terça-feira, 26 de novembro de 2013

Livro revela os subterrâneos da construção e anos heroicos de Brasília, transferida, no embalo da bossa nova, da Cidade Maravilhosa para o Cerrado


BRASÍLIA, 26 DE NOVEMBRO DE 2013 – A história dos candangos é contada em livro de 1.400 páginas, A Bailarina Empoeirada (Brasília, Annabel Lee Editora, 2013), a ser autografado quinta-feira 28, a partir das 18h30, no Salão Nobre da Câmara dos Deputados. Segue-se resenha do livro.

Brasília tem História? Há duas respostas. Brasília tem, sim, a história da sua construção, de suas obras, de seus monumentos. É a história dos bandeirantes modernos, dos sonhos proféticos, dos gênios da prancheta e dos heróis de tratores. É a retórica mudancista. Brasília ainda não tinha, entretanto, a história de sua gente, de seu povo, do seu construtor cotidiano.

Foi o que Luiz Humberto de Faria Del'Isola e Noemia Barbosa Boianovsky retrataram neste A Bailarina Empoeirada. Relataram a história dos comuns, dos anônimos, dos heróis da realidade. Não é uma “história dos vencidos”, tão em voga e tão maniqueísta. É uma história de vencedores anônimos, que ocuparam o vazio dos palácios e dos monumentos para fazer a cidade real.

O livro fala da Brasília entre 1956 e 1964. É a preservação – e em alguns casos até o resgate – de uma memória muito recente e ao mesmo tempo já distante.

Após quase 18 anos de pesquisa e intenso trabalho, a dupla de escritores publicou o resultado em quase 1.400 páginas de histórias saborosas e inéditas.

Algumas delas merecem destaque:

Em julho de 1961, cerca de 100 prostitutas de uma cidade-satélite de Brasília foram acordadas de madrugada, arrebanhadas como gado e jogadas na carroceria de caminhões da prefeitura do Distrito Federal. Ficaram largadas no meio do cerrado, a cerca de 40 quilômetros da capital recém-inaugurada. Os jornais da época, que não podiam publicar a palavra “prostituta”, chamaram-nas pudicamente de “bailarinas”. Daí o nome do capítulo que deu título ao livro: A Bailarina Empoeirada.

O cotidiano da vida na Zona do Baixo Meretrício: 50 relações sexuais no mesmo dia, o banho “tcheco” com a água comprada do Doidinho que a buscava na bica e a distribuía em latas de folha-de-flandres.

Em 1960, às vésperas da inauguração da nova Capital, o Supremo Tribunal Federal realizou sessão (dentre muitas) para decidir se... cumpria a Constituição! A Corte estava claramente dividida: parte dos ministros queria se mudar (cumprindo a Carta Magna) e a outra parte resistia à transferência para o cerrado. Pitoresca é a transcrição dos diálogos entre os magistrados, que ocuparam o tempo da Suprema Corte questionando se em Brasília haveria leite, água, gás e correio.

O intenso sofrimento por que passaram os cariocas durante o processo de mudança do Rio de Janeiro para Brasília; das areias de Copacabana para a terra vermelha do cerrado; do camarão e da lagosta para o pequi e a guariroba.

O meloso choramingar dos parlamentares, que se queixavam da falta de persiana nos apartamentos funcionais, da inexistência de lavanderias, empregadas domésticas, gramado nas quadras, supermercados; reclamavam da falta de leite, do preço da carne, da quantidade de ratos e "ratos" na cidade, e do tamanho das camas. Tudo isso dito em Plenário!

As facilidades desfrutadas por suas excelências irritavam os construtores anônimos, a exemplo de deputado que estava infeliz com a mobília do apartamento funcional e a incendiou; do que fez duas vezes a viagem do Rio para Brasília apenas porque “esquecera” em Brasília a chave do apartamento à beira-mar.

A hipocrisia do discurso oficial, que sempre tentou encobrir a existência da prostituição no canteiro de obras, a ponto de instituir um verdadeiro gueto para a zona do baixo meretrício.

A desconstrução de alguns mitos que foram criados para sustentar a retórica mudancista: a primeira missa de Brasília, que na verdade foi a segunda; a morte de Bernardo Sayão, objeto de várias versões fantasiosas; e a desconstrução da maior lenda urbana que já houve na Capital, o suposto "massacre" de trabalhadores em um acampamento de obras.

