terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Heitor Andrade lança O Cão Selvagem

O poeta Heitor Andrade autografa seu sexto livro nesta quinta-feira, 12

BRASÍLIA, 10 DE DEZEMBRO DE 2013 – O poeta e jornalista Heitor Andrade autografa seu sexto livro, O Cão Selvagem (Editora Siglaviva, Brasília), nesta quinta-feira 12, no Café Senhoritas, na 408 Norte, Bloco E, a partir das 19 horas. Em dezembro do ano passado, ele quebrou jejum de 18 anos com seu quinto livro, Minha Moldura é o Universo, também pela Editora Siglaviva.

Heitor Andrade é autor ainda de Corpos de Concreto (1964), livro concretista, queimado na nascente Ditadura dos Generais (1964-1985); Sigla Viva (1971), Três X1 – A Matemática do Poema; e Nas Grades do Tempo, além de poemas em fôlderes.

Natural de Salvador, o escritor é pioneiro na vida cultural e jornalística de Brasília, onde vive há 45 anos. Um dos construtores dos alicerces da vida cultural da capital, nos anos heroicos da cidade, na década de 1960, Heitor Andrade, além de se dedicar à poesia, é agitador cultural, apresentando-se na noite brasiliense com seu Teatro do Imprevisto. Nessas apresentações, improvisa e dialoga com a plateia, sempre instigante.

O cineasta Renato Cunha, editor da Siglaviva, trabalha atualmente num documentário longo sobre Heitor, com produção de Kim Andrade, que foi produtor de Glauber Rocha. Heitor e Kim são primos de Glauber.

Candidato derrotado à Câmara Legislativa do Distrito Federal, pelo PV, em 2010, Heitor Andrade afirmou que “o maior crime ecológico do país chama-se Águas Claras, construída pela corja da construção civil de Brasília, em cima do maior manancial hídrico do Brasil”.

Sobre o Cerrado: “Vem sendo destruído pelo pessoal da soja. É uma catástrofe, porque temos uma reserva hídrica gigantesca nesse bioma; as bacias hidrográficas do país nascem no Cerrado do Planalto Central”.

E sobre o Entorno do DF: “O governo de Goiás acha que o Entorno é problema de Brasília e Brasília acha que é de Goiás. O governo federal, com sua majestosa incompetência, também ignora o Entorno, que enfrenta graves problemas de saúde, de educação, muita criminalidade. O Entorno, que é na verdade uma região rica, está abandonado”.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

ENAc abre inscrições para Curso de Formação em Acupuntura/Medicina Tradicional Chinesa

BRASÍLIA, 6 DE DEZEMBRO DE 2013 – As inscrições para o Curso de Formação em Acupuntura (Medicina Tradicional Chinesa), da Escola Nacional de Acupuntura (ENAc), estão abertas, até 20 de dezembro, e de 13 de janeiro a 3 de fevereiro de 2014. A ENAc entra em recesso de 21 de dezembro a 12 de janeiro. Para matricular-se, após processo seletivo, é necessário que o candidato tenha concluído, ou apresente comprovação formal de matrícula no último ano do Ensino Médio. São 4 horas/aula diárias, de segunda a sexta-feira, das 8 horas ao meio-dia; e das 18h50 às 22h50.

Único no Distrito Federal autorizado pelo Ministério da Educação (MEC) e Secretaria de Educação do DF, o Curso de Formação em Acupuntura da ENAc tem duração de dois anos, com 2.080 horas/aula e 440 horas de estágio, num total de 2.520 horas/aula, em conformidade com orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS/ONU).

O investimento total, de R$ 15.120 (R$ 3.780 o semestre), poderá ser pago das seguintes maneiras: 6 cheques de R$ 567 cada ou 6 notas promissórias de R$ 630 cada no semestre; à vista, R$ 3.061,80 no semestre; ou três cheques de R$ 1.134, no semestre.

Certificado pela Enac, o profissional estará apto a clinicar e a abrir consultório próprio. O acupunturista realiza prognósticos energéticos por meio de métodos da Medicina Tradicional Chinesa para harmonização energética, fisiológica e psico-orgânica (Código Brasileiro de Ocupações – CBO, do Ministério do Trabalho).

As especialidades da Medicina Tradicional Chinesa são de ampla cobertura e eficácia terapêutica. Reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde, foram incluídas na lista de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, em 17 de novembro de 2010, durante a V Sessão do Comitê Intergovernamental da Unesco.

AMBULATÓRIO

O ambulatório da ENAc oferece atendimento em acupuntura e massagens terapêuticas, a preços reduzidos, nos seguintes dias e horários:

De segunda a sexta-feira – das 14 às 17 horas.
Às segundas, quartas, sextas e sábados – das 9 às 11 horas.
Às terças e quintas, das 19 horas às 20h30.

MAIS INFORMAÇÕES

A Enac, localizada na 404 Sul, Bloco A, Loja 33, é hoje referência nacional na formação em Acupuntura Tradicional Chinesa, contando com ambulatórios próprios e vários convênios com instituições e faculdades de referência no exterior.

Telefones: (55-61) 3322-4998 / 3322-3037

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Livro revela os subterrâneos da construção e anos heroicos de Brasília, transferida, no embalo da bossa nova, da Cidade Maravilhosa para o Cerrado


BRASÍLIA, 26 DE NOVEMBRO DE 2013 – A história dos candangos é contada em livro de 1.400 páginas, A Bailarina Empoeirada (Brasília, Annabel Lee Editora, 2013), a ser autografado quinta-feira 28, a partir das 18h30, no Salão Nobre da Câmara dos Deputados. Segue-se resenha do livro.

Brasília tem História? Há duas respostas. Brasília tem, sim, a história da sua construção, de suas obras, de seus monumentos. É a história dos bandeirantes modernos, dos sonhos proféticos, dos gênios da prancheta e dos heróis de tratores. É a retórica mudancista. Brasília ainda não tinha, entretanto, a história de sua gente, de seu povo, do seu construtor cotidiano.

Foi o que Luiz Humberto de Faria Del'Isola e Noemia Barbosa Boianovsky retrataram neste A Bailarina Empoeirada. Relataram a história dos comuns, dos anônimos, dos heróis da realidade. Não é uma “história dos vencidos”, tão em voga e tão maniqueísta. É uma história de vencedores anônimos, que ocuparam o vazio dos palácios e dos monumentos para fazer a cidade real.

O livro fala da Brasília entre 1956 e 1964. É a preservação – e em alguns casos até o resgate – de uma memória muito recente e ao mesmo tempo já distante.

Após quase 18 anos de pesquisa e intenso trabalho, a dupla de escritores publicou o resultado em quase 1.400 páginas de histórias saborosas e inéditas.

Algumas delas merecem destaque:

Em julho de 1961, cerca de 100 prostitutas de uma cidade-satélite de Brasília foram acordadas de madrugada, arrebanhadas como gado e jogadas na carroceria de caminhões da prefeitura do Distrito Federal. Ficaram largadas no meio do cerrado, a cerca de 40 quilômetros da capital recém-inaugurada. Os jornais da época, que não podiam publicar a palavra “prostituta”, chamaram-nas pudicamente de “bailarinas”. Daí o nome do capítulo que deu título ao livro: A Bailarina Empoeirada.

O cotidiano da vida na Zona do Baixo Meretrício: 50 relações sexuais no mesmo dia, o banho “tcheco” com a água comprada do Doidinho que a buscava na bica e a distribuía em latas de folha-de-flandres.

Em 1960, às vésperas da inauguração da nova Capital, o Supremo Tribunal Federal realizou sessão (dentre muitas) para decidir se... cumpria a Constituição! A Corte estava claramente dividida: parte dos ministros queria se mudar (cumprindo a Carta Magna) e a outra parte resistia à transferência para o cerrado. Pitoresca é a transcrição dos diálogos entre os magistrados, que ocuparam o tempo da Suprema Corte questionando se em Brasília haveria leite, água, gás e correio.

O intenso sofrimento por que passaram os cariocas durante o processo de mudança do Rio de Janeiro para Brasília; das areias de Copacabana para a terra vermelha do cerrado; do camarão e da lagosta para o pequi e a guariroba.

