra a Copa do Mundo, a menos de duas semanas do seu início, e por demarcação de terras indígenas, pôs a Polícia Militar de um lado e índios do outro. Um PM montado a cavalo levou uma flechada na perna. As imagens correram o planeta, confirmando a imagem que o povão do Primeiro Mundo tem da Banânia petista: um continente de nações indígenas. A propósito, a qualquer momento a Organização das Nações Unidas (ONU) reconhece alguma delas e envia exércitos dos Estados Unidos, Inglaterra, França, Canadá, Austrália etc., para garantir o novo país sul-americano.

Os homicídios no nível nacional cresceram 13,4% entre 2002 e 2012, passando de 49.695 para 56.337. No trânsito, de 2002 a 2012, o número de vítimas fatais pulou de 33.288 para 46.581, um aumento de 38,3%. Outro índice sinistro: “O número de suicídios eleva-se de forma contínua e sistemática ao longo da década” – observa o pesquisador Julio Jacobo Waiselfisz, coordenador da Área de Estudos da Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso). De 2002 a 2012, o número de morte por suicídio passou de 7.726 para 10.321, um aumento de 33,6%.
                                                                                                           
Em Brasília, a capital do país e a que melhor paga seus policiais, não é diferente: a violência campeia em todas as suas formas. Mas por que Brasília, a capital do país, cidade planejada e inaugurada há somente pouco mais de meio século (21 de abril de 1960), se tornou também uma dessas regiões cinzentas, onde a violência explode? O Distrito Federal ocupa, hoje, o décimo lugar em violência entre as unidades da federação, 34,2 homicídios para cada 100 mil habitantes.

Em discurso no plenário, em fevereiro passado, o senador Rodrigo Rollemberg (PSB/DF), pré-candidato ao governo do DF, lamentou a violência explosiva em Brasília. Segundo ele, a situação na cidade é de “medo, pânico e tragédia social, como uma tragédia anunciada”. “O sentimento do brasiliense é de que os bandidos governam a cidade. Qualquer cidadão brasiliense hoje vive com medo. Se sair de casa, não sabe se voltará” – afirmou, informando que somente em janeiro deste ano foram assassinadas 75 pessoas no DF e que o efetivo da Polícia Militar foi reduzido, nos últimos anos, de 19 mil para 15 mil homens. “As cidades do DF estão desamparadas pelo governo e amedrontadas com a violência.”

Segundo a professora do Departamento de Estatística da Universidade de Brasília (UnB), Ana Maria Nogales, “Brasília tem um centro projetado para ter alta qualidade de vida e uma periferia excluída desse sonho da cidade modelo. Não é mais ilha da fantasia. Está mais perto de qualquer grande cidade brasileira”. Com efeito, nas décadas de oitenta e noventa, Brasília se tornou o paraíso dos grileiros. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população do DF, nos anos de 1960, era de 140.154 habitantes; na década de 1970, pulou para 537.492; nos anos de 1980, subiu para 1.176.935; em 1991, estava em 1.601.094; em 2000, atingiu os 2.051.146; e em 2013 foi estimada em 2.789.761 moradores.

O inchaço do DF e do Entorno elevaram a temperatura da Capital. A Área Metropolitana de Brasília compreende, além do DF, dez municípios do estado de Goiás, totalizando 3.477.254 habitantes (IBGE/2010). O Plano Piloto, área central do DF, é o destino diário de muitas dessas pessoas. Segundo a Wikipédia, passam pela Rodoviária do Plano Piloto cerca de 700 mil passageiros por dia. A demanda por Brasília afeta as áreas de transporte, saúde, educação, trabalho, assistência social e, claro, segurança.

A Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (Ride) eleva para 22 o número de municípios que de alguma forma dependem do DF – 19 de Goiás e 3 de Minas Gerais –, totalizando uma população de 4.041.042 (IBGE/2008). Nesse contexto, cidades como Luziânia, Valparaíso, Novo Gama e Águas Lindas, todas de Goiás, são as mais explosivas; o distrito de Jardim Ingá, em Luziânia, a maior cidade do Entorno, é uma das regiões mais violentas do país, tanto que a Força Nacional, uma espécie de polícia militar federal, requerida em casos especiais, reforça, há anos, o policiamento no Entorno Sul, tomado por barões das drogas, como de resto todo o país.

A unanimidade dos economistas já disseram ad nauseam que a solução não só para a violência, mas para o desenvolvimento do país, é investimento maciço e nunca descontinuado em educação, embora esse setor seja o mais desprezado. O senador Cristovam Buarque (PDT/DF) defende a federalização do nível básico da educação pública, levando-se a todas as unidades de ensino, do Oiapoque ao Chuí, passando pelo Entorno, o mesmo nível de qualidade das escolas federais, além de defender piso salarial de R$ 9,5 mil para os professores.

A proposta do senador está fora da realidade? Ou nossa realidade será mesmo a de terça-feira 27, durante exposição da taça da Copa do Mundo no estádio Mané Garrincha: índios flechando policiais militares a duas semanas do Mundial?

sexta-feira, 23 de maio de 2014

POR QUE RENAN CALHEIROS QUER CORTAR JORNALISTAS TERCEIRIZADOS NO SENADO?

Renan Calheiros quer a cabeça de jornalistas
terceirizados que trabalham na TV Senado


Rodrigo Rollemberg é contra o que os
jornalistas chamam de "passaralho"
RAY CUNHA
Para o Brasília Capital


O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB/AL), pretende economizar pelo menos R$ 5 milhões ao ano por meio da demissão de até 300 dos mais de 400 jornalistas terceirizados que trabalham no sistema de comunicação do Senado, e que custam cerca de R$ 29 milhões anuais. Renan explicou que os cortes adotados pela Mesa Diretora são necessários para acabar com “o gigantismo administrativo do Senado”.