O divertido e ao mesmo tempo grotesco teor das primeiras ocorrências “policiais” durante a construção da Capital; as punições bizarras que eram impostas aos trabalhadores dos canteiros de obras que porventura viessem a cometer algum delito.

A Revolta dos Sargentos, ocorrida em 1963, que na avaliação dos autores marcou o rompimento de Brasília com João Goulart e antecipou o golpe de 1964. Nesse episódio, houve a prisão de um ministro do Supremo Tribunal Federal e a morte de alguns civis e militares; um deles, inclusive, baleado na Esplanada dos Ministérios.

O fantasma do “retornismo”, movimento acéfalo, sub-reptício e invisível que durante quatro anos assombrou os moradores de Brasília com a ameaça de retornar a Capital para o Rio de Janeiro.

A pouco reconhecida participação de Darcy Ribeiro como baluarte político do governo João Goulart e sua coragem frente aos militares. O apoio de Darcy Ribeiro à inconcebível bobagem que foi a Turma da Boa Vontade, que se autointitulava “Poliça da Boa Vontade”.

A obstinada teimosia dos moradores da Cidade Livre – que um dia Juscelino Kubitschek chamou de “excrescência urbana” e que Israel Pinheiro queria, a todo custo, varrer do mapa – ao resistirem à derrubada de seus barracos e à “higienização” daquele espaço geográfico, prevista nas pranchetas modernistas.

E mais, muito mais: os primeiros bares, botecos, restaurantes, escolas, jornais, clubes sociais, concursos de miss, lojas, roupas, programas de rádio, artistas de TV, cantores e cantoras, enfim: o cotidiano de uma cidade que procurava seu destino e sua consolidação e, ao mesmo tempo, lutava para se afirmar como Capital. (Divulgação)

domingo, 17 de novembro de 2013

Os hippies do PT já estão vendo o sol nascer quadrado


RAY CUNHA
raycunha@gmail.com


BRASÍLIA, 17 DE NOVEMBRO DE 2013 – As ditaduras ruem devido à sua própria natureza, que é a corrupção, inclusive ditaduras nas sombras, como a de Lula; sua organização, o PT, começa a espirrar carnicão. Quando Lula instalou a era da mediocridade, em 1 de janeiro de 2003, encontrou as finanças do país nos trilhos e o planeta em expansão econômica; então começou a aparelhar o Estado, transformando-o em cabide de emprego, e a gastar a rodo. Também se mancomunou com o que há de mais nocivo no país, Zé Sarney, Fernandinho (não o Beira-Mar, mas o Affonso Collor de Mello) e Paulo Salim Maluf, além de rodar o mundo distribuindo (?) dinheiro para ditadores carniceiros como Fidel Castro, o zumbi ladrão Hugo Chávez e abutres africanos, à nossa custa.

Mas o PT se descuidou, devido talvez à sensação de impunidade, e mergulhou no Mensalão, ignorando, por exemplo, a revista Veja, e dando o azar de pegar pela frente Joaquim Barbosa na posição de presidente do Supremo. Assim, já estão presos na Papuda, Zé Dirceu, braço direito do Chefão (este, um sujeito misterioso que ainda falta pegar), e Zé Genoino, um tipinho simulado, diferentemente de Zé Dirceu, que tem cara e modos de gangster. Muita gente boa também já está na cadeia e outras estão se preparando. A bandidagem de colarinho branco pôs a barba de molho. O Sapo já perdeu a dele. Dilma Rousseff, a presidenta (existirá a palavra estudanta?), preposta de Lula, não tem barba.

A situação do Brasil é, hoje, preocupante. A indústria estagnou; a infraestrutura básica do país está estraçalhada; os transportes públicos são ultrajantes; o setor de saúde é um matadouro; são assassinadas e morrem no trânsito, no país, cerca de 100 mil pessoas por ano; e a grande tragédia: o definhamento, o estrangulamento, a morte por anemia, do Ensino. Isso, sem falar-se em escravidão, tráfico de crianças para fins sexuais, espoliação da Amazônia etc. etc. etc. A propósito da Amazônia, a maior província biológica, aquífera e mineral do planeta, os governos que se sucedem em Brasília tratam-na como se fosse uma colônia – vão lá, extraem o que podem, inclusive energia hiderelétrica, dão uma cagada e voltam para a ilha da fantasia.