O meloso choramingar dos parlamentares, que se queixavam da falta de persiana nos apartamentos funcionais, da inexistência de lavanderias, empregadas domésticas, gramado nas quadras, supermercados; reclamavam da falta de leite, do preço da carne, da quantidade de ratos e "ratos" na cidade, e do tamanho das camas. Tudo isso dito em Plenário!

As facilidades desfrutadas por suas excelências irritavam os construtores anônimos, a exemplo de deputado que estava infeliz com a mobília do apartamento funcional e a incendiou; do que fez duas vezes a viagem do Rio para Brasília apenas porque “esquecera” em Brasília a chave do apartamento à beira-mar.

A hipocrisia do discurso oficial, que sempre tentou encobrir a existência da prostituição no canteiro de obras, a ponto de instituir um verdadeiro gueto para a zona do baixo meretrício.

A desconstrução de alguns mitos que foram criados para sustentar a retórica mudancista: a primeira missa de Brasília, que na verdade foi a segunda; a morte de Bernardo Sayão, objeto de várias versões fantasiosas; e a desconstrução da maior lenda urbana que já houve na Capital, o suposto "massacre" de trabalhadores em um acampamento de obras.

O divertido e ao mesmo tempo grotesco teor das primeiras ocorrências “policiais” durante a construção da Capital; as punições bizarras que eram impostas aos trabalhadores dos canteiros de obras que porventura viessem a cometer algum delito.

A Revolta dos Sargentos, ocorrida em 1963, que na avaliação dos autores marcou o rompimento de Brasília com João Goulart e antecipou o golpe de 1964. Nesse episódio, houve a prisão de um ministro do Supremo Tribunal Federal e a morte de alguns civis e militares; um deles, inclusive, baleado na Esplanada dos Ministérios.

O fantasma do “retornismo”, movimento acéfalo, sub-reptício e invisível que durante quatro anos assombrou os moradores de Brasília com a ameaça de retornar a Capital para o Rio de Janeiro.

A pouco reconhecida participação de Darcy Ribeiro como baluarte político do governo João Goulart e sua coragem frente aos militares. O apoio de Darcy Ribeiro à inconcebível bobagem que foi a Turma da Boa Vontade, que se autointitulava “Poliça da Boa Vontade”.

A obstinada teimosia dos moradores da Cidade Livre – que um dia Juscelino Kubitschek chamou de “excrescência urbana” e que Israel Pinheiro queria, a todo custo, varrer do mapa – ao resistirem à derrubada de seus barracos e à “higienização” daquele espaço geográfico, prevista nas pranchetas modernistas.

E mais, muito mais: os primeiros bares, botecos, restaurantes, escolas, jornais, clubes sociais, concursos de miss, lojas, roupas, programas de rádio, artistas de TV, cantores e cantoras, enfim: o cotidiano de uma cidade que procurava seu destino e sua consolidação e, ao mesmo tempo, lutava para se afirmar como Capital. (Divulgação)

domingo, 17 de novembro de 2013

Os hippies do PT já estão vendo o sol nascer quadrado


RAY CUNHA
raycunha@gmail.com


BRASÍLIA, 17 DE NOVEMBRO DE 2013 – As ditaduras ruem devido à sua própria natureza, que é a corrupção, inclusive ditaduras nas sombras, como a de Lula; sua organização, o PT, começa a espirrar carnicão. Quando Lula instalou a era da mediocridade, em 1 de janeiro de 2003, encontrou as finanças do país nos trilhos e o planeta em expansão econômica; então começou a aparelhar o Estado, transformando-o em cabide de emprego, e a gastar a rodo. Também se mancomunou com o que há de mais nocivo no país, Zé Sarney, Fernandinho (não o Beira-Mar, mas o Affonso Collor de Mello) e Paulo Salim Maluf, além de rodar o mundo distribuindo (?) dinheiro para ditadores carniceiros como Fidel Castro, o zumbi ladrão Hugo Chávez e abutres africanos, à nossa custa.

Mas o PT se descuidou, devido talvez à sensação de impunidade, e mergulhou no Mensalão, ignorando, por exemplo, a revista Veja, e dando o azar de pegar pela frente Joaquim Barbosa na posição de presidente do Supremo. Assim, já estão presos na Papuda, Zé Dirceu, braço direito do Chefão (este, um sujeito misterioso que ainda falta pegar), e Zé Genoino, um tipinho simulado, diferentemente de Zé Dirceu, que tem cara e modos de gangster. Muita gente boa também já está na cadeia e outras estão se preparando. A bandidagem de colarinho branco pôs a barba de molho. O Sapo já perdeu a dele. Dilma Rousseff, a presidenta (existirá a palavra estudanta?), preposta de Lula, não tem barba.

A situação do Brasil é, hoje, preocupante. A indústria estagnou; a infraestrutura básica do país está estraçalhada; os transportes públicos são ultrajantes; o setor de saúde é um matadouro; são assassinadas e morrem no trânsito, no país, cerca de 100 mil pessoas por ano; e a grande tragédia: o definhamento, o estrangulamento, a morte por anemia, do Ensino. Isso, sem falar-se em escravidão, tráfico de crianças para fins sexuais, espoliação da Amazônia etc. etc. etc. A propósito da Amazônia, a maior província biológica, aquífera e mineral do planeta, os governos que se sucedem em Brasília tratam-na como se fosse uma colônia – vão lá, extraem o que podem, inclusive energia hiderelétrica, dão uma cagada e voltam para a ilha da fantasia.

Não descarto que a organização de Lula, o PT, permaneça no poder mais cinco anos, porém tenho certeza de que, se isso acontecer, provavelmente antes dos cinco anos ou o povão ou as Forças Armadas agarre os cabeças dos petralhas e os linche, no caso do povão, ou os prendam, no caso das Forças Armadas, porque, então, o Brasil já estará num precipício.

Fala-se em reforma disso e daquilo outro. Precisamos somente de uma: a do Estado, e de se investir, pesadamente e sem descontinuidade, na Educação. Nada de se ensinar a nossas crianças a falarem “Nós vai pescar”. Esquerda? É tão deletéria quanto o nazismo. Se alguém tiver alguma ideia melhor do que democracia, que lute por ela, porque será algo muito bom. O máximo a que se chegou foi às comunidades hippies, paz e amor. Mas ficou patente que os hippies gostavam muito de sexo, álcool, maconha, peiote e LSD, se possível com um solo de guitarra.

O PT é também chegado a bacanal, especialmente quando há na parada uma teta prenhe, de banco ou de erário.

sábado, 9 de novembro de 2013

Brasília e Amazônia em sessão de autógrafos no Monardo Gastronomia e Cultura

Ray Cunha lê conto no Bar Faixa de Gaza/Galeria
Olho de Águia (Foto: Ivaldo Cavalcante)


Por MARCELO LARROYED
larroyed@gmail.com


BRASÍLIA, 9 DE NOVEMBRO DE 2012 – Ray Cunha autografa O Casulo Exposto (LGE Editora/Ler Editora, Brasília, 153 páginas, R$ 30) e Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos (edição do autor, Brasília, 116 páginas, R$ 20), dia 21 de novembro, uma quinta-feira, das 17 às 20h30, no Monardo Gastronomia e Cultura, na 201 Sul (atrás do Banco Central), Bloco B, Loja 9, telefone 3425-3566. A compra dos dois livros fica por R$ 40.

O Casulo Exposto enfeixa 17 contos ambientados no Distrito Federal. Trabalho, como jornalista, em Brasília, desde 1987, cobrindo amplamente a cidade-estado, o Entorno e o Congresso Nacional, o que me proporcionou conhecer bem essa geografia, inclusive a humana, que serviu para criar as personagens e o cenário dessas histórias curtas” – diz Ray Cunha. “O casulo é uma alegoria à redoma legal que engessa o Patrimônio Cultural da Humanidade, a borboleta de Lúcio Costa, ninfa golpeada no ventre, as vísceras escorrendo como labaredas de luxúria, depravação e morte, nos subterrâneos e na esfera política da cidade dos exilados, onde chafurda uma fauna heterogênea: amazônidas que deixaram a Hileia para trás e tentam sobreviver na ilha da fantasia; jornalistas se equilibrando no fio da navalha; políticos, daquele tipo mais vagabundo, que esconde merenda escolar na mala do seu carro e dinheiro na cueca; estupradores; assassinos; bandidos de todos os calibres; tipos fracassados e duplamente fracassados, misturando-se numa zona de fronteira e penumbra.”

