sábado, 28 de abril de 2012

O tucano e seu penacho


RAY CUNHA


BRASÍLIA, 28 de abril de 2012 – Sempre achei intrigante o comportamento público do governador tucano Marconi Perillo, de Goiás, muito retraído para um dos mais brilhantes administradores do país. Ele lembra o ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, que, enquanto não foi flagrado, juntamente com quadrilha (continuam todos soltos, gozando de uma aposentadoria paradisíaca), numa bacanal impressionante, era considerado o mais eficiente governador do Brasil, atrás somente do então governador de Minas Gerais, o tucano Aécio Neves, que ainda não disse a que veio, como senador e virtual candidato à presidência da República, cargo que provavelmente disputará com Lula (PTMDB), em 2014.
Pois bem, Arruda era bom também para fazer rapapé. Certa vez, quando ele era deputado federal, depois que renunciou ao Senado, também por safadeza, entrevistei-o para o site ABC Politiko. O homem deu uma aula sobre a Zona Metropolitana de Brasília, mas nunca pôs sua teoria em prática. Já entrevistei também Marconi Perillo. Lembra um pastor evangélico com pós-doutorado em administração pública, e tem na cabeça tudo o que se precisa fazer para alçar Goiás (o qual ele tirou da Idade Média, no seu primeiro governo) a um dos estados mais ricos do país. Bem, quanto ao Entorno do Distrito Federal, por enquanto, é só promessa.
Agora, com o mafioso Carlinhos Cachoeira na Papuda, as coisas começaram a ficar mais claras. Dependendo da vida secreta das pessoas, principalmente homens públicos, às vezes carregam pesos tão grandes que andam curvados, não literalmente. Seus olhos, ou sua expressão fisionômica, é que se curvam. É como a mão do ex-governador do DF, Joaquim Roriz, quando ele falava em público, como, digamos, Edir Macedo: os dedos lembravam garras.
Conforme investigações da Polícia Federal (que vem realizando um trabalho magnífico, republicano, e se tiver aparelhamento nesse trabalho será um tiro no pé), Marconi Perillo parabenizou, por telefone, o mafioso Carlos Cachoeira, que estava de berço, completava 48 anos. Conforme grampos feitos com autorização judicial, Marconi tomou a iniciativa de ligar para o aniversariante, às 20h48 do dia 3 de maio de 2011, e marcar um jantar. Segundo a PF, trataram, no suposto encontro, de “interesses do grupo político de Cachoeira”. Cinco dias depois, houve a tentativa de entrega de uma caixa de computador, recheada, nas imediações do Palácio das Esmeraldas.
Ao parabenizar Cachoeira, Marconi o chama de “liderança”, e reclama por não ter sido convidado para a festa. “Rapaz, faz festa e não chama os amigos?” – disse o tucano, explicando que conversaria com o ex-presidente do Detran-GO, Edivaldo Cardoso, interlocutor entre Cachoeira e Marconi, para marcar um encontro com o mafioso. Cachoeira diz que aguardaria que o governador definisse a data - um jantar na casa do senador Demóstenes Torres (sem partido/GO), que está atolado até o pescoço numa cachoeira de esgoto. O grupo se reuniu no dia 5 de maio, uma quinta-feira. Do que trataram os animados convivas?
No inquérito 3.430, no Supremo Tribunal Federal (STF), diz relatório da Polícia Federal: “(…) considerando critérios éticos, o governador (Marconi Perillo) é passível de censura especialmente por manter amizade com pessoa (Carlinhos Cachoeira) que já foi alvo de escândalo de âmbito nacional e cuja atuação no ramo de exploração ilegal de jogos de azar não é nenhum segredo no Estado de Goiás”.
A lição que se tira é que a vida do cidadão Marconi Perillo só interessa a ele e à sua família, mas a vida do governador Marconi Perillo pertence a todos os goianos. Há práticas que homens públicos não devem, de jeito algum, exercitar, como, por exemplo, o patrimonialismo e o nepotismo, de que Zé Sarney, depois da família imperial portuguesa, é protótipo – talvez, agora, por uma esperteza idosa -, o que não é o caso de Marconi; nem jantar com mafiosos, porque gangster rouba sem dó nem piedade, dinheiro que poderia reduzir a ignorância, a miséria, a fome e a matança no Brasil.

Com informações do UOL

O Congresso acabou


RUY FABIANO
Jornalista

O Congresso Nacional, aos poucos, vai deixando de existir como efetivo Poder da República, engolido pelos outros dois, Executivo e Judiciário.
O primeiro golpe foi dado ainda na Constituinte, 24 anos atrás, com a adoção do instituto das medidas provisórias, que transfere ao Executivo a prerrogativa soberana de legislar.
O Congresso, desde então, age como cartório do Planalto, chancelando decisões que não são suas – e que entram em vigor antes que dela tome conhecimento.
A medida provisória foi aprovada na suposição de que o país adotaria o parlamentarismo. Na reta final da Constituinte, o governo Sarney investiu na manutenção do presidencialismo, preservando as MPs, concebidas para os regimes de Gabinete, em que o Legislativo é também Executivo.
Argumenta-se que, ao tempo do regime militar, com os decretos leis, não era diferente. Em termos. Além de não terem tido a abrangência das MPs, os decretos leis cumpriam seu papel de expedientes ditatoriais, circunstância em que o Legislativo tinha mesmo papel meramente figurativo.
Na democracia, porém, isso é inadmissível, na medida em que é, por excelência, o regime da soberania dos três Poderes.
E aí está o paradoxo: o Congresso, hoje, consegue ter menos poderes que ao tempo da ditadura, quando era fustigado apenas pelo Executivo e tinha no Judiciário instância de socorro.
Hoje, o Judiciário disputa com o Executivo a usurpação de prerrogativas do Legislativo. O ativismo de toga não apenas transferiu para si a missão de legislar, como atribui tal circunstância ao próprio Congresso, acusando-o de negligente.
Pode-se acusar – e acusa-se – o Congresso de muita coisa, com justa razão. Mas confunde-se resistência parlamentar a determinados temas com negligência ou inoperância, quando, muito pelo contrário, é ato político deliberado.
Temas como casamento gay (na verdade, união civil), aborto de bebês anencéfalos ou cotas raciais, para ficar apenas nos mais recentes e polêmicos – e que dependiam de mudanças na lei -, não são aprovados pela maciça maioria da população, como o demonstram sucessivas pesquisas de opinião pública.
O Congresso é instituição que depende do voto popular e, por isso mesmo, jamais se coloca contra a opinião pública. Pode-se argumentar que o nível moral do Congresso não é lá essas coisas. Mesmo assim, pode ser recomposto, pelo voto, a cada quatro anos, sem esquecer o fato de que, com frequência, corta na própria carne, cassando seus próprios membros.
É, apesar de todos os pesares, um poder transparente, devassado diariamente pela mídia. Agora mesmo, a CPI do Cachoeira colocará no banco dos réus - como o fizeram, entre outras, a CPI do PC Farias, a dos Anões do Orçamento e as do Mensalão -, alguns de seus integrantes, sendo previsíveis novas cassações, com a oportuna liquidação de carreiras aviltadas.
O Judiciário não foi eleito por ninguém. Três quartos de sua atual composição decorreram da vontade solitária do então presidente Lula, que incluiu entre estes seu próprio advogado (e do PT), Antonio Dias Toffoli, e um amigo pessoal, Ricardo Lewandowski.
O atual presidente, Carlos Ayres Brito, é fundador do PT em Sergipe, e hospedava Lula quando este ia ao estado.
Há quem ache tudo isso irrelevante e argumente que o mesmo se deu com os presidentes anteriores. Não havia, porém, um dado que ressalta das recentes decisões: o engajamento com uma agenda partidária – no caso, a do PT.
Basta conferir a convergência entre as já mencionadas decisões do STF e o discurso e as propostas do partido hegemônico.
Além de decidir contra a letra da lei – e a própria Constituição (no caso da descriminação do aborto e da união civil homossexual) -, o STF agiu em consonância com a militância de grupos sociais, que sabiam que suas teses não teriam vez no Congresso, em decorrência da forte rejeição popular.
Daí o termo ativismo judiciário. O STF passou a ser instância para driblar o Congresso, ação facilitada pelo monumental desgaste moral a que a instituição parlamentar se presta.
No entanto, uma coisa nada tem a ver com a outra. A judicialização do processo político estabelece um padrão autoritário em plena democracia, tornando-a não mais que uma fachada.
Quando a Constituição é um detalhe, tem-se, na prática, o triunfo do “direito achado na rua”, que relativiza as leis a partir de argumentos ideológicos, que ignoram o processo legislativo e se nutrem de truques e subjetivismos.
Em reação a isso, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou, por unanimidade, na quarta-feira, 25, proposta de emenda constitucional, de autoria do deputado Nazareno Fonteles (PT-PI), que permite ao Congresso sustar "atos normativos dos outros Poderes que exorbitem do poder regulamentar ou dos limites de delegação legislativa".
É, sem dúvida, uma retaliação, que pode ter efeitos colaterais igualmente danosos à democracia, já que ameaça resoluções de tribunais, atos de conselhos, e decisões do Supremo com repercussão geral e até súmulas vinculantes.
A tanto chegou a democracia brasileira, oscilando entre a cruz e a espada. Haja insegurança jurídica.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Carlos Leréia (PSDB/GO) recebeu de Cachoeira propina embrulhada em jornal, segundo a PF