Não descarto que a organização de Lula, o PT, permaneça no poder mais cinco anos, porém tenho certeza de que, se isso acontecer, provavelmente antes dos cinco anos ou o povão ou as Forças Armadas agarre os cabeças dos petralhas e os linche, no caso do povão, ou os prendam, no caso das Forças Armadas, porque, então, o Brasil já estará num precipício.

Fala-se em reforma disso e daquilo outro. Precisamos somente de uma: a do Estado, e de se investir, pesadamente e sem descontinuidade, na Educação. Nada de se ensinar a nossas crianças a falarem “Nós vai pescar”. Esquerda? É tão deletéria quanto o nazismo. Se alguém tiver alguma ideia melhor do que democracia, que lute por ela, porque será algo muito bom. O máximo a que se chegou foi às comunidades hippies, paz e amor. Mas ficou patente que os hippies gostavam muito de sexo, álcool, maconha, peiote e LSD, se possível com um solo de guitarra.

O PT é também chegado a bacanal, especialmente quando há na parada uma teta prenhe, de banco ou de erário.

sábado, 9 de novembro de 2013

Brasília e Amazônia em sessão de autógrafos no Monardo Gastronomia e Cultura

Ray Cunha lê conto no Bar Faixa de Gaza/Galeria
Olho de Águia (Foto: Ivaldo Cavalcante)


Por MARCELO LARROYED
larroyed@gmail.com


BRASÍLIA, 9 DE NOVEMBRO DE 2012 – Ray Cunha autografa O Casulo Exposto (LGE Editora/Ler Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 30) e Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos (edição do autor, Brasília, 116 páginas, R$ 20), dia 21 de novembro, uma quinta-feira, das 17 às 20h30, no Monardo Gastronomia e Cultura, na 201 Sul (atrás do Banco Central), Bloco B, Loja 9, telefone 3425-3566. A compra dos dois livros fica por R$ 40.

O Casulo Exposto enfeixa 17 contos ambientados no Distrito Federal. Trabalho, como jornalista, em Brasília, desde 1987, cobrindo amplamente a cidade-estado, o Entorno e o Congresso Nacional, o que me proporcionou conhecer bem essa geografia, inclusive a humana, que serviu para criar as personagens e o cenário dessas histórias curtas” – diz Ray Cunha. “O casulo é uma alegoria à redoma legal que engessa o Patrimônio Cultural da Humanidade, a borboleta de Lúcio Costa, ninfa golpeada no ventre, as vísceras escorrendo como labaredas de luxúria, depravação e morte, nos subterrâneos e na esfera política da cidade dos exilados, onde chafurda uma fauna heterogênea: amazônidas que deixaram a Hileia para trás e tentam sobreviver na ilha da fantasia; jornalistas se equilibrando no fio da navalha; políticos, daquele tipo mais vagabundo, que esconde merenda escolar na mala do seu carro e dinheiro na cueca; estupradores; assassinos; bandidos de todos os calibres; tipos fracassados e duplamente fracassados, misturando-se numa zona de fronteira e penumbra.”

PREFÁCIO DE MAURÍCIO MELO JÚNIOR – O jornalista e escritor Maurício Melo Júnior diz, no prefácio de O Casulo Exposto, o seguinte: “O escritor Jorge Amado costumava se queixar de algumas ausências da literatura brasileira. E dizia que a mais gritante delas era a falta de romances sobre o ciclo do café, como os que foram escritos sobre os ciclos da cana-de-açúcar e do cacau. Também podemos dizer que ainda não surgiram os escritores que tomaram o desafio de contar as sagas da busca da borracha na Amazônia e da construção de Brasília em pleno cerrado goiano.

“Neste seu novo livro de contos e novelas, o escritor Ray Cunha, nascido no Amapá e vivente de Brasília, passa longe da narrativa de homens perdidos na solidão da floresta ou na poeira das construções incansáveis. O que interessa ao escritor são os resultados daquelas experiências, são os personagens que ficaram depois das epopeias.