PREFÁCIO DE MAURÍCIO MELO JÚNIOR – O jornalista e escritor Maurício Melo Júnior diz, no prefácio de O Casulo Exposto, o seguinte: “O escritor Jorge Amado costumava se queixar de algumas ausências da literatura brasileira. E dizia que a mais gritante delas era a falta de romances sobre o ciclo do café, como os que foram escritos sobre os ciclos da cana-de-açúcar e do cacau. Também podemos dizer que ainda não surgiram os escritores que tomaram o desafio de contar as sagas da busca da borracha na Amazônia e da construção de Brasília em pleno cerrado goiano.

“Neste seu novo livro de contos e novelas, o escritor Ray Cunha, nascido no Amapá e vivente de Brasília, passa longe da narrativa de homens perdidos na solidão da floresta ou na poeira das construções incansáveis. O que interessa ao escritor são os resultados daquelas experiências, são os personagens que ficaram depois das epopeias.

“Os homens e mulheres que saltam destas páginas são bastante curiosos. Têm a política no sangue, embora apenas transitem em torno dela. Veem o poder bem de perto, mas não participam de suas benesses. Também calejados pelas dores impostas pela opressão da floresta, já nada os surpreende e a violência pode ser uma forma de defesa ou sobrevivência. Sim, os escrúpulos são poucos. Ou, citando Jarbas Passarinho, um acriano que fez carreira política no Pará, “às favas com o escrúpulo”. Em compensação, a sensualidade aflora na pele dessa gente. O perigo é que também este poder de encantar e seduzir é instrumento de dominação.

“Naturalmente que a visão que temos aqui está superdimensionada pelos requisitos da literatura, mesmo assim sua base tem intensos pontos de realismo. E Ray ainda lhes dá um tratamento recheado de um humor cáustico, em alguns momentos até cruel. No entanto, este humor nasce do clima noir, o clima dos filmes e livros policiais surgidos nos anos de 1940.

“Sem saudosismos e com muito suspense, os contos e novelas de Ray Cunha nos põem diante dos brasilienses, esses seres nascidos da junção plena de todos os brasileiros. E vale muito a pena conhecê-los”.

ENTREVISTA A ALDEMYR FEIO – Segue-se entrevista concedida por Ray Cunha ao jornalista paraense Aldemyr Feio.

O que o levou a escrever O Casulo Exposto?

Costumo ambientar meus livros na Amazônia, especialmente Belém, minha cidade predileta. Porém vivo em Brasília desde 1987. Do início de 1996 ao fim de 1997, voltei a morar em Belém, mas por questões profissionais retornei a Brasília. Uma estada tão longa nos leva a conhecer bem o ambiente onde vivemos; assim, é natural que comecemos a escrever algumas histórias com a geografia da cidade onde moramos. Em 2008, observei que já escrevera 17 contos ambientados em Brasília e com personagens que são, quase sempre, migrantes, que transitam nas ruas e nos meios jornalísticos e políticos da cidade-estado. Submeti os 17 contos à leitura do Maurício Melo Júnior, escritor talentoso e crítico literário bem preparado. Ele escreveu a apresentação do livro e sugeriu que o levasse ao Antonio Carlos Navarro, diretor da LGE Editora, que resolveu editá-lo.

Maurício Melo Júnior, ao apresentar o livro, afirma que “O que interessa ao escritor são os resultados daquelas experiências, são os personagens que ficaram depois das epopeias”. Por quê?

Um dos fios condutores de O Casulo Exposto são as personagens, em geral migrantes, às vezes frustrados ou duplamente frustrados. As epopeias a que Maurício se refere é a construção de Brasília – uma fase da cidade que já acabou. Restaram os candangos bem-sucedidos, como o empresário Paulo Octávio, dono de boa parte da cidade, e muita gente que mora em assentamentos e invasões. Migrantes continuam chegando, mas agora tudo está lotado. Os contos, portanto, não enfocam uma epopeia, mas a miudeza do dia-a-dia na capital da república.

Maurício também afirma: “Ray Cunha ainda lhes dá um tratamento recheado de um humor cáustico, em alguns momentos até cruel”. O que ele quis dizer com isso?

Algumas das personagens dos contos são tragicômicas. Outras, apenas trágicas. Creio que o humor cáustico a que Maurício se refere é o que costumamos chamar de humor negro, quando situações, apesar de dramáticas, ou trágicas, contêm, mesmo assim, viés risível.

Seus romances e contos são, geralmente, ambientados na Amazônia. Qual a sensação de escrever um livro candango, ou seja, produzido com as coisas que acontecem em Brasília?

É a mesma sensação de trocar pirão de açaí com dourada frita por pão de queijo, ou de trocar a Estação das Docas por shopping. São duas situações absolutamente diferentes. No meu caso pessoal, caio de joelhos por tudo o que diz respeito à Amazônia, mas também curto Brasília. Assim, sinto-me perfeitamente à vontade tanto na Amazônia como em Brasília.

O casulo é uma alegoria à redoma legal que engessa o Patrimônio Cultural da Humanidade...” mas “também tresanda a perfume, romance e esperança, nas luzes da grande cidade”. Dá para explicar?

O casulo do título evoca o fato de que Brasília é reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade. Em termos práticos, não se pode mudar a arquitetura original do Plano Piloto de Brasília, que compreende o projeto do urbanista Lúcio Costa, excluindo-se as cidades-satélites. Então, o Plano Piloto é protegido sob uma redoma legal, um engessamento legal. É Patrimônio Cultural da Humanidade, mas nas suas ruas e nos seus subterrâneos não há romantismo, como em toda metrópole brasileira, inchadas e perigosas. Apesar disso, há contos de puro perfume, romance e esperança. O conto que encerra o livro, A Caça – que inclusive já foi publicado pela Editora Cejup –, quase no fim, refere-se às luzes de Brasília e termina no quarto de um bom hotel.

Você acha que o leitor vai entender as suas colocações contidas no Casulo?

Certamente que sim. A literatura, como qualquer arte, tem algo maravilhoso. No seu caso específico, as palavras remetem o leitor a mundos que são somente dele. O escritor é um mero porteiro. Lembrei-me de um caso que ocorreu com William Faulkner. Alguém o informou que leu duas vezes um livro seu e não entendeu a história. Faulkner sugeriu que lesse mais uma vez.

Nos casos relatados no livro você teve alguma participação ou foram vivenciados apenas superficialmente?

O senso comum mistura atores com personagens e acredita que ficção é o que conhecemos como realidade. Se assim fosse, quantos escritores não estariam atrás das grades por assassinato? O fato é que até nas autobiografias há mais ficção do que realidade. O escritor que faz seu trabalho com seriedade não está interessado em jornalismo. Estou certo de que pelo menos 75% do que os jornais publicam originam-se de interesses dos donos, de ideologia, de conjecturas, de boatos, ou de mentiras pura e simplesmente. Também o escritor não está interessado em si mesmo, pois todos os escritores são pessoas comuns e, muitas vezes, introvertidas. Qual a participação que um escritor pode ter numa história que se passa em outro planeta?  Como Antoine de Saint-Exupéry criou O Pequeno Príncipe? Esta é a diferença: as antenas especiais com que os escritores nascem, o que permitiu, por exemplo, que Ernest Hemingway criasse uma mulher abortando, em Adeus às Armas, ou que John Steinbeck desse vida a uma mulher que acaba de perder seu bebê recém-nascido e dá de mamar a um ancião que está morrendo de fome, em Vinhas da Ira.

Quem é Ray Cunha?

Nasci em Macapá, na margem esquerda do estuário do rio Amazonas, e cortada pela Linha Imaginária do Equador, em 7 de agosto de 1954. Fui educado na Amazônia. Conheço a Hileia razoavelmente, por longa leitura e por ter estado lá. Vivo em Brasília por uma questão de mercado de trabalho. Aqui, consigo oferecer à minha família razoável padrão de vida, sustentado pela minha profissão, jornalismo. Literatura, para mim, é minha missão pessoal. Embora morando em Brasília, a internet me permite ficar ligado o tempo todo à Amazônia. Tenho ligação íntima com Belém, um dos meus grandes amores, e, naturalmente, com Macapá. Quanto a Brasília, já somos velhos namorados. Brasília me deu duas mulheres fundamentais: minha esposa, e minha luz, Josiane, e uma flor, minha filha Iasmim.