Segundo ele, o custo anual da TV Senado gira em torno de R$ 400 milhões, mais do que o orçamento da repetidora da TV Globo em Brasília. “Esse contrato da Comunicação Social se prorroga, de uma forma ou de outra, há 17 anos. É um contrato eivado de vícios e que precisa ser enquadrado não apenas na racionalização, mas na própria transparência do Senado Federal”. O senador argumentou que os valores a serem economizados servirão para investir até R$ 20 milhões na própria TV Senado. Mas acabou recuando na decisão autocrática.

À pretensão de Calheiros seguiu-se uma onda de protestos, baseada num argumento: com a redução do quadro de jornalistas o sistema de comunicação do Senado não teria mais condições de fazer a cobertura ampla e democrática que vem sendo sua marca registrada, e acabaria produzindo propaganda, em vez de jornalismo de interesse público, passando a atender prioritariamente a interesses partidários, especialmente dos presidentes da Casa.

Mas os cortes seriam mesmo para economizar dinheiro? É difícil crer nisso, levando-se em consideração os salários e as verbas de gabinete dos senadores. Uma fonte no Senado informou ao Brasília Capital que a verdadeira razão das demissões anunciadas seria outra. “Economizar R$ 5 milhões de um orçamento de R$ 400 milhões em cima de jornalistas em cargos de confiança num processo de 17 anos deixa claro que a questão não é dinheiro, mas informação.”

De acordo com a fonte, “esses jornalistas estariam suprindo a mídia nacional de informações sobre o notório comportamento de Renan, de subserviência ao Palácio do Planalto, como, por exemplo, no caso da instalação da CPMI da Petrobras”. Como Renan não pode demitir concursados, “a corda acaba arrebentando do lado dos terceirizados”.

O presidente da Associação dos Profissionais de Comunicação do Senado (Comsefe), César Augusto Resende, informou ao Brasília Capital que a Mesa Diretora está fazendo um levantamento para reduzir em quase 50% o contrato com a empresa que terceiriza jornalistas para o Senado, o que equivale a 15% dos jornalistas terceirizados que trabalham na televisão. “Isso paralisaria a TV, o jornal e a rádio do sistema de comunicação do Senado”, afirma Resende. “Nós prestamos um trabalho de informação e transparência reconhecidos pela população.”

O fato é que a Mesa Diretora, reunida no dia 15 de maio, aprovou corte de 15% no valor do contrato com a empresa Plansul, que terceiriza mão de obra para a TV Senado, “como vem ocorrendo em outros contratos do Senado Federal até com percentuais superiores”, informa a Assessoria de Imprensa do Senado. “Caberá à empresa detentora do contrato promover as adequações a fim de atingir o corte de 15% determinado pela direção da Casa.”

Informação da Mesa Diretora, obtida quarta-feira (21) pelo Brasília Capital, dá conta de que, até agora, não houve nenhuma demissão. O enxugamento foi provisoriamente engavetado, pois assim que Renan anunciou os cortes em plenário começaram as críticas contra ele.

O senador Rodrigo Rollemberg (PSB/DF), pré-candidato ao governo do Distrito Federal e irmão do jornalista Armando Rollemberg, que trabalha na TV Senado, foi um dos que saíram em defesa dos terceirizados. Dia 14, Rollemberg solicitou que o critério dos cortes seja decidido por todos os senadores e não somente por Renan.

Ele encaminhou à Mesa abaixo-assinado em que funcionários efetivos manifestam apreensão com o corte de terceirizados, já que isso afetaria os serviços de comunicação do Senado, importantes no controle da atividade legislativa pela população.

Renan respondeu a Rollemberg afirmando que tem compromisso com o corte das despesas do Senado, que, segundo ele, atingiu R$ 276 milhões em 2013. “A estrutura da TV Senado é maior do que a da Rede Globo, em Brasília.” Mas calou-se sobre os vários tecidos adiposos que recobrem o orçamento do Senado da República, especialmente os salários e verbas de gabinete dos senadores.

Também o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF saiu em socorro dos terceirizados. Quarta-feira (14) publicou nota em defesa dos profissionais listados para a degola, ou ameaçados, como dizem os próprios jornalistas, pelo “passaralho”. Segundo a nota, paira a ameaça de demissão de 40,2% dos jornalistas terceirizados, ou cerca de 300 profissionais que trabalham no sistema de comunicação do Senado.

“Significará a redução das condições de cobertura dos veículos. A atitude também poderá prejudicar a imagem do Senado, uma vez que será vista como um movimento claro de diminuir a transparência e os canais de prestação de contas junto à população. Toda ajuda neste momento é importante. A garantia desses espaços de transparência pode impactar a própria qualidade da democracia brasileira”, diz a nota. “A cobertura jornalística ficaria restrita ao plenário e à presidência. Mais de cinco programas seriam extintos, todas as atrações culturais sairiam do ar e o atendimento por parte do arquivo a outras emissoras seria prejudicado.”

Ainda a nota: “O SJPDF reconhece que os trabalhadores com vínculo terceirizado devem ter seus direitos garantidos. Eles também contribuem para colocar no ar uma respeitada emissora que cumpre, entre outras coisas, um papel fundamental de dar transparência ao Legislativo brasileiro. As demissões irão impactar diretamente a qualidade da cobertura que é realizada, trazendo um prejuízo à democracia”.