“Os homens e mulheres que saltam destas páginas são bastante curiosos. Têm a política no sangue, embora apenas transitem em torno dela. Veem o poder bem de perto, mas não participam de suas benesses. Também calejados pelas dores impostas pela opressão da floresta, já nada os surpreende e a violência pode ser uma forma de defesa ou sobrevivência. Sim, os escrúpulos são poucos. Ou, citando Jarbas Passarinho, um acriano que fez carreira política no Pará, “às favas com o escrúpulo”. Em compensação, a sensualidade aflora na pele dessa gente. O perigo é que também este poder de encantar e seduzir é instrumento de dominação.

“Naturalmente que a visão que temos aqui está superdimensionada pelos requisitos da literatura, mesmo assim sua base tem intensos pontos de realismo. E Ray ainda lhes dá um tratamento recheado de um humor cáustico, em alguns momentos até cruel. No entanto, este humor nasce do clima noir, o clima dos filmes e livros policiais surgidos nos anos de 1940.

“Sem saudosismos e com muito suspense, os contos e novelas de Ray Cunha nos põem diante dos brasilienses, esses seres nascidos da junção plena de todos os brasileiros. E vale muito a pena conhecê-los”.

ENTREVISTA A ALDEMYR FEIO – Segue-se entrevista concedida por Ray Cunha ao jornalista paraense Aldemyr Feio.

O que o levou a escrever O Casulo Exposto?

Costumo ambientar meus livros na Amazônia, especialmente Belém, minha cidade predileta. Porém vivo em Brasília desde 1987. Do início de 1996 ao fim de 1997, voltei a morar em Belém, mas por questões profissionais retornei a Brasília. Uma estada tão longa nos leva a conhecer bem o ambiente onde vivemos; assim, é natural que comecemos a escrever algumas histórias com a geografia da cidade onde moramos. Em 2008, observei que já escrevera 17 contos ambientados em Brasília e com personagens que são, quase sempre, migrantes, que transitam nas ruas e nos meios jornalísticos e políticos da cidade-estado. Submeti os 17 contos à leitura do Maurício Melo Júnior, escritor talentoso e crítico literário bem preparado. Ele escreveu a apresentação do livro e sugeriu que o levasse ao Antonio Carlos Navarro, diretor da LGE Editora, que resolveu editá-lo.

Maurício Melo Júnior, ao apresentar o livro, afirma que “O que interessa ao escritor são os resultados daquelas experiências, são os personagens que ficaram depois das epopeias”. Por quê?

Um dos fios condutores de O Casulo Exposto são as personagens, em geral migrantes, às vezes frustrados ou duplamente frustrados. As epopeias a que Maurício se refere é a construção de Brasília – uma fase da cidade que já acabou. Restaram os candangos bem-sucedidos, como o empresário Paulo Octávio, dono de boa parte da cidade, e muita gente que mora em assentamentos e invasões. Migrantes continuam chegando, mas agora tudo está lotado. Os contos, portanto, não enfocam uma epopeia, mas a miudeza do dia-a-dia na capital da república.

Maurício também afirma: “Ray Cunha ainda lhes dá um tratamento recheado de um humor cáustico, em alguns momentos até cruel”. O que ele quis dizer com isso?

Algumas das personagens dos contos são tragicômicas. Outras, apenas trágicas. Creio que o humor cáustico a que Maurício se refere é o que costumamos chamar de humor negro, quando situações, apesar de dramáticas, ou trágicas, contêm, mesmo assim, viés risível.

Seus romances e contos são, geralmente, ambientados na Amazônia. Qual a sensação de escrever um livro candango, ou seja, produzido com as coisas que acontecem em Brasília?

É a mesma sensação de trocar pirão de açaí com dourada frita por pão de queijo, ou de trocar a Estação das Docas por shopping. São duas situações absolutamente diferentes. No meu caso pessoal, caio de joelhos por tudo o que diz respeito à Amazônia, mas também curto Brasília. Assim, sinto-me perfeitamente à vontade tanto na Amazônia como em Brasília.

O casulo é uma alegoria à redoma legal que engessa o Patrimônio Cultural da Humanidade...” mas “também tresanda a perfume, romance e esperança, nas luzes da grande cidade”. Dá para explicar?