TRÓPICO ÚMIDO – TRÊS CONTOS AMAZÔNICOS – Trópico Úmido reúne três contos com pano de fundo em quatro cidades da Amazônia: Belém, capital do Pará; Macapá, capital do Amapá; Manaus, capital do Amazonas; e Rio Branco, capital do Acre. Inferno Verde conta a história do repórter Isaías Oliveira, num duelo com o sinistro traficante Cara de Catarro. A trama se passa em Belém e na ilha de Marajó.

Latitude Zero se desenrola em Macapá, cidade situada no estuário do maior rio do planeta, o Amazonas, na cofluência com a Linha Imaginária do Equador. Um punhado de jovens começa a descobrir que a vida produz também ressaca.

A Grande Farra narra as peripécias do jovem repórter e playboy Reinaldo. Candidato a escritor, ele gasta seu tempo trabalhando como repórter, bebendo e se envolvendo com inúmeras mulheres. O conto tem sua geografia em Manaus, encravada no meio da selva amazônica, e em Rio Branco, no extremo oeste brasileiro.

OBSESSÕES AMAZÔNICAS DE RAY CUNHA – Maurício Melo Júnior escreveu sobre Trópico Úmido: “A literatura brasileira está numa encruzilhada. Cada autor atira para um lado e ninguém consegue formatar o que no passado se chamou de movimento. Mesmo em lugares onde se pratica uma literatura regional intensa – Pernambuco e Rio Grande do Sul, por exemplo – não há o senso de união. Isso, se por um lado favorece a diversidade temática, por outro, paradoxalmente, desagrega autores e enfraquece o trabalho de formação de leitores. Embora o ato de escrever seja um exercício de solidão, são a vivência e a convivência que dão ao escritor o estofo necessário para a composição do texto.

“O escritor Ray Cunha, nascido na beirada da floresta amazônica, sofre do mal que vitimou parte de seus colegas a partir dos anos setenta: é um escritor desagregado, carente de grupos com quem possa discutir temas, estéticas e formas. Isso fica muito claro em seu livro Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos, no qual, apesar de uma certa obsessão geográfica, sente-se a ausência da região em sua plenitude. O leitor mais exigente terminará a leitura carente do sotaque e das cores amazônicas, embora fique saciado com o desenvolvimento bem resolvido da trama.

“O conto que abre o livro, Inferno Verde, conta a história do repórter Isaías Oliveira em duelo sangrento e perverso com o traficante Cara de Catarro. O segundo texto, Latitude Zero, fala de um grupo de jovens em descobertas sexuais em Macapá. Pode ser visto como um conto de formação, embora carregado do escancaro de Charles Bukowisk, o que é até compreensível em quem sobreviveu às teorias de Freud e à revolução sexual dos anos sessenta. Finalmente, o último conto do volume, A Grande Farra, conta a história de Reinaldo, um repórter que sonha ser escritor, mas, milionário, gasta a vida em bebedeiras e aventuras sexuais.

“A linha que liga todos os textos, além da região amazônica, é mesmo a temática da sexualidade. No entanto, este sentimento está muito próximo das práticas vindas com a liberação sexual dos anos sessenta, unidas a um certo sadismo dos personagens. Num pobre exercício de paráfrase com os Atletas de Cristo, que trazem halos angelicais para os nossos atletas do futebol, podemos dizer que os personagens de Ray Cunha são Atletas de Sade. É impressionante a obsessão por um ato doloroso e imposto. Há sempre dominação do macho sobre a fêmea, mesmo quando ela, também filiada à revolução sexual, escolhe seu parceiro. Ainda assim prevalece a força do macho.

“Esses personagens construídos pelo autor, por conta da defesa de uma geração perdida, terminam por carregar cores muito iguais. São todos hedonistas, amantes do prazer sobre todas as coisas. Por conta desse sentimento entram de cabeça na vida sem medir qualquer consequência. E fica clara aí a influência de Bukowisk, o velho safado, embora a sensualidade das ninfetas traga para os textos uma certa lembrança de Nabokovisk, o velho também safado, mas um pouco mais pudico. Sobrevive disso tudo um mundo excessivamente cruel, posto que o prazer é o que menos importa aos moços. Todas as relações têm como objeto a sujeição do parceiro.

“O poeta Augusto dos Anjos falava em um de seus sonetos da “obsessão cromática”, do que chamava de fantástica visão do sangue se espalhando por toda parte. Ray Cunha trás para a literatura um pouco dessa obsessão, que faz a festa dos repórteres policiais. Há muitas cenas cruéis, com requintes de crueldade, dignos das páginas dos romancistas policiais americanos da década de cinquenta, um período no qual a fineza britânica de Conan Doyle foi substituída pela inspiração de Bram Stoker.

“Finalmente, há obsessão geográfica. Para um livro passado na Amazônia isso é bem interessante. No entanto o autor poderia descrever mais e citar menos. Explica-se. É comum por todo o texto o nome de ruas onde moram, vivem e rodopiam os personagens. O problema é que a citação pura e simples do nome da rua simplesmente não remete a qualquer impacto sobre o leitor que não conhece as ruas. O autor poderia descrever as ruas, o que daria uma informação a mais ao leitor, situando-o até no ambiente por onde transitam os personagens.

“Fica do livro, entretanto, a construção da história. Há pontos de prisão do leitor no jogo de curiosidades desvendadas aos poucos. O autor sabe manipular bem a trama, levando o leitor ao clímax. Com isso, resgata uma das maiores carências da literatura brasileira atual: o bom contador de história. É que os nossos novos escritores, buscando a universalidade linguística de Guimarães Rosa, esqueceram que ele sabia contar bem uma história. Resultado: renunciaram à narrativa e não ganharam a inventividade estética.

“Ray Cunha consegue contar bem suas histórias. No entanto poderia ter trazido o mundo mais amazônico para suas páginas; poderia deixar um pouco as influências estrangeiras e seguir a trilha de autores como Benedicto Monteiro. Isso pode transformá-lo no grande representante da literatura amazônica moderna. Aquele que conseguirá traduzir boa linguagem com boa narrativa, e tudo temperado em um bom caldo de tucupi”.

LIVROS DO AUTOR – Ray Cunha estreou como escritor em 1971, com o livro coletivo, de poemas, Xarda Misturada (edição dos autores, Macapá), juntamente com o poeta e contista José Edson dos Santos e José Montoril; em 1982, publicou Sob o Céu nas Nuvens (edição do autor, Belém, poemas); em 1990, lançou A Grande Farra (edição do autor, Brasília, contos); em 1996, a Editora Cejup, de Belém, lançou o conto A Caça. Em 2000, saiu Trópico Úmido - Três Contos Amazônicos; em 2003, a Editora Cejup lançou o romance A Casa Amarela, ambientado em Macapá, no ano do golpe militar de 1964; e em 200, a LGE/Ler Editora publica O Casulo Exposto.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Para Dilma Rousseff, espionagem deve cumprir legislação. Especialista em contraespionagem, Jorge Bessa analisa a atitude da presidente

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 7 DE NOVEMBRO DE 2013 – À denúncia do ex consultor da Agência Nacional de Segurança (NSA) dos Estados Unidos, Edward Snowden, de que o governo americano espiona a Europa, o Brasil e todo mundo que lhe interessa, e que o jornalista britânico Glenn Greenwald tem divulgado, a presidente peteemedebista Dilma Rousseff fez um rapapé e peitou até o presidente Barack Obama, dos Estados Unidos. O material colhido na espionagem é fajuto. E depois, todo mundo espiona todo mundo, até vizinhos espionam-se entre si, principalmente quando há vizinhas gostosas na jogada.

Ontem, a presidenta, como ela gosta de ser chamada (haverá estudanta?), afirmou que a espionagem produzida pelo Brasil é diferente da praticada pelos EUA, explicando que no Brasil “todos os procedimentos foram feitos de acordo com a legislação”. Ela espera que Obama peça sua permissão para espionar o trem descarrilado que é o atual governo brasileiro. Dilma disse mais: que não teria cancelado sua visita aos Estados Unidos se Obama lhe tivesse pedido desculpa. Tudo isso é calculado, de olho em outubro de 2014.