Carlos Leréia (PSDB/GO), num flagrante do seu estilo - Foto EBC


RAY CUNHA


BRASÍLIA, 26 de abril de 2012 – O deputado federal Carlos Alberto Leréia (PSDB/GO) era desconhecido no Entorno Sul do Distrito Federal até as eleições de 2010, quando eleitores, principalmente de Valparaíso e Luziânia, garantiram cerca de 30 mil votos para ele, só na região, na esperança de que teriam um representante de peso influindo junto ao governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), de quem é amicíssimo. No entanto, o Entorno do DF continua com as mesmas características de sempre: violento, um lixão esburacado.

Enquanto isso, numa das escutas da Polícia Federal, em 1 de agosto de 2011, às 14h34, o chefão do crime organizado Carlinhos Cachoeira recomenda a um operador a entrega de R$ 20 mil em dinheiro para Leréia, “embrulhados em jornal”, segundo relatório da Polícia Federal.

Leréia é famoso pelo seu ar e atitudes arrogantes. Vamos ver como ele vai peitar seus colegas na CPI Mista do Congresso Nacional que investiga Cachoeira e máfia, e como se sairá no Supremo Tribunal Federal (STF).

Quanto a Marconi Perillo, é suspeito de também ter recebido dinheiro de Cachoeira. Ele afirmou, peremptoriamente, que não.

Com informações de O Estado de S.Paulo

terça-feira, 24 de abril de 2012

Candidatos a prefeito pelo PSD lideram em Luziânia, Cidade Ocidental, Cristalina e Formosa, no Entorno


Se as eleições municipais fossem hoje Cristóvão Tormin (PSD) seria
prefeito de Luziânia, a maior cidade do Entorno do Distrito Federal


WILSON SILVESTRE
Para o Jornal Opção


GOIÂNIA, 24 de abril de 2012 - Se a eleição para prefeito fosse hoje, o PSD estaria no comando de quatro importantes municípios do Entorno, com Luiz Carlos Attié em Cristalina; Cristóvão Tormin em Luziânia; Alex Batista na Cidade Ocidental; e Itamar Barreto em Formosa - nomes que podem consolidar a força do PSD no Entorno do Distrito Federal na eleição municipal de outubro. Com uma população estimada em 370 mil habitantes e 227.614 mil eleitores habilitados a votar, é natural que a disputa nessas cidades atraia as atenções, tantos de eleitores quanto dos pré-candidatos a prefeitos e vereadores. Em Luziânia, o quadro, salvo maiores mudanças, está definido tendo o deputado estadual Cristóvão Tormin (PSD) à frente de um grupo de oposição ao atual prefeito, Célio Silveira (PSDB), liderando as pesquisas de intenção de votos. A última tacada de Cristóvão foi a conquista do apoio do PT, liderado pelo radialista e líder da legenda no município, Didi Viana.

Depois de uma longa negociação, em que a tendência natural seria uma aliança com o PMDB de Marcelo Melo, já que em Goiânia a dobradinha entre as duas legendas vem dando certo, em Luziânia literalmente melou. O peso da família Melo terminou por levar Marcelo a construir uma aliança com Célio Silveira, que tem como vice-prefeito, Eliseu Melo, até há um mês pré-candidato à cadeira de prefeito. Ele desistiu quando percebeu que os eleitores não se animavam com seu nome. Célio buscou construir uma terceira via, mas não encontrou ninguém à altura de desbancar Cristóvão da liderança. Como Marcelo Melo e Didi Viana tinham um acordo informal para disputarem a prefeitura juntos, mas sem fechar acordo com a cúpula dos dois partidos, Célio, amigo e aliado do empresário Júnior do Friboi (PSB), aproveitou a chance de o PT não ter fechado o acordo formalmente com Marcelo Melo e o convenceu a juntarem forças, com aval de Friboi. No acordo, Marcelo é o cabeça de chapa e o PSDB indica o vice.

Foi um deus-nos-acuda nas hostes tucana, mas conforme especulações, Célio fechou o acordo com a ciência do governador Marconi Perillo (PSDB). A notícia foi a gota d’água para transbordar a desconfiança dos petistas que esperavam fechar com Marcelo Melo. A decepção foi tamanha que, na reunião do diretório municipal do PT luzianiense, mais de 75% votaram a favor de Cristóvão.

Somando ao favoritismo do PSD de Luziânia se encontra o município de Cristalina, administrado pelo pessedista Luiz Carlos Attié. Embora não seja um dos mais populosos ou com um grande números de eleitores (28.559), contrapõe em peso econômico, já que Cristalina abriga o maior número de pivôs de agricultura irrigada da América Latina e fábricas voltadas para a agroindústria. “Somos um município em grande expansão de desenvolvimento econômico, social e com uma das melhores distribuição de renda por conta do grande número de empregos gerados pela agroindústria”, comemora Attié. Embora ele não comente sobre reeleição, pesquisas internas feitas para monitoramento administrativo da gestão apontam Attié como favorito à reeleição.

“Os adversários tentam de todas as formas dimimuir o trabalho do prefeito, no entanto, pesquisas contradizem os adversários. “Quem esteve em Cristalina há quatros anos e volta à cidade agora percebe a diferença no comércio, na agitação das pessoas nas ruas e na qualidade de vida”, compara um ex-vereador e antigo morador do município.

Além da qualidade de vida e da geração de empregos, Cristalina tem o maior PIB agropecuário do Estado, com renda per capita de R$ 16.017, conforme dados da Segplan. Esta importância econômica leva a marca da gestão PSD e pode ser o ponto de convergência política em 2014. “Nós temos um patrimônio turístico fantástico e ainda pouco divulgado, mas com a proximidade de Brasília e a realização da Copa do Mundo em 2014, Cristalina será contemplada com verbas do PAC do Entorno, voltadas principalmente para o turismo”, acredita Attié.

Cidade Ocidental, vizinho do Distrito Federal, é outro município onde o PSD tem grandes chances de reeleger o prefeito. Embora a disputa esteja polarizada entre Alex Batista e Gisele Araújo (PTB), pesquisas apontam uma boa dianteira do pessedista Alex. “Somos um município com muitas carências que não difere da maioria do Entorno, mas o povo já percebeu que nossa gestão é que mais conquistou melhorias de infraestrutura, geração de empregos e qualidade de vida”, resume o prefeito. Os 47.537 habitantes de Cidade Ocidental (IBGE-2011) e seus 32.295 eleitores, “mantêm uma grande confiança no nosso trabalho”, Alex tem dito em suas reuniões políticas com lideranças de sua base. Afirma que está mais preparado e com pleno domínio da máquina pública, principalmente na captação de recursos para áreas de infraestrutura, educação, saúde e segurança pública.