O casulo do título evoca o fato de que Brasília é reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade. Em termos práticos, não se pode mudar a arquitetura original do Plano Piloto de Brasília, que compreende o projeto do urbanista Lúcio Costa, excluindo-se as cidades-satélites. Então, o Plano Piloto é protegido sob uma redoma legal, um engessamento legal. É Patrimônio Cultural da Humanidade, mas nas suas ruas e nos seus subterrâneos não há romantismo, como em toda metrópole brasileira, inchadas e perigosas. Apesar disso, há contos de puro perfume, romance e esperança. O conto que encerra o livro, A Caça – que inclusive já foi publicado pela Editora Cejup –, quase no fim, refere-se às luzes de Brasília e termina no quarto de um bom hotel.

Você acha que o leitor vai entender as suas colocações contidas no Casulo?

Certamente que sim. A literatura, como qualquer arte, tem algo maravilhoso. No seu caso específico, as palavras remetem o leitor a mundos que são somente dele. O escritor é um mero porteiro. Lembrei-me de um caso que ocorreu com William Faulkner. Alguém o informou que leu duas vezes um livro seu e não entendeu a história. Faulkner sugeriu que lesse mais uma vez.

Nos casos relatados no livro você teve alguma participação ou foram vivenciados apenas superficialmente?

O senso comum mistura atores com personagens e acredita que ficção é o que conhecemos como realidade. Se assim fosse, quantos escritores não estariam atrás das grades por assassinato? O fato é que até nas autobiografias há mais ficção do que realidade. O escritor que faz seu trabalho com seriedade não está interessado em jornalismo. Estou certo de que pelo menos 75% do que os jornais publicam originam-se de interesses dos donos, de ideologia, de conjecturas, de boatos, ou de mentiras pura e simplesmente. Também o escritor não está interessado em si mesmo, pois todos os escritores são pessoas comuns e, muitas vezes, introvertidas. Qual a participação que um escritor pode ter numa história que se passa em outro planeta?  Como Antoine de Saint-Exupéry criou O Pequeno Príncipe? Esta é a diferença: as antenas especiais com que os escritores nascem, o que permitiu, por exemplo, que Ernest Hemingway criasse uma mulher abortando, em Adeus às Armas, ou que John Steinbeck desse vida a uma mulher que acaba de perder seu bebê recém-nascido e dá de mamar a um ancião que está morrendo de fome, em Vinhas da Ira.

Quem é Ray Cunha?

Nasci em Macapá, na margem esquerda do estuário do rio Amazonas, e cortada pela Linha Imaginária do Equador, em 7 de agosto de 1954. Fui educado na Amazônia. Conheço a Hileia razoavelmente, por longa leitura e por ter estado lá. Vivo em Brasília por uma questão de mercado de trabalho. Aqui, consigo oferecer à minha família razoável padrão de vida, sustentado pela minha profissão, jornalismo. Literatura, para mim, é minha missão pessoal. Embora morando em Brasília, a internet me permite ficar ligado o tempo todo à Amazônia. Tenho ligação íntima com Belém, um dos meus grandes amores, e, naturalmente, com Macapá. Quanto a Brasília, já somos velhos namorados. Brasília me deu duas mulheres fundamentais: minha esposa, e minha luz, Josiane, e uma flor, minha filha Iasmim.

TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS – Trópico Úmido reúne três contos com pano de fundo em quatro cidades da Amazônia: Belém, capital do Pará; Macapá, capital do Amapá; Manaus, capital do Amazonas; e Rio Branco, capital do Acre. Inferno Verde conta a história do repórter Isaías Oliveira, num duelo com o sinistro traficante Cara de Catarro. A trama se passa em Belém e na ilha de Marajó.

Latitude Zero se desenrola em Macapá, cidade situada no estuário do maior rio do planeta, o Amazonas, na cofluência com a Linha Imaginária do Equador. Um punhado de jovens começa a descobrir que a vida produz também ressaca.

A Grande Farra narra as peripécias do jovem repórter e playboy Reinaldo. Candidato a escritor, ele gasta seu tempo trabalhando como repórter, bebendo e se envolvendo com inúmeras mulheres. O conto tem sua geografia em Manaus, encravada no meio da selva amazônica, e em Rio Branco, no extremo oeste brasileiro.