Dilma fez esse rapapé todo porque em 2014 teremos eleições para presidente, e Lula está no páreo. O negócio já está ganho, com as bolsas, inclusive a bolsa-bandido (a dos presidiários), e as urnas eletrônicas (alguém conhece algum país sério que eleja presidente da república eletronicamente?), porém nunca é demais fazer de conta que se está enfrentando os Estados Unidos.

A Globo News ouviu o especialista em contraespionagem Jorge Bessa, escritor, psicanalista e acupunturista. Em resumo, Bessa disse que todos os Estados se espionam desde o início da história da Humanidade e que Dilma Rousseff fez esse alarido e aparentemente enfrentou Barack Obama de olho nas eleições de 2014, na qual o mentor de Dilma, Lula, será candidato. No momento, Lula está amoitado, depois do Mensalão e do desmascaramento da sua grande amiga íntima Rosemary Noronha.

http://raycunha.blogspot.com.br/2013/06/jorge-bessa-autografa-o-juizo-final-e.html
Segue-se a entrevista com Jorge Bessa, no seguinte link:

sábado, 19 de outubro de 2013

O silêncio das trevas

RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

BRASÍLIA, 18 DE OUTUBRO DE 2013 – O Ministério da Justiça divulgou, hoje, estudo inédito, com dados coletados entre 2002 e 2012, sobre tráfico de escravos no Brasil. Na Amazônia, além de a escravidão ser comum, há outra faceta, diabólica, dessa nódoa: a escravidão sexual – de mulheres e crianças. A Amazônia é um paradoxo. O mais belo realismo fantástico da Terra, a mais rica província mineral do mundo, a maior diversidade biológica do planeta, é também O coração das trevas, obra-prima de Joseph Conrad, uma zona imprecisa da alma. Esse pequeno romance de pouco mais de 150 páginas é um golpe de navalha seccionando tecido humano, obsceno como o ataque de hienas. É o mais intenso de todos os relatos que a imaginação humana jamais concebeu, disse o labiríntico Jorge Luís Borges. Assim é a face obscura da Amazônia. O Inferno Verde não é a selva profunda, mas o latejar da escuridão, espasmos da alma amazônida, a loucura e o malogro da civilização colonialista.

A Amazônia é vigiada e saqueada desde o século XV. Potências europeias, americanos, brasileiros de todos os recantos do país, inclusive os governos federais, um após outro, todos têm repasto garantido na Amazônia. Nos dias de hoje, leva-se, da Amazônia, a floresta, energia hidrelétrica, minérios, pedras preciosas, animais, mulheres e crianças, e é um dos locais onde mais se escraviza no mundo. Até agora, o desenvolvimento imposto à Amazônia é para dizimar os amazônidas – índios, ribeirinhos, caboclos, quilombolas – e para encher os cofres de políticos que transformam o erário em lavanderia. Os presidentes da República governam de costas para a Amazônia.

Um caso que aconteceu em novembro de 2007, em Abaetetuba, cidade no quintal de Belém, constitui-se uma metáfora da Amazônia. Delegados da Polícia Civil do Pará, com a conivência de gente do Judiciário, atiraram uma menina a dezenas de criminosos na cadeia da cidade. Essa garota apavorada foi currada dia após dia, durante um mês. Assassinos, estupradores, espancadores de mulheres e crianças, ladrões, arrombadores, batedores de bolsa de velhinhas, psicopatas, drogados, caíram em cima dessa menina, como hienas, e os policiais, ali perto, ouvindo e vendo tudo. Os berros de terror eram ouvidos pelos delegados e pelos moradores da cidade, e ninguém moveu uma palha por ela. A então governadora, a petista Ana Júlia Carepa, tratou o caso com a habitual alienação, e tudo mergulhou no esquecimento. Crianças são emblemáticas na tragédia da Amazônia.

Em 27 de junho de 2006, publiquei na minha antiga coluna Enfoque Amazônico, no site brasiliense ABC Politiko, o mapa da escravidão sexual infantil na Amazônia. Relendo o texto, vejo que essa realidade continua como um nervo exposto. O tráfico de crianças para escravidão sexual é um dos crimes mais repudiados pela sociedade, por sua feição abjeta, mas é corriqueiro na Amazônia. Em 1979, fiz, para o antigo mensário Varadouro, em Rio Branco, uma reportagem sobre o tráfico de meninas pela BR-364, espinha dorsal do Acre, que liga o estado ao resto do país. Frequentei boates e bares, pontos de encontro de caminhoneiros, entrevistei prostitutas e rodoviários, e bisbilhotei registros policiais, concluindo que parte dessas meninas que sumiam em Rio Branco era atirada em prostíbulos de Porto Velho, Manaus e Goiânia. Outras, simplesmente fugiam da miséria. Trinta e um anos depois a situação piorou, e muito. O drama, que afeta toda a Amazônia, foi ampliado em escala assustadora.

Foram identificadas 76 rotas de tráfico de mulheres, crianças e adolescentes na Amazônia, segundo a Pesquisa sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para Fins Sexuais, coordenada pelo Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes (Cecria) e pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Exploração Sexual, do Congresso Nacional, há cinco anos atrás. A Interpol francesa calcula que a rede internacional de tráfico de pessoas movimenta cerca de US$ 9 bilhões por ano.

Nesse comércio negro, assim como ocorre com políticos corruptos, a imunidade, digo, impunidade, é garantida. O holandês Kunathi, um dos maiores traficantes de pessoas em atividade na Amazônia, já foi preso em flagrante no Pará, mas a Justiça o soltou para responder ao processo em liberdade. Não deu outra, Kunathi fugiu para o Suriname, antiga Guiana Holandesa, onde é dono de boate na qual só trabalham brasileiras, muitas delas do Pará e do Amapá.

Em 2006, adolescentes de Altamira, no Pará, que caíram nas garras de uma quadrilha de exploração sexual e a denunciaram, foram ameaçadas de morte se falassem na Justiça. A polícia paraense, despreparada, não pôde dar segurança às vítimas e só conseguiu provas contra 3 dos 15 acusados. A ação da quadrilha envolvia inclusive um político e empresários. “É uma rede complexa de exploração sexual, com várias vítimas e vários adultos envolvidos. É preciso que haja vontade política para que se chegue aos outros envolvidos” – disse, à época, Ana Lins, advogada da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SPDDH).

Em março daquele ano, a polícia de Altamira localizou várias adolescentes, algumas dadas como desaparecidas por suas famílias, em uma chácara, onde eram embebedadas e servidas em banquetes sexuais fotografados. As fotos eram divulgadas na internet. As orgias ocorriam também em motéis da cidade e em imóveis de um dos acusados, além de chácaras e balneários no município, onde as bacanais duravam dias.

Ameaçadas de morte, vítimas e suas famílias, e testemunhas, desdisseram nos depoimentos à Justiça as declarações prestadas no inquérito policial. Uma das vítimas contou que foi ameaçada na porta da escola onde estuda. Sua família recebeu até bilhetes com ameaças de morte. A jornalista Iolanda Lopes, que denunciou a quadrilha em várias reportagens, disse que recebeu três telefonemas ameaçadores.

As adolescentes foram, ainda, humilhadas na Câmara de Altamira, onde tiveram seus nomes divulgados durante sessão plenária. “A vergonha, a humilhação, o sentimento de desesperança e a depressão são alguns sintomas encontrados em várias das vítimas desse tipo de crime” - comentou a advogada Ana Lins. “A revitimização é o calvário de ter que reviver os momentos do crime ao ter que relatá-los várias vezes. Esse calvário vai desde não ser atendida dignamente na delegacia, às vezes esperando horas e horas, até conseguir registrar a ocorrência policial, a realização de exames periciais sem a devida humanização do servidor responsável, até ver os algozes soltos livremente e voltando a delinquir em alguns casos.”

Em janeiro de 2005, o Jornal Nacional, da TV Globo, publicou uma série de reportagens intitulada Povos das Águas, na qual focalizou o trânsito de balsas em Breves, na ilha do Marajó. Nessas balsas, na cabine de carros, crianças marajoaras serviam de repasto sexual durante o cruzamento do rio. De um modo geral, os municípios marajoaras são miseráveis, apesar da natureza pujante da maior ilha flúvio-marítima do mundo. O Marajó, uma das mais belas regiões do planeta, é do tamanho da Suíça. A ilha é banhada pelos rios Amazonas e Pará, e pelo Oceano Atlântico.