 No outro extremo do Entorno encontra-se Formosa, porta de entrada da região nordeste de Goiás com seus quase 100 mil habitantes e 64.162 eleitores. Neste estratégico município, o PSD também aposta as fichas políticas em Itamar Barreto, líder nas pesquisas. Os demais candidatos, o ex-secretário de Segurança Pública de Goiás Ernesto Roller (PMDB) e o prefeito Pedro Ivo (PP) continuam longe de Itamar. Analistas avaliam que Pedro Ivo tem poucas chances e que a disputa vai afunilar entre Roller e Itamar.

Prevalecendo esse quadro, o PSD desbanca a força do PSDB no Entorno, restando somente os municípios de Valparaíso, atualmente comandado por Lêda Borges, candidata à reeleição e com chance razoável de vitória, e em Novo Gama, caso a deputada estadual Sônia Chaves convença o atual prefeito tucano, José Pacífico, o Doka, a desistir da reeleição. Sônia lidera as pesquisas para suceder Doka, que amarga um alto índice de rejeição, mas insiste em manter-se na cadeira de prefeito. Removendo este entrave, Sônia tem uma boa chance de ganhar a eleição. Como o PSD é base do governo Marconi Perillo, tudo fica em casa.

CORRIDA PARA BUSCAR O VICE IDEAL - A questão da vaga de vice-prefeito nem sempre é uma escolha pacífica: todos se acham habilitados a ocupá-la, não importa o tamanho da legenda ou o número de candidatos a vereadores que tem. Esta negociação torna-se crucial para qualquer candidato, principalmente na hora de fechar alianças.

No caso de Luziânia, parece que essa aflição foi resolvida com relativa facilidade pelos dois principais concorrentes. Do lado de Cristóvão, tudo indica que será mesmo Didi Viana o nome natural para a vaga. Do lado de Marcelo Melo, ficou acertado com Célio Silveira que o PSDB indicaria o vice. Especulações apontam que o mais forte candidato ao posto é o atual presidente da Agência Goiana de Desenvolvimento Regional (AGDR), Gastão de Araújo Leite, fiel escudeiro de Célio.

Luiz Carlos Attié ainda não colocou na pauta de discussão qualquer referência sobre nomes ou partido. “Vamos primeiro ouvir todos os nossos aliados e, a partir de um consenso, extrair um nome. Mas reafirmo: ainda é cedo”, desconversa.

Tanto Itamar Barreto como Alex Batista ainda não cogitaram nomes. Ambos alegam que é muito cedo para colocar em discussão nomes ou partido. O importante, afirmam, é manter as conversas com os aliados e só depois de selar as alianças buscar nome de consenso. Como bem lembrou Attié: “Todo candidato ao executivo, municipal, estadual ou federal, querem um vice ideal, que não crie problemas para a gestão”.

domingo, 22 de abril de 2012

A Amazônia é dos brasileiros

Em uma universidade americana, o senador Cristovam Buarque (PDT/DF), ex-ministro da Educação, foi questionado por um estudante sobre o que ele pensava como humanista sobre a internacionalização da floresta amazônica. Cristovam deu uma resposta categórica:

“De fato, como brasileiro, eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso.

“Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tenha importância para a humanidade. Se a Amazônia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem estar da humanidade quanto a Amazônia para nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço.

“Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.

“Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar este patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, ser manipulado e instruído pelo gosto de um proprietário ou país. Não faz muito um milionário Japonês decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disto, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.

“Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos nas fronteiras dos Estados Unidos. Por isso, eu acho que Nova York, como sede nas Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda humanidade. Assim como Paris, Roma, Veneza, Rio de Janeiro, Brasília, Recife. Cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.

“Se os Estados Unidos querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos Estados Unidos. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas provocando uma destruição milhares de vezes maiores do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.

“Defendo a intenção de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando esta dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de comer e ir à escola. Internacionalizemos as crianças, tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro.

“Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa!”

sábado, 21 de abril de 2012

Brasília, 52, um fracasso


BRASÍLIA, 21 de abril de 2012 - Este é o mais verdeiro, e devastador, artigo que já li sobre Brasília. A cidade-estado descrita pelo jornalista Fernando Rodrigues vai na ferida: a Brasília como ela é. Segue-se o artigo Brasília, 52, um fracasso (o Editor).


FERNANDO RODRIGUES
Para a Folha de S.Paulo


Falar mal da capital da República é fácil. Mas é também necessário. A cidade completa hoje 52 anos. Tempo suficiente para qualquer projeto dessa magnitude dar certo. E Brasília fracassou por completo quando se levam em conta as três razões principais que sustentaram a sua criação.

A capital mudou do Rio para o meio do nada aqui no Centro-Oeste (nem índios viviam na região) porque se considerava necessário isolar os congressistas da suposta má influência dos assuntos paroquiais do antigo balneário. No interior de Goiás, isolados, deputados e senadores teriam mais condições de pensar e refletir sobre o futuro do Brasil. O resultado é tão patético que não merece comentários.

A segunda razão foi a paranoia sobre segurança. A capital no litoral fluminense consistiria em grave vulnerabilidade se o Brasil viesse a ser atacado. Tal bobagem poderia ter sido demolida lá atrás, pois ataques aéreos e ogivas nucleares em foguetes teleguiados não eram algo do outro mundo na década de 50.

Por fim, a mais nobre missão de Brasília no meio do cerrado seria trazer o desenvolvimento para o interior do país. Passaram-se 52 anos e a capital da República não produz nem pregos. OK, estou exagerando, mas é quase isso. O PIB local é 93% de serviços. O governo federal tem de dar R$ 10 bilhões por ano para a cidade não entrar em colapso. A "estado-dependência" é total.

Se metade do dinheiro gasto para construir Brasília -não existe uma cifra oficial - tivesse sido jogada de helicóptero sobre os povoados que existiam por aqui em 1960, o resultado teria sido mais positivo. Com a vantagem de o Rio e adjacências não terem entrado em um período de deterioração sem fim.

Brasília é um erro histórico irreparável. Será viável talvez em 150 anos. É uma festa para os ricos. Mas a um custo enorme para o país, que nada lucra com esse delírio de JK.

Governador Agnelo Queiroz (PT) pode ser preso. GDF é acusado de grampear até o vice-governador



LUIZ SOLANO/O Repórter do Planalto


BRASÍLIA, 21 de abril de 2012 - A deputada distrital oposicionista Celina Leão (PSD) pediu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) a prisão do governador de Brasília, Agnelo Queiroz (PT). Segundo Celina Leão, Agnelo tornou-se conivente com a arapongagem no Distrito Federal quando não tomou atitudes sobre o pedido feito por deputados de exoneração do chefe da Casa Militar, tenente-coronel Rogério da Silva Leão, suposto mandante de escutas ilegais no Distrito Federal. Os parlamentares apresentaram moção de repúdio ao coronel Leão, pedindo sua exoneração.
Entretanto, segundo o Palácio do Buriti, não há motivos para o afastamento do coronel. Tudo não passaria de falsas suspeitas. O governador mandou que fosse feita investigação a esse respeito, mas a informação que se tem é que todos os procedimentos da Casa Militar foram feitos acima dos regulamentos. Aliás, não consultaram o Infoseg sobre o governador e o vice-governador, nem promotor público! - garantiu o porta-voz do governo,Ugo Braga.
O que incomoda mais? A suspeita de que o governo tenha ligações ilegais com uma organização criminosa, ou a desconfiança de que o Executivo tenha um aparelho de espionagem para monitorar adversários, aliados e jornalistas? A denúncia foi feita pela revista Veja, na semana passada. Para a Câmara Legislativa, foi a segunda alternativa que fez soar o alarme. Por isso, a Casa optou por criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar os supostos grampos ilegais que teriam sido feitos pela Casa Militar do Governo do Distrito Federal (GDF).
Segundo o presidente da Câmara Legislativa, deputado Patrício, a CPI será institucional e terá apoio dos 24 deputados distritais. Além da suspeita dos grampos à revelia da lei, governistas ficaram indignados com a hipótese de terem sido monitorados, mesmo estando do lado do Palácio do Buriti. Até o vice-governador, Tadeu Fillipeli (PMDB), teria sido monitorado.
Aliás, essa arapongam mim nunca foi surpresa. Eu já disse aqui no DF-GOIÁSZONA METROPOLITANA DE BRASÍLIA que todo mundo que faça oposição aos governos petistas tem sua vida investigada, por intermédio de escutas telefônicas, ou sendo seguido, mesmo. Tudo isso foi recomendado no Fórum de São Paulo, que teve a participação de Dilma, Lula, José Dirceu, Genoino e muitos outros que estão no poder. Vocês ainda não viram nada. É só aguardar.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Povo irá para as ruas em todo o país, sábado 21, para exigir o julgamento dos quadrilheiros do Mensalão


RAY CUNHA


BRASÍLIA, 19 de abril de 2012 – A sociedade brasileira se mobiliza no cyberespaço para ganhar as ruas das capitais do país, sábado 21, e exigir o julgamento, no Supremo Tribunal Federal (STF), do Mensalão, o maior escândalo de corrupção da história política da república, ocorrido durante o governo Lula (PTMDB). É sintomático que seja dia 21 de abril, quando se homenageia Tiradentes, símbolo da luta contra o assalto de terra arrasada que os portugueses perpetraram contra a nação brasileira, então embrionária, nos anos de chumbo do Brasil-colônia. Também é dia do aniversário da Praça dos Três Poderes e seu entorno, a Esplanada dos Ministérios, coração da ilha da fantasia, savana frequentada por hienas de colarinho branco.

Estão previstos pelo menos 80 manifestações em 25 capitais, principalmente São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília. Em algumas cidades serão coletadas as últimas assinaturas do abaixo-assinado que será entregue ao ministro Ricardo Lewandowski, revisor do processo, em audiência agendada para as 16 horas de quarta-feira 25, no STF. Até esta quinta-feira, já colheram mais de 16 mil assinaturas, em papel e na internet. O ministro também receberá um manifesto e uma ampulheta, para lembrá-lo de que os mensaleiros devem ser julgados, já.

Os manifestantes cariocas pedirão ainda para que a CPI do Cachoeira seja ampla, geral e irrestrita, doa a quem doer. O problema é que quem mandará nessa CPI são velhas raposas, já sem pelo, mas que dão as cartas, marcadas, nestepaiz.

“Conversamos com alguns desembargadores e dizem que é muito difícil que o julgamento saia este ano. O erro foi colocar os 40 réus juntos no mesmo processo. Estamos com falta de esperança, mas acreditamos que a pressão popular pode qualquer coisa. Essa manifestação em 80 cidades pode fazer a diferença, dando visibilidade inclusive em outros países. O importante é termos quantidade. Cada cidadão faz diferença” – disse Carla Zambelli, do Movimento Nas Ruas.

Com efeito, observa-se movimentação para que o Mensalão fique para 2013, ou seja arquivado. Só tem uma coisa: quando a massa vai para as ruas, não tem ditadura que segure, nestepaiz ou em qualquer outro com aparelhamento do Estado menos disfarçado. 


Com informações da Agência Estado

LIVRO/Pedro Ludovico tirou Marcha para o Oeste da Cidade de Goiás



EULER DE FRANÇA BELÉM


Xingu, de Cao Hamburger, é um filme de qualidade, mantendo as idealizações de personagens históricos e anônimos no ponto certo, sem endeusamento. Pelo contrário, as contradições dos irmãos Villas Bôas são expostas como fraturas humanas, e com delicadeza.

Uma história o filme não conta, porque não é seu foco, mas o livro A Marcha Para o Oeste — A Epopeia da Expedição Roncador-Xingu (Companhia das Letras, 638 páginas), dos irmãos Orlando Villas Bôas e Cláudio Villas Bôas, relata: “Os planos da Expedição, traçados no Rio de Janeiro, falavam em Goiás Velho — antiga capital do Estado — como porta de entrada para o sertão. Dali, o (rio) Araguaia seria alcançado por uma estrada precária, arenosa, que, saindo da capital (Goiânia), ia esbarrar em Leopoldina, na margem do rio. O traçado não era do agrado do governador Pedro Ludovico, que não queria que a área da capital velha fosse prestigiada por uma frente de trabalho ligada ao governo federal. Aquilo era reduto dos Caiado, seus opositores políticos, de grande força, com quem não afinava desde a mudança da capital. Jogou todos os trunfos o governador e, prestigiado pelo governo federal, conseguiu mudar o traçado do avançamento. Em vez de ser Goiás Velho a porta de entrada para o Araguaia, ele propôs Uberlândia (MG), embora fora de seu Estado. O Araguaia, pela nova rota, seria alcançado na junção com seu maior afluente, o Rio das Garças. Ali, iria se estabelecer a base da Expedição, que ficaria na margem goiana, defronte à foz do tributário”.

No capítulo A imprensa no Brasil Central, os Villas Bôas contam a história de como a imprensa brasileira cobriu a Expedição Roncador-Xingu e o desenvolvimento do parque, citando o Correio da Manhã, A Gazeta, O Cruzeiro, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Realidade e Veja. Mas nenhum jornal de Goiás é mencionado.

A Marcha Para o Oeste começou no governo de Getúlio Vargas, em 1943, mas o Parque Nacional do Xingu só foi legalizado, em 1961, pelo presidente Jânio Quadros. Talvez tenha sido sua maior obra, que garantiu a sobrevivência de vários grupos indígenas. O parque foi visitado pelo escritor Aldous Huxley e pelo rei Leopoldo III, da Bélgica.

Darcy Ribeiro recomenda, num pequeno texto: “Agarre este livro com as duas mãos, com a cabeça e com o coração”. O antropólogo tem razão: os irmãos Villas Bôas são grandes narradores. A “prosa” do livro é de escritor cristalizado.

A edição da Companhia das Letras é excelente e conta com prefácio, Uma Viagem ao Brasil profundo, de João Pacheco de Oliveira, e posfácio, Os Villas Bôas e o Xingu: contatos, contribuições e controvérsias, de John Hemming, esclarecedores. Hemmings frisa que “a maior realização” dos Villas Bôas foi o Parque Indígena do Xingu.

Corumbá Concessões realiza seminário de educação ambiental em Alexânia e Abadiânia, no Entorno


ANA GUARANYS
comunicacao@corumba4.com.br


BRASÍLIA, 19 de abril de 2012 - A Corumbá Concessões S.A. (CCSA) realiza, hoje e quarta-feira 25 de abril, nos municípios de Alexânia e Abadiânia, regiões sob influência do reservatório da UHE Corumbá IV, seminários de avaliação de atividades do Programa de Educação Ambiental (PEA). O objetivo do encontro é avaliar as atividades realizadas dentro do PEA durante o período de 2011 e 2012, junto com as comunidades envolvidas.

Hoje, serão discutidos temas referentes às ações nas cidades de Alexânia e Santo Antônio do Descoberto. Já no dia 25, será a vez dos moradores de Abadiânia e Corumbá de Goiás fazerem suas considerações sobre os programas ambientais. 


PROGRAMAÇÃO  

Dia 19 de abril de 2012 – Alexânia

8 horas: Recepção aos participantes.

8h30: Abertura – Formação da mesa com autoridades presentes.

9 horas: Apresentação do Programa de Educação Ambiental (PEA) – Elisa Meirelles – gerente de Projetos/Ecodata.

9h30: Intervalo.

10 horas: Apresentação das atividades do PEA em Santo Antônio do Descoberto – agente ambiental Maiana Santos.

11 horas: Apresentação das atividades do PEA em Alexânia – agente ambiental Mariana Bulhões.
12 horas: Almoço.

13h30: Apresentação de teatro.
13h45: Formação de grupos de avaliação e sugestões.
15h30: Degustação de alimentos com frutos do Cerrado/violeiro.
16 horas: Apresentação dos grupos de avaliação e fechamento das sugestões para os municípios.
18 horas: Encerramento. 

Dia 25 de abril de 2012 - Abadiânia

8 horas: Recepção aos participantes.
8h30: Abertura – Formação da mesa com autoridades presentes.
9 horas: Apresentação do Programa de Educação Ambiental (PEA) – Elisa Meirelles – gerente de Projetos/Ecodata.
9h30: Intervalo.
10 horas: Apresentação das atividades do PEA em Corumbá de Goiás – agente ambiental George Melo.
11 horas: Apresentação das atividades do PEA em Abadiânia – agente ambiental Cleiton Blahum.
12 horas: Almoço.
13h30: Formação de grupos de avaliação e sugestões.
15h30: Degustação de alimentos com frutos do Cerrado.
16 horas: Apresentação dos grupos de avaliação e fechamento das sugestões para os municípios.
18 horas: Encerramento.

Moradores de Corumbá de Goiás
visitam propriedades-modelos de
desenvolvimento sustentável

BRASÍLIA, 19 de abril de 2012 - Moradores de comunidades rurais e da área urbana de Corumbá de Goiás participam, amanhã, de excursão a uma propriedade-modelo de desenvolvimento ambiental sustentável. A visita faz parte das atividades do Programa de Educação Ambiental implementado pela Corumbá Concessões S.A. (CCSA) nos municípios do entorno do reservatório UHE Corumbá IV.
A excursão será na Fazenda Tabapuã dos Pirineus, zona rural de Cocalzinho, próximo a Corumbá de Goiás. O objetivo da atividade é mostrar aos participantes a importância de preservação dos recursos hídricos, áreas de Preservação Permanente (APPs) e algumas técnicas de recuperação de áreas degradadas. A excursão será guiada pelo agente ambiental George de Melo, com experiência de 18 anos em preservação ambiental.
A saída do ônibus está marcada para as 8 horas, em frente à prefeitura de Corumbá de Goiás, com retorno previsto às 17 horas. O evento é gratuito. Mais informações pelo telefone: (62) 8199-1184 (agente ambiental George de Melo).

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Corumbá Concessões e parceiros realizam Dia de Campo do Balde Cheio em Abadiânia



ANA GUARANYS


BRASÍLIA, 18 de abril de 2012 - A Corumbá Concessões S.A. (CCSA) realiza nesta quinta-feira, 19 de abril, em Abadiânia (GO), o primeiro Dia de Campo do Balde Cheio de 2012 no município, que terá como tema central a sustentabilidade da pequena propriedade. O evento será realizado na fazenda Barro Amarelo, do proprietário João Maria Gonzaga (João Butina) e família e contará com as presenças de representantes da CCSA e parceiros - Fundação Banco do Brasil e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
O Balde Cheio tem como objetivo gerar emprego e renda aos produtores da Agricultura Familiar e manter o homem do campo na zona rural. O projeto foi implantado em sete municípios do entorno do reservatório da Usina Hidrelétrica Corumbá IV, em propriedades que funcionam como Unidades Demonstrativas (UDs) e que servem como modelo para as Unidades Assistidas (UAs), localizadas ao redor, replicarem os conhecimentos.
Na atual etapa do projeto, a Corumbá Concessões irá instalar uma fossa séptica biodigestora em cada UD. Este é um sistema de baixo custo e alta eficiência no tratamento dos resíduos sólidos humanos para evitar a contaminação do lençol freático e consequentes doenças, como diarreia, hepatite, salmonelose e cólera. Além disso, a fossa produz um adubo orgânico líquido que pode ser utilizado em hortas e pomares. Todas as informações a respeito serão repassadas aos participantes do dia de campo, para que o sistema possa ser implantado nas propriedades rurais de Abadiânia. 

PROGRAMAÇÃO 

8 horas: Recepção e lanche.
9 horas: Distribuição dos grupos.
10 horas: Estações.
Estação I – Conhecendo a propriedade sustentável – Rosimery Martins e Wendel Harlley (Acespa Chico Mendes).
Estação II - Uso de cana de açúcar para alimentação no período da seca – Saudio Vieira Peixoto (Senar-GO).
Estação III – Agrodefesa – Funções e calendário de vacinação – Adriana Helena Rosa (Agrodefesa de Abadiânia).
Estação IV – Fossas Biodigestoras – José Morais de Almeida (Acespa Chico Mendes).
12 horas: Encerramento e almoço.

SERVIÇO 

Evento: Dia de Campo do Balde Cheio.
Data: 19 de abril de 2012.
Horário: Das 8h30 às 12 horas.
Local: Fazenda Barro Amarelo – Abadiânia (há faixas indicando o acesso à propriedade).
Contato para entrevista: (61) 3462-5200 (Ana Guaranys, da Assessoria de Comunicação da CCSA); (61) 9958-7575 (Joy Pena, da Acespa Chico Mendes); e (62) 9684-0395 (Rômulo).

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Ray Cunha autografa O Casulo Exposto e Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos na Bienal Brasil do Livro e da Leitura de Brasília

Brasília: Acrílica sobre tela, de Olivar Cunha - 2011

BRASÍLIA, 13 de abril de 2012 – Brasília completa 52 anos neste 21 de abril, e o ponto alto da sua programação de aniversário é a primeira Bienal Brasil do Livro e da Leitura de Brasília, de 14, a 23 de abril, das 9 às 22 horas, na Esplanada dos Ministérios, dentro de uma estrutura coberta de 14 mil metros quadrados, dividida em quatro pavilhões, com 157 expositores, sessões de autógrafos, exibição de peças e filmes, seminários, debates, palestras e shows de música popular brasileira. Entrada franca. Os promotores do evento aguardam meio milhão de visitantes.

Estarão presentes 120 editoras e autores de todos os continentes. Nomes consagrados autografarão seus trabalhos, como o Nobel nigeriano Wole Soyinka, autor de O Leão e a Joia; o norte-americano Daniel Polansky, autor da trilogia Cidade das Sombras; o britânico Richard Bourne, autor da biografia Lula do Brasil; e o argentino Mempo Giardinelli, de Luna Caliente. Haverá também debates com escritores como a norte-americana Alice Walker, de A Cor Púrpura; e o chileno Antonio Skármeta, de O Carteiro e o Poeta. Entre os autores brasileiros convidados estão Milton Hatoum, Cristovão Tezza e Marçal Aquino.

O escritor Ray Cunha autografa dois livros na Bienal: O casulo exposto (LGE Editora, Brasília, 2008, 153 páginas, R$ 28) e Trópico Úmido - Três contos amazônicos (edição do autor, Brasília, 2000, 116 páginas, R$ 20), no Pavilhão D, estande 67, da Livraria Cope Espaço Cultural, defronte ao estande da Livraria Arco-Íris, sábado 21 e domingo 22, das 17 às 19 horas. 
Ray Cunha, defronte ao Congresso Nacional - Foto de Ed Alves - 2009

Brasília como ela é  


A Brasília que emerge das páginas do livro de contos O casulo exposto é uma alegoria à redoma legal que engessa o Patrimônio Cultural da Humanidade, a ninfa de Lúcio Costa, golpeada no ventre, as vísceras escorrendo como labaredas de roubalheira, luxúria, depravação e morte nos subterrâneos de Brasília. A fauna que transita na esfera política e chafurda nos subterrâneos da cidade-estado é heterogênea. Amazônidas que deixaram a Hileia para trás e tentam sobreviver na fogueira das vaidades da ilha da fantasia, jornalistas se equilibrando no fio da navalha, políticos daquele tipo mais vagabundo, que não pensa duas vezes antes de roubar merenda escolar, estupradores, assassinos, bandidos de todos os calibres, tipos fracassados e duplamente fracassados, misturam-se numa zona de fronteira fracamente iluminada. Contudo, a ambientação de sombra e luz tresanda também a perfume e romance.
“Ray Cunha trabalha, desde 1987, como jornalista, em Brasília, cobrindo amplamente a cidade e o Congresso Nacional. Seus romances e contos são, geralmente, ambientados na Amazônia, mas, como o escritor acaba envolvido ao meio onde vive, surgiu, assim, O casulo exposto” – diz a quarta-capa do livro, prefaciado pelo escritor Maurício Melo Júnior, apresentador do programa Leituras, da TV Senado. A capa é assinada pelo artista plástico André Cerino. 

LÚCIO FLÁVIO


Nascido em Macapá (AP), mas radicado em Brasília desde 1987, o jornalista e escritor Ray Cunha conhece como poucos as cicatrizes da capital brasileira. Experiência adquirida em mais de duas décadas como repórter de cidades e na cobertura intensa do Congresso Nacional. Por isso, não deixa de ser oportuno que o seu mais recente trabalho, o livro de contos O casulo exposto, chegue às livrarias justamente no momento em que o Senado passa por uma de suas piores crises.
“Embora seja todo ficção, o livro fala de um momento atual. Essa politicalha na qual estamos mergulhados vem do país inteiro, mas Brasília é a síntese", comenta o autor, que reúne 17 contos escritos desde 1989. "Nenhum dos meus trabalhos anteriores foram inspirados em ocorrências jornalísticas. Esse sim. Mas tudo o que acontece na vida de um escritor acaba entrando, de um jeito ou de outro, na ficção”, observa.
A unidade das tramas esbarra no submundo de Brasília. Ray Cunha, autor também dos romances A casa amarela e O lugar errado, explica que o título remete a utopia que se transformou na capital do país. Tal ideia está nitidamente expressa no primeiro conto do livro, por meio do encontro de dois homens, um guia e um engenheiro, num lugar onde, num futuro não muito distante, será construído o sonho de JK. “O senhor acha que vai dar certo, gente de toda parte se mudar para cá?”, pergunta o guia ao engenheiro. “Sim. Aqui, todos serão iguais”, responde.
“O desenho de Brasília também lembra o de uma borboleta. E a primeira passagem da vida de uma borboleta é o casulo. Um casulo que expõe suas vísceras que são os subterrâneos”, explica. “Uma Brasília engessada”, emenda.
A intimidade do autor com a cidade é denunciada não apenas por meio dos temas abordados - seja a política ou as mazelas da cidade -, mas também pela geografia desenhada em histórias que têm como personagens as vias da cidade como a W3 Sul e a W3 Norte ou um encontro aparentemente casual na Churrascaria Porcão. “Sou um observador privilegiado da cidade”, diz. 


Ray Cunha, como ele é 

Jornalista


Um breve bate papo com Ray Cunha, para os amigos do Jornal do Feio. Aldemyr Feio é um veterano jornalista que mora no famoso bairro belenense de Icoaraci, que batizou de Vila Sorriso, e pegou.
O que o levou a escrever O casulo exposto?
Costumo ambientar meus livros na Amazônia, especialmente Belém, minha cidade predileta. Porém vivo em Brasília, desde 1987. Do início de 1996 ao fim de 1997, voltei a morar em Belém, mas por questões profissionais retornei a Brasília. Uma estada tão longa nos leva a conhecer bem o ambiente onde vivemos; assim, é natural que comecemos a escrever algumas histórias com a geografia da cidade onde moramos. Em 2008, observei que já escrevera 17 contos ambientados em Brasília e com personagens que são, quase sempre, migrantes, que transitam nas ruas e nos meios jornalísticos e políticos da cidade-estado. Submeti os 17 contos à leitura do Maurício Melo Júnior, escritor talentoso e crítico literário bem-preparado. Ele escreveu a apresentação do livro e sugeriu que o levasse ao Antonio Carlos Navarro, diretor da LGE Editora, que resolveu editá-lo.
Maurício Melo Júnior, ao apresentar o livro, afirma que "O que interessa ao escritor são os resultados daquelas experiências, são os personagens que ficaram depois das epopeias”. Por que?
Um dos fios condutores de O casulo exposto são as personagens, em geral migrantes, às vezes frustrados ou duplamente frustrados. As epopeias a que Maurício se refere é a construção de Brasília - uma fase da cidade que já acabou. Restaram os candangos bem-sucedidos, como o empresário Paulo Octávio, dono de boa parte da cidade, e muita gente que mora em assentamentos e invasões. Migrantes continuam chegando, mas agora tudo está lotado. Os contos, portanto, não enfocam uma epopeia, mas a miudeza do dia-a-dia na capital da república.
Maurício também afirma: "Ray Cunha ainda lhes dá um tratamento recheado de um humor cáustico, em alguns momentos até cruel". O que ele quis dizer com isso?
Algumas das personagens dos contos são tragicômicas. Outras, apenas trágicas. Creio que o humor cáustico a que Maurício se refere é o que costumamos chamar de humor negro, quando situações, apesar de dramáticas, ou trágicas, contêm, mesmo assim, viés risível.
Seus romances e contos são, geralmente, ambientados na Amazônia. Qual a sensação de escrever um livro "candango", ou seja, produzido com as coisas que acontecem em Brasília?
É a mesma sensação de trocar pirão de açaí com dourada frita por pão de queijo, ou de trocar a Estação das Docas por shopping. São duas situações absolutamente diferentes. No meu caso pessoal, caio de joelhos por tudo o que diz respeito à Amazônia, mas também curto Brasília. Assim, sinto-me perfeitamente à vontade tanto na Amazônia como em Brasília.
"O casulo é uma alegoria à redoma legal que engessa o Patrimônio Cultural da Humanidade..." mas "também tresanda a perfume, romance e esperança, nas luzes da grande cidade". Dá para explicar?
O casulo do título evoca o fato de que Brasília é reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade. Em termos práticos, não se pode mudar a arquitetura original do Plano Piloto de Brasília, que compreende o projeto do urbanista Lúcio Costa, excluindo-se as cidades-satélites. Então, o Plano Piloto é protegido sob uma redoma legal, um engessamento legal. É Patrimônio Cultural da Humanidade, mas nas suas ruas e nos seus subterrâneos não há romantismo, como em toda metrópole brasileira, inchadas e perigosas. Apesar disso, há contos de puro perfume, romance e esperança. O conto que encerra o livro, A Caça - que inclusive já foi publicado pela Editora Cejup (de Belém do Pará) -, quase no fim, refere-se às luzes de Brasília e termina no quarto de um bom hotel.
Você acha que o leitor vai entender as suas colocações contidas no Casulo?
Certamente que sim. A literatura, como qualquer arte, tem algo maravilhoso. No seu caso específico, as palavras remetem o leitor a mundos que são somente dele. O escritor é um mero porteiro. Lembrei-me de um caso que ocorreu com William Faulkner. Alguém o informou que leu duas vezes um livro seu e não entendeu a história. Faulkner sugeriu que lesse mais uma vez.
Nos "casos" relatados no livro você teve alguma participação ou foram vivenciados apenas superficialmente?
O senso comum mistura atores com personagens e acredita que ficção é o que conhecemos como realidade. Se assim fosse, quantos escritores não estariam atrás das grades por assassinato? O fato é que até nas autobiografias há mais ficção do que realidade. O escritor que faz seu trabalho com seriedade não está interessado em jornalismo. Estou certo de que pelo menos 75% do que os jornais publicam originam-se de interesses dos donos, de ideologia, de conjecturas, de boatos, ou de mentiras pura e simplesmente. Também o escritor não está interessado em si mesmo, pois todos os escritores são pessoas comuns e, muitas vezes, introvertidas. Qual a participação que um escritor pode ter numa história que se passa em outro planeta? Como Antoine de Saint-Exupéry criou O Pequeno Príncipe? Esta é a diferença: as antenas especiais com que os escritores nascem, o que permitiu, por exemplo, que Ernest Hemingway criasse uma mulher abortando, em Adeus às Armas, ou que John Steinbeck desse vida a uma mulher que acaba de perder seu bebê recém-nascido e dá de mamar a um ancião que está morrendo de fome, em Vinhas da Ira.
Quem é Ray Cunha?
Nasci em Macapá, na margem direita do estuário do rio Amazonas, cortada pela Linha Imaginária do Equador, em 7 de agosto de 1954. Fui educado na Amazônia. Conheço a Hiléia razoavelmente, por longa leitura e por ter estado lá. Vivo em Brasília por uma questão de mercado de trabalho. Aqui, consigo oferecer à minha família razoável padrão de vida, sustentado pela minha profissão, jornalismo. Literatura, para mim, é minha missão pessoal. Embora morando em Brasília, a internet me permite ficar ligado o tempo todo à Amazônia. Tenho ligação íntima com Belém, um dos meus grandes amores, e, naturalmente, com Macapá. Quanto a Brasília, já somos velhos namorados. Brasília me deu duas mulheres fundamentais: minha esposa, e minha luz, Josiane, e uma flor, minha filha Iasmim.


Um dos 17 contos de O casulo exposto: Almoço de trabalho no Porcão 

Do balcão do Café Doce Café, defronte à Livraria Sodiler, no átrio central do shopping, Galicíssimo abarcava todo o largo hall do Conjunto Nacional, selecionando e acompanhando com o olhar as mulheres sensuais até perdê-las de vista no labirinto de corredores. O passa-passa era intenso. Divisou a jornalista ainda no passeio público. Tratava-se de uma mulher surpreendente: uma mulata ruiva.
- Estou ansiosa para ver o livro – Yanna foi logo dizendo.
Galicíssimo apanhou o envelope que depusera no balcão e tirou dele um livro. A capa era um óleo de André Cerino - uma boca, uma rosa vermelha, colombiana. O livro intitulava-se: “O perfume das virgens ruivas”. Yanna pegou-o, sôfrega, e o abriu na folha de rosto. Estava lá: “Para Yanna Silva Bergman, jasmineiro em noite tórrida do verão amazônico, que nos faz mergulhar na dimensão do cio”.
- Meu poeta! - disse Yanna. Puxou Galicíssimo e o beijou, limpando o batom que carimbara nos lábios do homem de cara de terçado.
Galicíssimo era baixinho - teria um metro e sessenta, mais ou menos -, magricela, estrábico e de cabelos grisalhos, embora só tivesse quarenta e três anos. Mas isso era compensado por epiderme maravilhosa, lisa e rosada como a pele de um bebê. Sua expressão era a de uma criança perdida, despertando nas mulheres o instinto materno. Contudo o que lhe originara o apelido, Galicíssimo, fora seu talento para lidar com as mulheres. Podia-se, nesse caso, aplicar-lhe perfeitamente o ditado que reza: não há mulher difícil; há mulher mal cantada. Em outras palavras, não há mulher que resista a sentir-se princesa; isso as enlouquecem completamente, torna-as reféns absolutamente indefesas e as leva a cometer qualquer crime. Bastava meia hora de papo para as vítimas grudarem, literalmente, em Galicíssimo, que possuía o dom de dissecar a alma feminina com a mesma eficiência de um anatomista que vasculha o corpo humano em busca de compreender melhor a posição dos órgãos, ossos, músculos, tendões, artérias e tecidos, já tão estudados e catalogados. Educara-se em um meio bastante parecido ao de Gabriel García Márquez. Teve um avô como ponto de referência e o resto da casa eram mulheres. Tornara-se, assim, um observador, um analista, um especialista em mulheres, adivinhando os mais recônditos desejos “dessas crianças grandes, dessas criaturas divinas, dessas flores tão delicadas, que se defendem, quando muito, munidas apenas de miseráveis espinhos”. Todas buscavam, pura e simplesmente, consolo, por uma razão da qual não podiam escapar: são todas inconsoláveis. Era então que Galicíssimo dava o pulo do gato, exibindo um instrumento insuspeito, magnífico, que transformava mulheres tristes em tarântulas subindo pelas paredes e se voltando para encarar o surpreendente membro fálico.
“Os psicoterapeutas confortam os homens menos dotados informando-os de que as mulheres gozam mais devido ao carinho, às preliminares, como dizem, e não a um pênis grande, mas todo homem quer ter o pênis de pelo menos dezesseis centímetros. O meu tem doze centímetros; chega a treze centímetros nos momentos de muita inspiração. Segundo os psicoterapeutas, até esse tamanho ainda é normal. Todas as mulheres que espetei gozaram; às vezes, experimentam gozos múltiplos. Mas acho que as deixaria bastante impressionadas se tivesse pelo menos dezesseis centímetros de pênis” – disse, certa vez, Boi Bambo. “Boi Bambo entende mais é de porrada” – Galicíssimo pensou, naquela ocasião.
Acendeu um Hilton. Tinha uma única filha, Eneida, de vinte e seis anos; estava fazendo mestrado em Paris. Era viúvo. Natural de Belém do Pará, já vivia há muito tempo em Brasília, “a cidade mais estrangeira do mundo, mas a única capaz de me proporcionar 30 mil reais por mês” – pensou. Marqueteiro dos bons na superfície, era, na verdade, poeta; poeta nos sete oitavos do seu iceberg pessoal. Viu Boi Bambo emergir do formigueiro defronte ao shopping e materializar-se à sua frente. Deveria chamar-se Boi Zebu, pois tinha o alto das omoplatas gordo como cupim. Seu andar era pesado e lerdo, meio bambo, como se estivesse dançando. Abriu-se em largo sorriso, estendendo a pata ao colega.
- Três expressos curtos – Galicíssimo pediu à moça do balcão.
- Ele pagou tudo, até o último centavo - disse Boi Bambo, adoçando com açúcar o forte, fumegante e amargo robusta. Sua cabeça só faltava ter chifres para ser mesmo boi. Era grandalhão e gordo como um barril. Quando caminhava, apenas suas pernas se moviam. Os braços pareciam dois quartos de boi pendurados no tronco roliço. Seus olhos lembravam os de uma boneca, fechando-se e abrindo-se lentamente, sem que nenhum outro músculo do seu corpo se movesse. Usava Chanel Número Cinco e terno branco, de linho irlandês; era capaz de sair de uma briga de rua tão alinhado quanto entrara. Treinara na Joe Louis, em Belém.
- Tudo? – disse Galicíssimo, incrédulo. Yanna não desgrudava os olhos do livro.
- Bem, tive de convencê-lo - continuou Boi Bambo. - Estive ontem lá e disse a ele: vou voltar amanhã cedo e se tu não estiveres aqui, com meu dinheiro, levarei um pedaço teu - um dedo, uma orelha, um ovo, qualquer pedaço, desde que tu fiques vivo. Ele me olhou com uma cara enfadada. Então mostrei a Glock a ele e expliquei que ela é uma pequena metralhadora, que poderia varrer sua flor do jardim de trás do mapa em alguns segundos. Tu sabes, vai sobrar muito dinheiro da campanha e o canalha do tesoureiro vai ficar com uma grana preta; se não recebêssemos logo, o nosso candidato ia querer pagar com cargos de assessoria especial ou uma sinecura qualquer, e se perder estas eleições, aí é que não veríamos a cor da grana, embora saibamos que ele não vai perder; as pesquisas mostram que ganhará no primeiro turno.
- Já me sinto culpado só de participar da campanha desse cretino; não quero fazer parte da quadrilha dele trabalhando no governo – disse Galicíssimo.
- Eu pago o almoço, hoje – disse Boi Bambo. – Vamos comer no Porcão! Darei os cheques de vocês lá e discutiremos melhor os passos finais da campanha.
Era o início da tarde. O sol fazia a grama estalar como palha. Em setembro, o tempo é seco como o Saara. Isso começa em julho e vai até outubro. Setembro estava no fim. Cigarras gritavam em qualquer árvore que escapou do concreto de Oscar Niemeyer; a Esplanada dos Ministérios, devastada pela prancheta do famoso arquiteto, tremia à onda de calor que sufocava a decrepitude precoce da cidade-estado. O automóvel, grande e negro, deixou para trás a Praça dos Três Poderes rumo ao Lago Sul. Do vidro da janela do carona Boi Bambo atirou um toco de cigarro na grama seca, que logo começou a crepitar.
Taguatinga Sul-DF, 2002/Valparaíso de Goiás, 14 de abril de 2007 

Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos

Trópico Úmido - Três contos amazônicos (edição do autor, Brasília, 2000, 116 páginas, capa de André Cerino) reúne três histórias curtas com pano de fundo em quatro cidades da Amazônia: Belém, capital do Pará; Macapá, capital do Amapá; Manaus, capital do Amazonas; e Rio Branco, capital do Acre.
Inferno Verde, o primeiro conto, começou a ser escrito em Valparaíso de Goiás, na zona metropolitana de Brasília, em 4 de maio de 1998, e foi concluído em 20 de junho de 1999, em Taguatinga, cidade-satélite de Brasília. Conta a história do repórter Isaías Oliveira, num duelo com o sinistro traficante Cara de Catarro. A trama se passa em Belém e na ilha do Marajó.
O segundo conto, Latitude Zero, foi concluído em Belém, no dia 3 de dezembro de 1996. Desenrola-se em Macapá, cidade situada no estuário do maior rio do planeta, o Amazonas, em confluência com a Linha Imaginária do Equador. Um punhado de jovens começa a descobrir que a vida produz também ressaca.
Inferno Verde e Latitude Zero têm sua geografia na mornidão de Belém, no mundo das águas do Marajó, a maior ilha flúvio-marítima do mundo, e na esturricada Macapá, do outro lado do estuário do rio Amazonas, tremeluzindo na Linha do Equador. Belém e Macapá são as duas principais cidades da Amazônia Oriental, ou Caribe Brasileiro.
O terceiro conto, A Grande Farra, foi publicado em livro homônimo em 1992. Começou a ser escrito em Manaus, em 1976, e foi concluído em Belém dez anos depois. Narra as peripécias do jovem repórter e playboy Reinaldo. Candidato a escritor, ele gasta seu tempo trabalhando como repórter, bebendo e se envolvendo com inúmeras mulheres. O conto tem sua geografia em Manaus, encravada no meio da selva amazônica. A ação transfere-se depois para Rio Branco, no extremo oeste brasileiro. 

Obsessões amazônicas de Ray Cunha  

MAURÍCIO MELO JÚNIOR
Escritor e jornalista, apresentador do programa Leituras, da TV Senado


A literatura brasileira está numa encruzilhada. Cada autor atira para um lado e ninguém consegue formatar o que no passado se chamou de movimento. Mesmo em lugares onde se pratica uma literatura regional intensa - Pernambuco e Rio Grande do Sul, por exemplo - não há o senso de união. Isso, se por um lado favorece a diversidade temática, por outro, paradoxalmente, desagrega autores e enfraquece o trabalho de formação de leitores. Embora o ato de escrever seja um exercício de solidão, são a vivência e a convivência que dão ao escritor o estofo necessário para a composição do texto.
O escritor Ray Cunha, nascido na beirada da floresta amazônica, sofre do mal que vitimou parte de seus colegas a partir dos anos setenta: é um escritor desagregado, carente de grupos com quem possa discutir temas, estéticas e formas. Isso fica muito claro em seu livro Trópico Úmido - Três contos amazônicos (edição do autor, Brasília, 2000, 116 páginas), no qual, apesar de uma certa obsessão geográfica, sente-se a ausência da região em sua plenitude. O leitor mais exigente terminará a leitura carente do sotaque e das cores amazônicas, embora fique saciado com o desenvolvimento bem resolvido da trama.
O conto que abre o livro, Inferno Verde, conta a história do repórter Isaías Oliveira em duelo sangrento e perverso com o traficante Cara de Catarro. O segundo texto, Latitude Zero, fala de um grupo de jovens em descobertas sexuais em Macapá. Pode ser visto como um conto de formação, embora carregado do escancaro de Charles Bukowisk, o que é até compreensível em quem sobreviveu às teorias de Freud e à revolução sexual dos anos sessenta. Finalmente, o último conto do volume, A Grande Farra, conta a história de Reinaldo, um repórter que sonha ser escritor, mas, milionário, gasta a vida em bebedeiras e aventuras sexuais.
A linha que liga todos os textos, além da região amazônica, é mesmo a temática da sexualidade. No entanto, este sentimento está muito próximo das práticas vindas com a liberação sexual dos anos sessenta, unidas a um certo sadismo dos personagens. Num pobre exercício de paráfrase com os Atletas de Cristo, que trazem halos angelicais para os nossos atletas de futebol, podemos dizer que os personagens de Ray Cunha são Atletas de Sade. É impressionante a obsessão por um ato doloroso e imposto. Há sempre dominação do macho sobre a fêmea, mesmo quando ela, também filiada à revolução sexual, escolhe seu parceiro. Ainda assim prevalece a força do macho.
Esses personagens construídos pelo autor, por conta da defesa de uma geração perdida, terminam por carregar cores muito iguais. São todos hedonistas, amantes do prazer sobre todas as coisas. Por conta desse sentimento entram de cabeça na vida sem medir qualquer consequência. E fica clara aí a influência de Bukowisk, o velho safado, embora a sensualidade das ninfetas traga para os textos uma certa lembrança de Nabokovisk, o velho também safado, mas um pouco mais pudico. Sobrevive disso tudo um mundo excessivamente cruel, posto que o prazer é o que menos importa aos moços. Todas as relações têm como objeto a sujeição do parceiro.
O poeta Augusto dos Anjos falava em um de seus sonetos da “obsessão cromática”, do que chamava de fantástica visão do sangue se espalhando por toda parte. Ray Cunha trás para a literatura um pouco dessa obsessão, que faz a festa dos repórteres policiais. Há muitas cenas cruéis, com requintes de crueldade, dignos das páginas dos romancistas policiais americanos da década de cinquenta, um período no qual a fineza britânica de Conan Doyle foi substituída pela inspiração de Bram Stoker.
Finalmente, há obsessão geográfica. Para um livro passado na Amazônia isso é bem interessante. No entanto o autor poderia descrever mais e citar menos. Explica-se. É comum por todo o texto o nome de ruas onde moram, vivem e rodopiam os personagens. O problema é que a citação pura e simples do nome da rua simplesmente não remete a qualquer impacto sobre o leitor que não conhece as ruas. O autor poderia descrever as ruas, o que daria uma informação a mais ao leitor, situando-o até no ambiente por onde transitam os personagens.
Fica do livro, entretanto, a construção da história. Há pontos de prisão do leitor no jogo de curiosidades desvendadas aos poucos. O autor sabe manipular bem a trama, levando o leitor ao clímax. Com isso, resgata uma das maiores carências da literatura brasileira atual: o bom contador de história. É que os nossos novos escritores, buscando a universalidade linguística de Guimarães Rosa, esqueceram que ele sabia contar bem uma história. Resultado: renunciaram à narrativa e não ganharam a inventividade estética.
Ray Cunha consegue contar bem suas histórias. No entanto poderia ter trazido o mundo mais amazônico para suas páginas; poderia deixar um pouco as influências estrangeiras e seguir a trilha de autores como Benedicto Monteiro. Isso pode transformá-lo no grande representante da literatura amazônica moderna. Aquele que conseguirá traduzir boa linguagem com boa narrativa, e tudo temperado em um bom caldo de tucupi. 
SERVIÇO 
O casulo exposto (LGE Editora, Brasília, 2008, 153 páginas, R$ 28) está à venda nos sites das livrarias: Saraiva, Cultura e Leitura, e da LGE Editora (www.lgeeditora.com.br). Em Brasília, está à venda na Cope Espaço Cultural (409 Norte, Bloco D, Loja 19/43, telefone 61-3037-1017).
Trópico Úmido – Três contos amazônicos (edição do autor, Brasília, 2000, 116 páginas, R$ 20) está à venda na Cope Espaço Cultural (409 Norte, Bloco D, Loja 19/43, telefone 61-3037-1017), ou pelo e-mail: raycunha@gmail.com, a R$ 30, incluindo o envio por correspondência registrada via Correios. Para o exterior, custa R$ 40. O depósito pode ser feito após o recebimento do livro, ou no ato do pedido, no: Banco Itaú, Agência: 0654, Conta: 60819-9.
Contato com o autor: raycunha@gmail.com
Contato com o editor, Antonio Carlos Navarro: lgeeditora@lgeeditora.com.br - (55-61) 3362-0008