OBSESSÕES AMAZÔNICAS DE RAY CUNHA – Maurício Melo Júnior escreveu sobre Trópico Úmido: “A literatura brasileira está numa encruzilhada. Cada autor atira para um lado e ninguém consegue formatar o que no passado se chamou de movimento. Mesmo em lugares onde se pratica uma literatura regional intensa – Pernambuco e Rio Grande do Sul, por exemplo – não há o senso de união. Isso, se por um lado favorece a diversidade temática, por outro, paradoxalmente, desagrega autores e enfraquece o trabalho de formação de leitores. Embora o ato de escrever seja um exercício de solidão, são a vivência e a convivência que dão ao escritor o estofo necessário para a composição do texto.

“O escritor Ray Cunha, nascido na beirada da floresta amazônica, sofre do mal que vitimou parte de seus colegas a partir dos anos setenta: é um escritor desagregado, carente de grupos com quem possa discutir temas, estéticas e formas. Isso fica muito claro em seu livro Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos, no qual, apesar de uma certa obsessão geográfica, sente-se a ausência da região em sua plenitude. O leitor mais exigente terminará a leitura carente do sotaque e das cores amazônicas, embora fique saciado com o desenvolvimento bem resolvido da trama.

“O conto que abre o livro, Inferno Verde, conta a história do repórter Isaías Oliveira em duelo sangrento e perverso com o traficante Cara de Catarro. O segundo texto, Latitude Zero, fala de um grupo de jovens em descobertas sexuais em Macapá. Pode ser visto como um conto de formação, embora carregado do escancaro de Charles Bukowisk, o que é até compreensível em quem sobreviveu às teorias de Freud e à revolução sexual dos anos sessenta. Finalmente, o último conto do volume, A Grande Farra, conta a história de Reinaldo, um repórter que sonha ser escritor, mas, milionário, gasta a vida em bebedeiras e aventuras sexuais.

“A linha que liga todos os textos, além da região amazônica, é mesmo a temática da sexualidade. No entanto, este sentimento está muito próximo das práticas vindas com a liberação sexual dos anos sessenta, unidas a um certo sadismo dos personagens. Num pobre exercício de paráfrase com os Atletas de Cristo, que trazem halos angelicais para os nossos atletas do futebol, podemos dizer que os personagens de Ray Cunha são Atletas de Sade. É impressionante a obsessão por um ato doloroso e imposto. Há sempre dominação do macho sobre a fêmea, mesmo quando ela, também filiada à revolução sexual, escolhe seu parceiro. Ainda assim prevalece a força do macho.

“Esses personagens construídos pelo autor, por conta da defesa de uma geração perdida, terminam por carregar cores muito iguais. São todos hedonistas, amantes do prazer sobre todas as coisas. Por conta desse sentimento entram de cabeça na vida sem medir qualquer consequência. E fica clara aí a influência de Bukowisk, o velho safado, embora a sensualidade das ninfetas traga para os textos uma certa lembrança de Nabokovisk, o velho também safado, mas um pouco mais pudico. Sobrevive disso tudo um mundo excessivamente cruel, posto que o prazer é o que menos importa aos moços. Todas as relações têm como objeto a sujeição do parceiro.

“O poeta Augusto dos Anjos falava em um de seus sonetos da “obsessão cromática”, do que chamava de fantástica visão do sangue se espalhando por toda parte. Ray Cunha trás para a literatura um pouco dessa obsessão, que faz a festa dos repórteres policiais. Há muitas cenas cruéis, com requintes de crueldade, dignos das páginas dos romancistas policiais americanos da década de cinquenta, um período no qual a fineza britânica de Conan Doyle foi substituída pela inspiração de Bram Stoker.

“Finalmente, há obsessão geográfica. Para um livro passado na Amazônia isso é bem interessante. No entanto o autor poderia descrever mais e citar menos. Explica-se. É comum por todo o texto o nome de ruas onde moram, vivem e rodopiam os personagens. O problema é que a citação pura e simples do nome da rua simplesmente não remete a qualquer impacto sobre o leitor que não conhece as ruas. O autor poderia descrever as ruas, o que daria uma informação a mais ao leitor, situando-o até no ambiente por onde transitam os personagens.