“Foi constatado no início da década de noventa pelo jornalista da Folha de São Paulo, Gilberto Dimenstein, que no Vale do Jari haveria prostituição infantil em larga escala” – comentou, em 2007, o governador eleito do Amapá, deputado estadual Camilo Capiberibe. O rio Jari divide o Amapá do Pará desde a Serra do Tumucumaque, na fronteira com o Suriname, até desaguar no rio Amazonas, no sul do Amapá. O Beiradão, no município amapaense de Laranjal do Jari, é apenas uma das zonas de “fronteira” na Amazônia, nas quais a escravidão sexual infantil é crime banalizado e recorrente.

O comércio de crianças amapaenses e paraenses é intenso na Guiana Francesa e no Suriname, ao norte do Amapá, principalmente em cidades como Kourou, onde fica a base francesa de lançamento de satélites; o balneário de Montjoly e Saint Laurent. Meninas e meninos amapaenses e paraenses são bastante apreciados para bacanais, corrompidos por promessas de casamento com franceses ou pela possibilidade de ir para a Europa, onde imaginam que possam ganhar até 100 euros, cerca de R$ 400, por programa, escapando, assim, da miséria.

Dos 200 mil habitantes da Guiana Francesa, 50 mil são brasileiros ilegais, amapaenses em sua maioria, que fogem do Amapá, estado assolado pela miséria social, roubalheira de colarinho branco, nepotismo e corrupção endêmica. A capital, Macapá, é reflexo do desleixo administrativo. Cidade sem esgoto, cheia de ruas esburacadas, com fornecimento precário de energia elétrica e água encanada, apesar de ficar na margem do maior rio do mundo, o Amazonas, a cada dia fica mais inchada e violenta.

Próximo de Caiena, a capital da França na Amazônia, localiza-se a cidade amapaense de Oiapoque. A maior economia do município é, aparentemente, sexo, pois a cidade é a porta de entrada para a prostituição internacional na Amazônia Caribenha. Antes de as meninas seguirem para as três Guianas, passam, geralmente, por um estágio em Oiapoque. Boates locais são o internato que prepara meninas e meninos para o abate.

Assim, guianenses que atravessam o rio Oiapoque atraídos por sexo são recebidos na cidade de braços abertos – inúmeros bares nos quais o lenocínio prospera, de manhã à noite, açougues onde pode-se comprar crianças de, em média, 13 anos. No Amapá, cidades como Laranjal do Jari, Tartarugalzinho, Calçoene e Santana, esta, na zona metropolitana de Macapá, são, como Oiapoque, vitrines de carne infantil. O jornal O Liberal, de Belém, e o mais influente da Amazônia, contém, no seu banco de dados, ene reportagens que confirmam o que eu estou dizendo, com nomes, lugares e datas.

Em Brasília, o plenário da Câmara Legislativa do Distrito Federal fechou os olhos e arquivou processo contra o deputado Benício Tavares (PMDB), que respondia na Justiça por turismo sexual no estado do Amazonas. Benício foi liberado por 14 votos favoráveis e 10 abstenções. Em 2007, o então governador de Brasília, José Roberto Arruda (ex-DEM), deu a Benício Tavares a Administração Regional de Ceilândia, o maior colégio eleitoral da cidade-estado. O povo se revoltou, pois, além da acusação de corruptor de menor, Benício Tavares é acusado de desvio de dinheiro. Arruda teve de tirá-lo do cargo. Este ano, o próprio Arruda foi preso, acusado de comandar um esquema de corrupção de dar inveja aos maiores ladrões do país.

Madrugada de 16 de setembro de 2004, marina da Ponta Negra, Manaus, Amazonas. A bordo do iate Amazonian, de 25 metros de comprimento, 15 políticos e empresários de Brasília e de São Paulo aguardam um carregamento para zarpar rio Negro acima, aparentemente para uma pescaria em Barcelos, a 450 quilômetros da capital amazonense, em passeio organizado pelo dentista paulista Flávio Talmelli. Era o terceiro ano que o alegre grupo de políticos e empresários candangos-paulistas se reunia.

Finalmente o carregamento chega. São peixes servidos antes mesmo da pescaria: 17 meninas, a maioria delas menor, aliciadas em casas noturnas de Manaus. O programa, de dois dias e duas noites renderia R$ 400 a cada uma, fora gorjetas. As garotas foram conduzidas ao iate pela cafetina Dilcilane de Albuquerque Amorim, conhecida como Dil, 33 anos, que ganharia R$ 100 por garota.

Domingo 19. As meninas se dividiram em dois grupos para o retorno a Manaus. O Amazonian, com os políticos e empresários, seguiu rio Negro acima, com destino a um hotel na selva. Doze meninas retornaram a Manaus. No fim do dia, as cinco meninas restantes retornaram também, no barco Princesa Laura. O barco naufragou naquele mesmo domingo, entre Manaus e Barcelos, com 100 passageiros. Morreram 13 pessoas, entre as quais as cinco garotas que participaram da orgia: Amanda Ferreira Silva, 20 anos; Marlene Cristina dos Santos Reis, 19; Suzie Nogueira Araújo, 18; Taiane Barros, 17; Hingridy Florêncio Viana, 16.

Dois dias antes do acidente, alguns pais queixaram-se à polícia sobre o desaparecimento de suas filhas. Agentes da Delegacia Especializada de Assistência e Proteção à Criança e ao Adolescente de Manaus (Deapca) descobriram que as meninas mortas haviam participado de uma bacanal e eram as mesmas que estavam sendo procuradas pelos pais. Depois, localizaram algumas meninas que retornaram a Manaus, do Amazonian. Descobriu-se, então, que três homens que estavam no Amazonian deixaram a embarcação em Barcelos e, dia 23 de setembro, retornaram a Manaus, em avião da Apuí Táxi Aéreo.

Foi aí que identificaram o então presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, deputado distrital Benício Tavares da Cunha Melo, do PMDB, que adotou o nome Benício Mello (prenome e último sobrenome); Randal Mendes (Sérgio Randal), cunhado de Benício Tavares e, então, chefe de gabinete da presidência da Câmara Legislativa do DF; e o advogado brasiliense Marco Antônio Attié.

Uma das menores ouvidas pela polícia disse que Benício Tavares manteve relações sexuais com pelo menos duas menores, uma das quais Taiane Barros, 17 anos, mãe de um bebê de sete meses, e que morreu afogada no Princesa Laura. Outra garota afirmou, em depoimento à polícia, que manteve relações sexuais com Benício, que teria pago R$ 500 a ela. Uma menor disse que Benício lhe ofereceu R$ 500 para manterem relações sexuais, mas ela recusou. Seis das moças que estiveram a bordo do Amazonian garantem que Benício chegou a pagar valores entre R$ 200 e R$ 1 mil para manterem relações sexuais com ele, inclusive com as menores de idade.

Das 17 meninas contratadas para a bacanal, seis afirmaram, em depoimento à delegada Maria das Graças Silva, titular da Delegacia Especializada de Assistência e Proteção à Criança e ao Adolescente, que Benício Tavares esteve no iate nos dias 17, 18 e 19 de setembro, e que manteve relações sexuais com várias garotas, entre as quais pelo menos duas menores. A delegada garante que coletou elementos suficientes para provar a participação de Benício Tavares em turismo sexual. Maria das Graças Silva mostrou, dia 27 de setembro, fotografias de Benício Tavares a três meninas que participaram da orgia. Elas identificaram imediatamente o parlamentar, que é paraplégico.

Três meninas ouvidas pela polícia garantem que no iate Amazonian havia bebida alcoólica e drogas, e que foram realizados desfiles de garotas nuas e sorteio de brindes aos participantes. Em depoimento à polícia, a cafetina Dil declarou que a bacanal foi contratada pelo dentista paulista Flávio Talmelli. “Ele disse que o passeio seria muito divertido e que todas as despesas, desde hospedagem a alimentação, seriam pagas por seus amigos. Somente convidei algumas amigas” - defendeu-se Dil. As garotas disseram à polícia que foram enganadas por Dil. O combinado é que receberiam R$ 400, mais gorjetas, mas, a bordo, receberam somente R$ 200.

Em nota oficial, divulgada no dia 27 de setembro de 2004, Benício Tavares confirmou a viagem a Manaus, de 16 a 22 de setembro, para pescar no rio Negro, hobby até então insuspeito. Confirmou também o vôo Barcelos-Manaus. Negou relacionamentos sexuais com garotas menores de idade. Para fazer a viagem turística, Benício se licenciou da Câmara, da qual era presidente, por 10 dias, embora a casa estivesse votando uma pilha de matérias e sua presença fosse importante. Foi confirmada também a presença, no iate, do chefe de gabinete da presidência da Câmara, Randal Mendes, cunhado de Benício Tavares, e do advogado brasiliense Marco Antônio Attié.

O Conselho Especial do TJDF instaurou processo penal contra Benício, em ação movida pelo Ministério Público. Deu em nada, e Benício ainda foi reeleito deputado distrital.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Ambulatório da Escola Nacional de Acupuntura (ENAc), na 404 Sul, mantém atendimento diário

BRASÍLIA, 17 DE OUTUBRO DE 2013 - O ambulatório da Escola Nacional de Acupuntura – ENAc (www.enacdf.com.br), na 404 Sul, Bloco C, Loja 33, mantém atendimento ambulatorial, com acupuntura e massagens terapêuticas, a preços reduzidos, de segunda a sexta-feira, das 14 às 17 horas; às segundas, quartas, sextas e sábados, das 9 às 11 horas; e às terças e quintas, das 19 horas às 20h30. Referência nacional na formação em Acupuntura Tradicional Chinesa, a ENAc mantém convênios com instituições e faculdades de referência no exterior. Mais informações serão obtidas pelo telefone 3322-4998.

As especialidades da Medicina Tradicional Chinesa são de ampla cobertura e eficácia terapêutica. Reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde, foram incluídas na lista de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, em 17 de novembro de 2010, durante a V Sessão do Comitê Intergovernamental da Unesco.

O Curso de Formação em Acupuntura (Medicina Tradicional Chinesa) da ENAc é o único no Distrito Federal autorizado pelo Ministério da Educação (MEC) e Secretaria de Educação do Distrito Federal, tem duração de dois anos, com 2.080 horas/aula e 440 horas de estágio, num total de 2.520 horas/aula, em conformidade com orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS/ONU); são 4 horas/aula diárias, de segunda a sexta-feira, em dois turnos: pela manhã, das 8 horas ao meio-dia; e à noite, das 18h50 às 22h50. Informações para matrícula são obtidas pelo telefone (55-61) 3322-4998.

sábado, 5 de outubro de 2013

A greve dos bancários e os planos de saúde

RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

BRASÍLIA, 5 DE OUTUBRO DE 2013 – No caos a que o PTMDB mergulhou o país, já há uma década, duas tragédias se tornaram agudas. O Comando Nacional dos Bancários orientou os sindicatos em todo o país a rejeitarem a nova proposta apresentada pela Federação Nacional dos Bancos (Fenaban), sexta-feira 4, de reajuste salarial de 7,5% sobre o piso, com ganho real de 1,34%, além de propor alta de 10% na parcela fixa da Participação nos Lucros e Resultados (PLR). Assim, o piso passaria para R$ 1.632,93 e a PLR para, no mínimo, R$ 1.694 (limitada a R$ 9.011,76).

“Consideramos a proposta insuficiente diante do tamanho dos lucros e da rentabilidade dos bancos. Até setores da economia muito menos lucrativos estão fazendo acordos com seus trabalhadores com reajustes salariais maiores. Os bancários estão fazendo a maior greve dos últimos 20 anos e os bancos têm condições de melhorar a proposta” – afirmou, em nota, o presidente da Contraf-CUT e coordenador do Comando Nacional dos Bancários, Carlos Cordeiro.

Os bancários estão em greve há duas semanas. Eles querem 11,93% de aumento salarial (aumento real de 5%), piso salarial de R$ 2.860,21 e PLR de três salários-base, mais parcela adicional fixa de R$ 5.553,15, além de vales refeição e alimentação de um salário mínimo, R$ 678, e melhores condições de trabalho, com o fim das metas individuais e “abusivas”.

É justo. Trabalham duro e os banqueiros não têm a mínima ideia de como eles sobrevivem. Mas greve bancária é dramática; vira um inferno para a classe média. Há pessoas que morrem porque a família não consegue cumprir a transação bancária e bancar, por exemplo, uma cirurgia urgente. Daí que o Estado precisa intervir nessas situações. Mas o Brasil bolivariano do presidanta Lula está mais preocupado com a infraestrutura de Cuba, da Venezuela e da Bolívia, bem como em abastecer seus cofres.

A outra tragédia: 160 mil associados ao plano de saúde da Golden Cross passaram, compulsoriamente, desde 30 de outubro, para outro plano, com a compra Golden pela Unimed Rio. Começava, ali, a via-crúcis para muitos segurados. A Agência Nacional de Saúde (ANS) aprovou a transação, mas a consumação de fato simplesmente não existe. Quem precisa submeter-se a cirurgia com urgência, está, como se diz, no sal. Uma paciente levou 16 minutos para entrar em contato com a Unimed, inutilmente. O Procon tem resposta para tudo, mas tudo fica na mesma. A ANS tranquiliza todo mundo: mantém no seu site um espaço para reclamações.

Isso é apenas a ponta do iceberg. Planos de saúde no Brasil vendem carne de gato por lebre, e os hospitais particulares estão a um passo dos seus congêneres públicos. Estes, já se transformaram em corredores da morte.

Ambas são duas tragédias microscópicas diante da possibilidade, real, de a presidanta, ou Lula, mesmo, perpetuarem a calamidade pública chamada PT.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Crônica do coração das trevas

RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

BRASÍLIA, 3 DE OUTUBRO DE 2013 – Em novembro de 2007, na cidade paraense de Abaetetuba, no quintal de Belém, aconteceu um episódio emblemático da tragédia da Amazônia. Delegados da Polícia Civil do Pará, com a conivência do Judiciário, atiraram uma menina, L, de 16 anos, presa sob acusação de furtar objetos da casa onde trabalhava como doméstica, a dezenas de criminosos na cadeia da cidade. Ela foi estuprada dia após dia, durante mais de um mês. Assassinos, estupradores, espancadores de mulheres e crianças, ladrões, arrombadores, batedores de bolsa de velhinhas, psicopatas, drogados, caíram em cima da menina como hienas, e os policiais, ali perto, ouvindo e vendo tudo. Os berros de terror eram ouvidos pelos delegados e pelos moradores da cidade, já que a delegacia é um prédio velho praticamente aberto para a rua, e ninguém moveu uma palha pela menina. “Minha filha tinha cabelos lindos e encaracolados que iam até o meio das costas” – disse a mãe biológica da jovem. “Cortaram o cabelo dela com um terçado (facão) para disfarçar que se tratava de uma menina. Cortaram é modo de dizer, escalpelaram a minha filha.” O tempo todo, L ficou com as roupas que usava ao ser presa, uma saia curta e blusinha, cobrindo seios adolescentes. Ela mede 1,40 m. “Aqui, no Pará, colocar homem e mulher na mesma cela é mais comum do que se imagina” – disse, na época, frei Flávio Giovenale, bispo de Abaetetuba. Há caso de atirarem uma mulher a 70 presos.

“Era um show isso daqui. Todo mundo sabia que a menina estava lá no meio daqueles homens todos, mas ninguém falava nada” – disse uma mulher na delegacia, a jornalistas. “Antes de comer, os presos se serviam dela” – afirmou outra mulher, explicando que a menina só comia se não dificultasse a curra. “Ela gritava e pedia comida para quem passava, chamava a atenção para si, e, como ela era conhecida por aqui, não dava para ignorar” - afirmou outra mulher, explicando que é possível ver e ouvir da rua muito do que se passa na delegacia.

Seis delegados estiveram na delegacia durante o suplício da jovem. A delegada plantonista responsável pelo flagrante foi Flávia Verônica Monteiro e o delegado titular de Polícia de Abaetetuba, Celso Viana. “Embora ela estivesse misturada com os homens, o setor onde ela estava é aberto e permite uma ampla visão de qualquer policial” – explicou o delegado Celso Viana. Flávia Verônica Pereira e três policiais tinham conhecimento dos estupros. Nada fizeram. E policiais ameaçaram a menina de morte se não participasse de fraude em cartório para alterar-lhe a idade na certidão de nascimento.

O delegado Celso Viana alegou em depoimento que a adolescente disse ser maior de idade e afirmou que a responsabilidade da prisão da menor seria do sistema penal, e a delegada Flávia Verônica Monteiro afirmou que foi enganada ao ver o documento falso da jovem, indicando que ela tinha 20 anos. Flávia disse ainda que não transferiu a adolescente da delegacia para outra instituição porque esse procedimento só poderia ser feito com ordem judicial.

Em 27 de novembro de 2007, durante audiência pública na Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal, o então delegado-geral do estado do Pará, Raimundo Benassuly Maués Júnior, insinuou que a jovem é que foi responsável pelo episódio e que deve ter “alguma debilidade mental” por não ter dito que era menor de idade. “Não sou médico legista nem tenho formação na área, mas essa moça tem certamente algum problema, alguma debilidade mental. Ela, em nenhum momento, declarou sua menoridade penal” – afirmou o gênio.

Nesta quinta-feira 3, leio na mídia que a juíza Clarice Maria de Andrade Rocha, que atuava em Abaetetuba quando a adolescente esteve presa, foi promovida, ontem, pelo Tribunal de Justiça do Pará, a titular da Vara de Crimes contra Crianças e Adolescentes de Belém. Segundo portaria da desembargadora Luzia Nadja Guimarães Nascimento, o critério para a promoção de Clarice foi por merecimento.

Clarice Maria de Andrade foi considerada omissa pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) durante o período em que a jovem paraense foi supliciada e punida com aposentadoria compulsória, em 2010. Mas a Associação dos Magistrados do Pará (Amepa) recorreu da decisão e a aposentadoria foi anulada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que entendeu que a punição foi exagerada, já que a magistrada não teria como saber da situação da carceragem da delegacia de Abaetetuba.

O fato é que quando o caso estourou na mídia, em novembro de 2007, a então governadora do Pará, a petista Ana Júlia Carepa, tratou o caso com a habitual alienação, e tudo mergulhou no esquecimento. Aliás, crianças são emblemáticas na tragédia da Amazônia.

domingo, 29 de setembro de 2013

CONTO/Sábado

RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

O Potiguar Caldos, no Sudoeste, estava lotado naquela noite de sábado, como, aliás, era de praxe. Quem se voltasse para o estacionamento podia ver, no outro lado da Rua das Jaqueiras, os prédios do Cruzeiro Novo. Um casal acabou de chegar, atravessou entre as mesas, e até as mulheres se viraram para ver mais um pouco a beldade. Era uma adolescente de mais ou menos 17 anos, ruiva, olhos verdes, longilínea, de pernas torneadas, tipo potranca, em vaporoso vestido de seda rosa. Parecia flutuar. O rapaz era maciço e ao menor movimento seus músculos saltavam; era também muito bonito. O garçom os guiou até uma mesa que acabara de ser preparada.

Ao lado, havia um casal ocupando duas mesas juntas, uma das quais continha um fogareiro com a chapa cheia de maminha com queijo e batata frita, uma terrina com mandioca e toda sorte de acompanhamentos. A mulher era pequena, loira e graciosa, e ele, grande, lembrava uma fêmea de búfalo albino, grávida. Sua camisa estava metida na calça e os botões quase saltavam à pressão da volumosa gordura querendo libertar-se. Conversavam. Ele se debruçara sobre o prato e entre uma palavra e outra enfiava na bocarra grandes garfadas. Ela comia devagar e aos pouquinhos, olhando-o e falando sempre, graciosa como toda mulher.

Quatro jovens, quase garotos, ocupavam a mesa que fazia um triângulo com os dois casais; eram três moças e um rapaz e estavam comendo sanduíches com suco, cada qual de olho no seu telefone celular de última geração, admirando, simultaneamente, a nova tatuagem da moça de pele leitosa e vestida de negro. A tatuagem fora aplicada recentemente e estava envolta numa espécie de plástico, como um curativo transparente.

Vocês não vão acreditar: o boliviano que me tatuou é famoso e nunca veio ao Brasil; ontem, soube que ele estava em Brasília e fui ao hotel onde estava hospedado. Cara, nem acreditei quando ele terminou – disse a tatuada.

– Quem é o tio que ele tatuou – o rapaz quis saber.

– Che Guevara – disse a moça. – Você não sabe quem é Che Guevara?

– Ouvi dizer que é um carniceiro que ajudou Fidel Castro a foder com Cuba. É isso? – volveu o rapaz. As outras duas moças perderam o interesse pela tatuagem e pela conversa e estavam de olho nos seus celulares, mastigando lentamente seus sanduíches e bebendo golinhos do suco.

– Oh! Não! Veio! Esse cara é aquele do filme de Walter Salles! – a tatuada defendeu-se.

– Humm! Quando é que vocês vão parar com esse papo-cabeça? – perguntou a bela morena de olhou azuis, desgrudando-se, um instante, do seu celular.

– Acho que você foi enganada por esse boliviano; deve ser um tio brega... – disse o rapaz. – Se fosse eu, preferiria uma folha de jambu.

– Folha de quê? – perguntou a terceira moça, uma negra tão linda quanto a ruiva que acabara de passar.

– De jambu – disse o rapaz. – Meu pai é de Belém do Pará e ele já me mostrou uma folha de jambu; ele me explicou que jambu é uma síntese da Amazônia e que a Amazônia é como se fosse uma realidade dentro da realidade. Não entendi muito bem, mas senti que é alguma coisa mágica.

– Você anda fumando muita maconha – disse a morena de olhos azuis, baixando a voz.

O búfalo se levantou; em pé, lembrava um gorila branco. Sua esposa também se levantou. Era pequena e graciosa, daquele tipo que temos vontade de pôr inteira na boca. Ele sequer empurrou sua cadeira, quanto mais a dela. Saiu palitando os dentes e dando pequenos arrotos. Ela parecia não prestar atenção às grosserias do elefante. Ele pôs uma pata sobre os ombros da esposa e se foram rumo ao estacionamento. As três moças e o rapaz não se deram conta da saída do casal anômalo; desinteressaram-se completamente pela tatuagem e se voltaram para seus celulares. No braço da moça tatuada, branco como leite, a tatuagem saltava aos olhos como um grande ferimento colorido. A noite, ali, alcançara um momento de pico, e mais pessoas chegaram. O casal belíssimo encontrava-se a meio caminho de terminar a refeição e o fogareiro com carne de sol estava pela metade. A moça ruiva parecia flutuar dentro do seu próprio perfume. No âmbito do seu entorno, não houve quem não a olhasse, mesmo que fosse um olhar inconsciente. Um velho, enrugado como maracujá de gaveta, e sozinho, mirava-a do seu posto, uma mesa na beira da calçada, quase caindo no meio-fio. É provável que só ele visse um fio de luz saindo da moça e se espalhando ao redor. “Ela é linda porque é jovem e é a manifestação física de energia fina” – pensou o velho, que desmontava um tucunaré frito como quem desmonta um relógio, olhava de vez em quando para a ruiva e suspirava. Os quatro jovens terminaram seus sanduíches e de um momento para outro sumiram. Pouco depois desceram do carro no estacionamento do bloco da moça leitosa, no Cruzeiro Novo, procuraram um lugar escuro e acenderam o baseado.

Não demorou para que o rapaz musculoso e a jovem ruiva terminassem e saíssem. Ela era tão linda que todos se voltavam para si e a acompanhavam até a perderem de vista; por isso, um velhote levou um beliscão dolorido da megera que o mantinha sob cerrada vigilância.

– Vamos para casa – disse a moça ruiva.

– Sim, vamos, minha irmã – o rapaz respondeu.

Naquele momento, a loira pequena acabara de montar o monstro. A barriga dele luzia à claridade mortiça do abajur. Ela começou a cavalgar e a gemer, até começar a gritar. Ele soltou um urro medonho. Depois, o abajur foi desligado, e o silêncio desabou como a escuridão.


BRASÍLIA, 29 DE SETEMBRO DE 2013