“Fica do livro, entretanto, a construção da história. Há pontos de prisão do leitor no jogo de curiosidades desvendadas aos poucos. O autor sabe manipular bem a trama, levando o leitor ao clímax. Com isso, resgata uma das maiores carências da literatura brasileira atual: o bom contador de história. É que os nossos novos escritores, buscando a universalidade linguística de Guimarães Rosa, esqueceram que ele sabia contar bem uma história. Resultado: renunciaram à narrativa e não ganharam a inventividade estética.

“Ray Cunha consegue contar bem suas histórias. No entanto poderia ter trazido o mundo mais amazônico para suas páginas; poderia deixar um pouco as influências estrangeiras e seguir a trilha de autores como Benedicto Monteiro. Isso pode transformá-lo no grande representante da literatura amazônica moderna. Aquele que conseguirá traduzir boa linguagem com boa narrativa, e tudo temperado em um bom caldo de tucupi”.

LIVROS DO AUTOR – Ray Cunha estreou como escritor em 1971, com o livro coletivo, de poemas, Xarda Misturada (edição dos autores, Macapá), juntamente com o poeta e contista José Edson dos Santos e José Montoril; em 1982, publicou Sob o Céu nas Nuvens (edição do autor, Belém, poemas); em 1990, lançou A Grande Farra (edição do autor, Brasília, contos); em 1996, a Editora Cejup, de Belém, lançou o conto A Caça. Em 2000, saiu Trópico Úmido - Três Contos Amazônicos; em 2003, a Editora Cejup lançou o romance A Casa Amarela, ambientado em Macapá, no ano do golpe militar de 1964; e em 200, a LGE/Ler Editora publica O Casulo Exposto.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Para Dilma Rousseff, espionagem deve cumprir legislação. Especialista em contraespionagem, Jorge Bessa analisa a atitude da presidente

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 7 DE NOVEMBRO DE 2013 – À denúncia do ex consultor da Agência Nacional de Segurança (NSA) dos Estados Unidos, Edward Snowden, de que o governo americano espiona a Europa, o Brasil e todo mundo que lhe interessa, e que o jornalista britânico Glenn Greenwald tem divulgado, a presidente peteemedebista Dilma Rousseff fez um rapapé e peitou até o presidente Barack Obama, dos Estados Unidos. O material colhido na espionagem é fajuto. E depois, todo mundo espiona todo mundo, até vizinhos espionam-se entre si, principalmente quando há vizinhas gostosas na jogada.

Ontem, a presidenta, como ela gosta de ser chamada (haverá estudanta?), afirmou que a espionagem produzida pelo Brasil é diferente da praticada pelos EUA, explicando que no Brasil “todos os procedimentos foram feitos de acordo com a legislação”. Ela espera que Obama peça sua permissão para espionar o trem descarrilado que é o atual governo brasileiro. Dilma disse mais: que não teria cancelado sua visita aos Estados Unidos se Obama lhe tivesse pedido desculpa. Tudo isso é calculado, de olho em outubro de 2014.

Dilma fez esse rapapé todo porque em 2014 teremos eleições para presidente, e Lula está no páreo. O negócio já está ganho, com as bolsas, inclusive a bolsa-bandido (a dos presidiários), e as urnas eletrônicas (alguém conhece algum país sério que eleja presidente da república eletronicamente?), porém nunca é demais fazer de conta que se está enfrentando os Estados Unidos.

A Globo News ouviu o especialista em contraespionagem Jorge Bessa, escritor, psicanalista e acupunturista. Em resumo, Bessa disse que todos os Estados se espionam desde o início da história da Humanidade e que Dilma Rousseff fez esse alarido e aparentemente enfrentou Barack Obama de olho nas eleições de 2014, na qual o mentor de Dilma, Lula, será candidato. No momento, Lula está amoitado, depois do Mensalão e do desmascaramento da sua grande amiga íntima Rosemary Noronha.

http://raycunha.blogspot.com.br/2013/06/jorge-bessa-autografa-o-juizo-final-e.html
Segue-se a entrevista com Jorge Bessa, no seguinte link: