terça-feira, 17 de julho de 2012

Blog DF-GOIÁS não será mais atualizado




BRASÍLIA, 17 de julho de 2012 – Novos projetos me levam a não mais atualizar este blog, DF-GOIÁS, criado em 1 de julho de 2011.
Quero agradecer a parceria com os colunistas: Lúcio FlávioPinto, um dos jornalistas que mais se aprofundaram no conhecimento da Amazônia; Ruy Fabiano, um dos mais lúcidos e bem informados analistas políticos do Brasil; Luiz Solano, experiente repórter no âmbito do poder, em Brasília; e Samantha Larroyed, jovem talento brasiliense.
E sou grato ao leitor, que deu crédito a este blog.
Durante um ano, uma semana e dois dias (até às 13h35 de 17 de julho de 2012), recebemos 25.344 visitas. Os 10 países que mais nos visitaram foram: Brasil – 22.162; Estados Unidos – 2.127; Rússia – 341; Alemanha – 315; Portugal – 99; Reino Unido – 88; Ucrânia – 70; Japão – 49; Letônia – 44; e França – 39.

sábado, 14 de julho de 2012

A política de desaforos


RUY FABIANO
ruyfabiano@yahoo.com.br


BRASÍLIA, 14 de julho de 2012 - Diz o ditado que o exemplo vem de cima. As crianças miram-se no exemplo dos adultos, assim como os subordinados no dos chefes e os governados no dos governantes. Podem até não segui-los, mas os têm como referências.
O preâmbulo vem a propósito da recente investida do presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), o bancário Vagner Freitas, contra o Supremo Tribunal Federal (STF), ameaçando-o com manifestações de rua, caso o julgamento do Mensalão se mostre político e não técnico.
Não especificou de que parâmetro se valerá para distinguir uma coisa da outra, mas deixou a impressão de que a eventual condenação dos réus terá conteúdo político e a absolvição, técnico.
O espanto que a declaração causou é infundado. Freitas não inovou. Nada mais fez que repetir o que seus líderes já o fizeram à exaustão. José Dirceu, por exemplo - que, além de liderança maior do PT, é réu no processo -, prometeu colocar nas ruas a militância do partido e os movimentos sociais, dos quais faz parte a CUT.
Um desaforo, recebido com aplausos por uma plateia da UNE e amplamente noticiado, sem consequências, pela mídia.
Lula chegou a abordar ministros do STF – ou a ameaçar que o faria (e a imprensa citou os nomes de Ricardo Lewandowski, Dias Toffoli, Ayres Britto e Carmem Lúcia) -, considerando impróprio o julgamento em ano de eleição, como se a Justiça devesse se guiar pelo calendário político-eleitoral e não pelo seu.
Antes, Lula já negara a própria existência do Mensalão, considerando-o uma tentativa de “golpe de Estado” contra seu governo, acusação (gravíssima) que o presidente do PT, Rui Falcão, já a repetiu inúmeras vezes, sem consequências.
Ora, como o processo teve origem na Procuradoria Geral da República e foi recebido pelo STF, deduz-se que ambas as instituições fazem parte dessa tentativa de golpe. Se verdadeiro, uma tragédia institucional, que não poderia passar impune; se falso, uma agressão intolerável.
Em qualquer país que adote o Estado democrático de Direito – e o Brasil, ao menos formalmente, é um deles -, tais investidas mereceriam no mínimo uma interpelação judicial ou um protesto categórico – ou ambos. Mas aqui nada ocorre, e o delito se reproduz na voz da militância.
O espanto, ao que parece, foi definitivamente abolido do cenário político brasileiro. O ministro Gilmar Mendes, um dos abordados por Lula – e o único a revelá-lo -, disse ter sido pressionado para que se empenhasse pelo adiamento do Mensalão. Em troca, seria blindado na CPI do Cachoeira, que Lula disse ter sob controle (outro absurdo, que nem se deu ao trabalho de desmentir), onde circularia o boato de que viajara a Berlim num avião do contraventor.
Comprovada a improcedência da acusação por meio de documentos, o assunto morreu. Lula não respondeu de viva voz a Mendes, mas por terceiros, dizendo-se indignado e prometendo processá-lo. Ao que se saiba, não o fez – e é improvável que o faça. Se pudesse comprovar o que disse, já o teria feito, o que seria bem mais eficaz que um processo e ensejaria, quem sabe, até o impeachment de seu desafeto.
Na política do espetáculo, nada disso é necessário. Todos sabem que nada é para valer. Assim, mais uma acusação gravíssima cai no vazio e estimula quem está embaixo – é o caso do presidente da CUT - a agir do mesmo modo.
Além de não haver consequências, fomenta-se o clima de insegurança jurídica, objetivo maior dessas ações.
O dano maior é à imagem das instituições, que já não é boa e deteriora-se ainda mais. É preocupante o futuro de uma democracia com instituições frágeis e desacreditadas perante a sociedade. É onde estamos.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Demóstenes Torres será preso?


RAY CUNHA


BRASÍLIA, 11 de julho de 2012 – Sob o título “Site do Senado antecipou a cassação de Demóstenes”, o jornalista Ricardo Noblat publicou, no seu blog, o que todos do PTMDB já sabiam: a ordem era cassar Demóstenes Torres (sem partido/GO), por duas razões: a de que petistas e peemedebistas, sob o comando de Lula e do senador maranhense vitalício Zé Sarney, jamais perderiam a oportunidade de acabar com a ex vestal goiana; a outra razão é que Demóstenes mancomunou-se com um dos gângsteres mais perigosos do país, Carlinhos Cachoeira, perigoso inclusive, e principalmente, para o esquema de aparelhamento do estado e roubo que arrombam a burra do estado brasileiro. O caso da Valec/Norte-Sul é fichinha.
Noblat observou que às 12h7 o site do Senado publicou a manchete: “Demóstenes está inelegível até fevereiro de 2027”. A notícia dizia: “Por ... a ..., o senador por Goiás teve seu mandato cassado pelo Plenáro do Senado, que o considerou culpado da acusação de envolvimento com esquema de Carlinhos Cachoeira”. “O site antecipou a cassação em uma hora e meia mais ou menos” – Noblat comentou, explicando que isso é comum na “cozinha” das redações, quando já se sabe antecipadamente o que vai acontecer.
Demóstenes foi cassado por 56 votos contra 19 e cinco abstenções. Em 186 anos do Senado, foi o segundo senador cassado, antecedido pelo notório Luiz Estevão de Oliveira (PMDB-DF), em 2000. A propósito, Luiz Estevão está preso?
Agora, Demóstenes perdeu o que os parlamentares chamam de fórum especial, uma espécie de credencial a bandidos com mandato como Paulo Salim Maluf, que se pôr o pé fora do Brasil será engaiolado pela Interpol. Pelo andar da carruagem, Demóstenes deverá ser preso por um dos 13 mil juízes de primeira instância. Demóstenes é sinistramente inteligente, e é capanga de Carlinhos Cachoeira, uma espécie de Don Corleone de verdade.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Ministério Público investiga prefeito Célio Silveira (PSDB), de Luziânia (GO)

Cristóvão Tormin (PSD): choque de gestão 

RAY CUNHA


BRASÍLIA, 9 de julho de 2012 – Aliado de primeira hora do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), o também investigado (Marconi é investigado pela Polícia Federal) Célio Antônio da Silveira (PSDB), prefeito de Luziânia (GO), maior cidade do Entorno do Distrito Federal, com cerca 174 mil habitantes, está cada vez mais rico, e o Ministério Público quer saber o segredo desse tremendo sucesso empresarial. Formado em medicina, Célio é político profissional. Tratado como dr. Célio, com a iminente eleição do deputado estadual Cristóvão Tormin (PSD) a prefeito de Luziânia, os bajuladores de Célio começaram a debandar. Pergunta-se: será que Carlinhos Cachoeira tem negócios em Luziânia?

O Ministério Público ajuizou, somente este ano, nove ações questionando os gastos da prefeitura de Luziânia em obras com licitações suspeitas. Antes de assumir o primeiro mandato na prefeitura, Célio declarava ter uma casa avaliada em R$ 47 mil, dois carros e um terreno. Hoje, após sete anos de mandato, das quatro firmas nas quais Célio tem participação, três receberam recursos da Prefeitura. A maior delas, o Hospital Santa Luzia, ganhou em repasses diretos pelo menos R$ 179 mil.

Em entrevista a este blog, publicada em 23 de novembro de 2001, Cristóvão Tormin declarou, em resposta à pergunta Supondo que o senhor seja candidato e ganhe as eleições, qual seria seu foco principal como prefeito de Luziânia?: “Primeiramente, um choque de gestão. Em especial na saúde pública. Precisamos incrementar não só os postos de saúde, mas o Hospital Regional, pondo tudo para funcionar. Precisamos mudar a concepção de saúde pública do nosso município, uma vez que até as mais simples cirurgias são enviadas para o Hospital de Santa Maria (DF), o Hospital de Base (DF) e o Hospital Regional do Gama (DF). Nós temos que acabar com isso. Luziânia é uma cidade de médio porte e precisa de investimentos maciços na área de saúde. Com relação à infraestrutura, precisamos de obras de qualidade, desde um pequeno reparo até pavimentações asfálticas de grande porte, para realmente aplicar bem o dinheiro do povo, e o dinheiro do povo é uma responsabilidade muito grande que a gente tem. Então, as obras públicas têm que ter qualidade. Pretendo fazer uma revolução na área educacional, que também está precisando de um choque de gestão, principalmente com a implantação de aula em tempo integral. Nós também precisamos fazer parcerias com o governo federal, que está aqui tão pertinho da gente, tanto para a área de infraestrutura quanto para a área de segurança pública. O problema da violência não será resolvido, na nossa região, se não for com parcerias entre as prefeituras e os governos estadual e federal, alocando recursos e executando também programas nas áreas educacional e social. Só assim haverá inclusão social e a marginalidade será bastante reduzida. Precisamos ainda atrair indústrias de porte, tanto para Luziânia sede quanto para o Distrito do Jardim Ingá, para gerarmos emprego, renda, dar dignidade às pessoas para que elas não precisem ir para Brasília, enfrentando esse trânsito horrível nos horários de pico, e poder trabalhar perto da sua casa e contribuir com o progresso, o desenvolvimento do município, trabalhando aqui. Nós ainda estamos em fase de elaboração do plano de governo, uma vez que as eleições ocorrerão somente daqui a dez meses, mas o foco principal será nestas áreas: saúde, educação, segurança pública, infraestrutura e geração de emprego e renda.

(Com informações do Correio Braziliense)

sábado, 7 de julho de 2012

Lula declara apoio à ditadura de Hugo Chávez


RAY CUNHA


BRASÍLIA, 7 de julho de 2012 – O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou, ontem, em mensagem de vídeo transmitida no encerramento do Foro de São Paulo, em Caracas, apoio a Hugo Chávez, que tentará sua terceira reeleição consecutiva dia 7 de outubro. “Chávez, conte comigo, conte com o PT, conte com a solidariedade e apoio de cada militante de esquerda, de cada democrata e de cada latino-americano. Sua vitória será nossa vitória” – diz Lula, que sonha em ser ditador do Brasil.
Lula, que se recupera de câncer na laringe, afirmou que gostaria “muito” de estar em Caracas, “não só para integrar a delegação do PT”, mas também para “dar um forte abraço” em seu “companheiro” Chávez.
“Com a liderança de Chávez, o povo venezuelano teve conquistas extraordinárias. As classes populares nunca foram tratadas com tanto respeito, carinho e dignidade. Essas conquistas devem ser preservadas e consolidadas” – Lula delira. Hugo Chávez, família e apaniguados estão afundando a Venezuela; venezuelanos pobres estão morrendo de fome e de doenças advindas da fome.
“Um dos fundadores do Foro de São Paulo, em 1990, Lula destacou a importância desse encontro e ressaltou que, graças aos governos “progressistas” regionais, a América Latina é hoje “uma referência internacional de alternativa vitoriosa ao neoliberalismo” – diz a Agência EFE.
“Claro, ainda há muito por fazer. Os fatos ocorridos, por exemplo, em Honduras e Paraguai, mostram o muito que ainda precisamos lutar para que a democracia prevaleça em nossa região” – disse Lula, citando o recente impeachment do presidente do Paraguai, Fernando Lugo, e a queda, em 2009, do então presidente hondurenho, Manuel Zelaya.
Lula observou que os países latino-americanos estão “marcados pela pobreza e pela desigualdade”, destacando a necessidade de apostar em “mais crescimento econômico, políticas sociais e reformas estruturais” na região. Lula teve essa oportunidade durante 8 anos no Brasil, e tudo o que fez foi aparelhar o Estado e anestesiar o povão com a Bolsa-Esmola.
“Em tudo o que fizemos até agora, que foi muito, o Foro e os partidos do Foro tiveram um grande papel que poderá ser muito maior se soubermos manter nossa principal característica: unidade na diversidade” – continuou, com sua algaravia.
Transmitido o vídeo, foi a vez do bufão venezuelano falar. “Eu lhes confesso que começo essas palavras muito comovido, sobretudo por essa mensagem desse grande companheiro, amigo desta pátria, desta alma nossa que é Luiz Inácio Lula da Silva. Eu te digo, Lula, desde aqui, que tenho certeza que a cada dia se aproxima mais o momento em que conseguiremos de novo nos encontrar, e o abraço que vamos dar vai ser um abraço do tamanho deste mundo e além” - sentenciou o amigão de Lula.
Como Lula não consegue dar um golpe de Estado, tornou-se amigão de todo e qualquer ditador, incluindo antropófagos. Deve ser um meio de se sublimar. (Com informações da EFE)

Ponte que liga o Amapá à Guiana Francesa está pronta, mas BR-156 está longe de ser concluída


RAY CUNHA


BRASÍLIA, 7 de julho de 2007 – O mais influente noticioso televisivo do país, o Jornal Nacional, da TV Globo, mostrou, ontem à noite, um pouco sobre como as coisas costumam funcionar (ou não funcionam) na Amazônia, precisamente no estado do Amapá, no setentrião da costa brasileira, fronteira com a Guiana Francesa, país que a França mantém como colônia na América do Sul.

Em 13 de setembro de 1943, foi criado o Território Federal do Amapá, desmembrando do estado do Pará, e em 1 de janeiro de 1991, foi instalado o estado do Amapá, criado pela Assembleia Nacional Constituinte de 1988. Foi nessa época, aliás, que o maranhense Zé Sarney foi eleito pelos tucujus senador vitalício. Sarney deu notoriedade ao Amapá, que só era conhecido como fonte do melhor manganês do mundo, com o qual o governo brasileiro presenteou os americanos, que o estocaram no Tio Sam e deixaram o buracão no município de Serra do Navio.
Pois bem, com 142.814,585 quilômetros quadrados, o Amapá é cortado longitudinalmente pela A BR-156, que liga Macapá, a capital, a Oiapoque, na divisa com a Guiana Francesa. Essa rodovia começou a ser construída nos anos de 1940. Tem cerca de 900 quilômetros, mas apenas 150 quilômetros foram pavimentados. Em quase sete décadas de construção, já enriqueceu muita gente boa e, pelo jeito, ainda vai encher os bolsos de muita gente boa.
Em agosto de 2011, o Brasil concluiu, após dois anos de construção, uma ponte sobre o rio Oiapoque, no valor de R$ 71 milhões, ligando a cidade de Oiapoque (açougue de carne infantil a turistas libidinosos, que atravessam o rio Oiapoque em busca de aventuras que só o Brasil pode proporcionar) a Caiene, a capital da colônia francesa, a 5 quilômetros de Oiapoque. Do lado francês, a rodovia e as instalações alfandegárias estão prontinhas, mas do lado amapaense só há a decrepitude de sempre.
Atualmente, o Amapá está nas mãos da família Capiberibe. O governador, Carlos Camilo Góes Capiberibe (PSB), 40 anos, é filho do ex-governador por 8 anos e agora senador João Capiberibe e da deputada federal Janete Capiberibe, ambos também do PSB. João Capibiberibe não concluiu a BR-156 e Camilo não leva jeito de que vá concluí-la. Esse negócio de que a rodovia é federal, que é preciso se ajoelhar na frente da presidente Dilma Rousseff, ou ir diretamente a Lula, para que a BR seja concluída, é papo furado. Um governador pode muito; é só ter vontade política. É claro que para isso é preciso também ser avesso a patrimonialismo e a nepotismo, e bater de frente contra as gangs que assaltam o Amapá.
A propósito, segundo o jornal O Estado de São Paulo, até junho de 2010, a verba indenizatória dos deputados estaduais do Amapá era de R$ 15 mil mensais; subiu para R$ 50 mil e depois para R$ 100 mil, por sugestão do presidente da casa, Moisés de Souza (PSC), e acolhida por unanimidade. Foi algo tão descarado que as aves de rapina recuaram e baixaram o saque para R$ 50 mil, ainda assim, a maior do Brasil. Os deputados estaduais de São Paulo recebem R$ 13 mil mensais e os federais, R$ 35 mil (houve aumente recentemente, mas ainda está longe de R$ 50 mil). Detalhe: o Amapá é um dos estados mais pobres da federação.
Moisés de Souza é da turma de Zé Sarney. Falar em Sarney, o senador vitalício criou em Macapá uma “zona franca” de quinquilharias que atraiu boa parte da população pobre do Maranhão. Agora, Zé Sarney tem eleitor até para voltar à presidência da República. Lula, que ungiu Sarney como inimputável, que se cuide.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Marcha da insensatez


J.R. GUZZO
Veja, edição de 4 de julho de 2012


O advogado paulista Márcio Thomaz Bastos encontra-se, aos 76 anos de idade, numa posição que qualquer profissional sonharia ocupar. Ao longo de 54 anos de carreira, tornou-se, talvez, o criminalista de maior prestígio em todo o Brasil, foi ministro da Justiça no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus honorários situam-se hoje entre os mais altos do mercado — está cobrando 15 milhões de reais, por exemplo, do empresário de jogos de azar Carlinhos Cachoeira, o mais notório de seus últimos clientes. Num país que tem mais de 800 000 advogados em atividade, chegou ao topo do topo entre seus pares. É tratado com grande respeito nos meios jurídicos, consultado regularmente pelos políticos mais graúdos de Brasília e procurado por todo tipo de milionário com contas a acertar perante o Código Penal. Bastos é provavelmente o advogado brasileiro com maior acesso aos meios de comunicação. Aparece em capas de revista. Publica artigos nos principais veículos do país. Aparece na televisão, fala no rádio e dá entrevistas. Trata-se, em suma, do retrato acabado do homem influente. É especialmente perturbador, por isso tudo, que diga em voz alta as coisas que vem dizendo ultimamente. A mais extraordinária delas é que a imprensa “tomou partido” contra os réus do mensalão, a ser julgado em breve no Supremo Tribunal Federal, publica um noticiário “opressivo” sobre eles e, com isso, desrespeita o seu direito de receber justiça.

Se fosse apenas mais uma na produção em série de boçalidades que os políticos a serviço do governo não param de despejar sobre o país, tudo bem; o PT e seus aliados são assim mesmo. Mas temos, nesse caso, um problema sério: Márcio Thomaz Bastos não é um boçal. Muito ao contrário, construiu uma reputação de pessoa razoável, serena e avessa a jogar combustível em fogueiras; é visto como um adversário de confrontos incertos e cético quanto a soluções tomadas na base do grito. É aí, justamente, que se pode perceber com clareza toda a malignidade daquilo que vem fazendo, ao emprestar um disfarce de seriedade e bom-senso a ações que se alimentam do pensamento totalitário e levam à perversão da justiça. Por trás do que ele pretende vender como um esforço generoso em favor do direito de defesa, o que realmente existe é o desejo oculto de agredir a liberdade de expressão e manter intacta a impunidade que há anos transformou numa piada o sistema judiciário do Brasil. Age, nesses sermões contra a imprensa e pró-mensalão, como um sósia de Lula ou de um brucutu qualquer do PT; mas é o doutor Márcio Thomaz Bastos quem está falando — e se quem está falando é um crânio como o doutor Márcio, homem de sabedoria jurídica comparável à do rei Salomão, muita gente boa se sente obrigada a ouvir com o máximo de respeito o que ele diz.

O advogado Bastos sustenta, em público, que gosta da liberdade de imprensa. Pode ser — mas do que ele certamente não gosta, em particular, é das suas consequências. Uma delas, que o incomoda muito neste momento, é que jornais e revistas, emissoras de rádio e de televisão falam demais, segundo ele, do mensalão, e dizem coisas pesadas a respeito de diversos réus do processo. Mas a lei não estabelece quanto espaço ou tempo os meios de comunicação podem dedicar a esse ou aquele assunto, nem os obriga a ser imparciais, justos ou equilibrados; diz, apenas, que devem ser livres. O que o criminalista número 1 do Brasil sugere que se faça? Não pode, é claro, propor um tabelamento de centímetros ou minutos a ser obedecido pelos veículos no seu noticiá­rio sobre casos em andamento nos tribunais — nem a formação de um conselho de justos que só autorizaria a publicação de material que considerasse neutro em relação aos réus. Os órgãos de imprensa podem, com certeza, ter efeito sobre as opiniões do público, mas também aqui não há como satisfazer as objeções levantadas pelo advogado Bastos. O público não julga nada; este é um trabalho exclusivo dos juízes, e os juízes dão as suas sentenças com base naquilo que leem nos autos, e não no que leem em jornais. Será que o ex-ministro da Justiça gostaria, para cercar a coisa pelos quatro lados, que a imprensa parasse de publicar qualquer comentário sobre o mensalão um ano antes do julgamento, por exemplo? Dois anos, talvez? Não é uma opção prática — mesmo porque jamais se soube quando o caso iria ser julgado.

MINISTRO REPROVADO - A verdade é que a pregação de Márcio Thomaz Bastos ignora os fatos, ofende a lógica e deseduca o público. De onde ele foi tirar a ideia de que os réus do mensalão estão tendo seus direitos negados por causa da imprensa? O julgamento vai se realizar sete anos após os fatos de que eles são acusados — achar que alguém possa estar sendo prejudicado depois de todo esse tempo para organizar sua defesa é simplesmente incompreensível. Os réus gastaram milhões de reais contratando as bancas de advocacia mais festejadas do Brasil. Dos onze ministros do STF que vão julgá-los, seis foram indicados por Lula, seu maior aliado, e outros dois pela presidente Dilma Rousseff. Um deles, José Antonio Toffoli, foi praticamente um funcionário do PT entre 1995 e 2009, quando ganhou sua cadeira na corte de Justiça mais alta do país, aos 41 anos de idade e sem ter nenhum mérito conhecido para tanto; foi reprovado duas vezes ao prestar concurso para juiz, e esteve metido, na condição de réu, em dois processos no Amapá, por recebimento ilícito de dinheiro público. Sua entrada no STF, é verdade, foi aprovada pela Comissão de Justiça do Senado; mas os senadores aprovariam do mesmo jeito se Lula tivesse indicado para o cargo um tamanduá-bandeira. O próprio ex-presidente, enfim, vem interferindo diretamente em favor dos réus — como acaba de acusar o ministro Gilmar Mendes, com quem teve uma conversa em particular muito próxima da pura e simples ilegalidade. Mas o advogado Bastos, apesar disso tudo, acha que os acusados não estão tendo direito a se defender de forma adequada.

Há uma face escura e angustiante na escola de pensamento liderada por Bastos, em sua tese não declarada, mas muito clara, segundo a qual a liberdade de expressão se opõe ao direito de defesa. Ela pode ser percebida na comparação que fez entre o mensalão e o julgamento do casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, condenados em 2010 por assassinarem a filha dele de 5 anos de idade, em 2008, atirando a menina pela janela do seu apartamento em São Paulo — crime de uma selvageria capaz de causar indignação até dentro das penitenciárias. Bastos adverte sobre o perigo, em seu modo de ver as coisas, de que os réus do mensalão possam ter o mesmo destino do casal Nardoni; tratou-se, segundo ele, de um caso típico de “julgamento que não houve”, pois os meios de comunicação “insuflaram de tal maneira” os ânimos que acabou havendo “um justiçamento” e seu julgamento se tornou “uma farsa”. De novo, aqui, não há uma verdadeira ideia; o que há é a negação dos fatos. Os Nardoni tiveram direito a todos os exames técnicos, laudos e perícias que quiseram. Foram atendidos em todos os seus pedidos para adiar ao máximo o julgamento. Contrataram para defendê-los um dos advogados mais caros e influentes de São Paulo, Roberto Podval — tão caro que pôde pagar as despesas de hospedagem, em hotel cinco-estrelas, de 200 amigos que convidou para o seu casamento na ilha de Capri, em 2011, e tão influente que um deles foi o ministro Toffoli. (Eis o homem aqui, outra vez.)

Ao sustentar que o casal Nardoni foi vítima de um “justiçamento”, Bastos ignora o trabalho do promotor Francisco Cembranelli, cuja peça de acusação é considerada, por consenso, um clássico em matéria de competência e rigor jurídico. Dá a entender que os sete membros do júri foram robôs incapazes de decidir por vontade própria. Mais que tudo, ao sustentar que os assassinos foram condenados pelo noticiário, omite a única causa real da sentença que receberam — o fato de terem matado com as próprias mãos uma criança de 5 anos. Enfim, como fecho de sua visão do mundo, Bastos louvou, num artigo para a Folha de S.Paulo, a máxima segundo a qual “o acusado é sempre um oprimido”. Tais propósitos são apenas um despropósito. Infelizmente, são também admirados e reproduzidos, cada vez mais, por juristas, astros do ambiente universitário, intelec­tuais, artistas, legisladores, lideranças políticas e por aí afora. Suas ações, somadas, colocaram o país numa marcha da insensatez — ao construírem ano após ano, tijolo por tijolo, o triunfo da impunidade na sociedade brasileira de hoje.

ABERRAÇÃO IRRELEVANTE - O Brasil é um dos poucos países em que homicidas confessos são deixados em liberdade. O jornalista Antonio Pimenta, por exemplo, matou a tiros sua ex-namorada Sandra Gomide, em 2000, e admitiu o crime desde o primeiro momento; só foi para a cadeia onze anos depois, num caso que a defesa conseguiu ir adiando, sem o apoio de um único fato ou motivo lógico, até chegar ao Supremo Tribunal Federal. Homicidas, quando condenados, podem ter o direito de cumprir apenas um sexto da pena. Se não forem presos em flagrante, podem responder em liberdade a seus processos. Autores dos crimes mais cruéis têm direito a cumprir suas penas em prisão aberta ou “liberdade assistida”. Se tiverem menos de 18 anos, criminosos perfeitamente conscientes do que fazem podem matar quantas vezes quiserem, sem receber punição alguma; qualquer sugestão de reduzir esse limite é prontamente denunciada como fascista ou retrógrada pelo pensamento jurídico que se tornou predominante no país. O resultado final dessa convicção de que só poderá haver justiça se houver cada vez mais barreiras entre os criminosos e a cadeia está à vista de todos. O Brasil registra 50 000 homicídios por ano — e menos de 10% chegam a ser julgados um dia.

Nosso ex-ministro da Justiça, porém, acha irrelevante essa aberração. O problema, para ele, não está na impunidade dos criminosos, e sim na imprensa — que fica falando muito do assunto e acaba criando um “clamor popular” contra os réus. Esse clamor popular, naturalmente, tem dois rostos. É bom quando vai a favor das posições defendidas por Bastos e por quem pensa como ele; é chamado, nesse caso, de “opinião pública”. É ruim quando vai contra; é chamado, então, de “linchamento moral”. A impunidade para crimes descritos como “comuns”, e que vão superando fronteiras cada vez mais avançadas em termos de perversidade, é, enfim, só uma parte dessa tragédia. A outra é a impunidade de quem manda no país. Não poderia haver uma ilustração mais chocante dessa realidade do que a cena, há duas semanas, em que a maior liderança política do Brasil, o ex-presidente Lula, se submete a um beija-mão em público perante seu novo herói, o deputado Paulo Maluf — um homem que só pode viver fora da cadeia no Brasil, pois no resto do planeta está sujeito a um mandado internacional de prisão a ser cumprido pela Interpol. É, em suma, o desvario civilizado — tanto mais perigoso por ser camuflado com palavras suaves, apelos por uma “justiça moderna” e desculpas de que a “causa popular” vale mais que a moral comum. Um dos maiores criminalistas que já passaram pelo foro de São Paulo, hoje falecido, costumava dizer que o direito penal oferece apenas duas opções a um advogado. Na primeira, ele se obriga a só aceitar a defesa de um cliente se estiver honestamente convencido de sua inocência. Na segunda, torna-se coautor de crimes. O resto, resumia ele, é apenas filosofia hipócrita para justificar o recebimento de honorários. Há um abismo entre a postura desse velho advogado e a do doutor Márcio. Fica o leitor convidado, aqui, a ecolher qual das duas lhe parece mais correta.

domingo, 1 de julho de 2012

Onipresença carismática de Lula decorre do desrespeito geral às instituições

Uma sociedade sólida, política e institucionalmente, não permite líderes anti-institucionais, como Lula. Quanto menos institucional uma nação, mais presentes os homens que decidem à revelia das leis. Uma sociedade se torna madura quando prescinde de salvadores da pátria


JORNAL OPÇÃO.com
Editorial da edição de 1 a 7 de julho de 2012


GOIÂNIA, 1 de julho de 2012 - Comparar o desenvolvimento econômico de povos e nações é mais fácil do que comparar o desenvolvimento político e psicológico de seus indivíduos-cidadãos. Viana Moog, entre outros, tentou entender por que os Estados Unidos se tornaram uma potência antes do Brasil (que tende a se tornar, em alguns anos, a quarta potência mundial — já é a sexta), dando destaque à questão de que os colonos estadunidenses tinham escassa possibilidade de voltar à Inglaterra, e os portugueses se dedicaram à colonização exploratória — planejavam enriquecer e voltar para a Europa. Há várias outras teses, mas não temos espaço suficiente num Editorial para discuti-las. Concentremo-nos, pois, em alguns aspectos.
Acredita-se, em geral, que a vitalidade liberal da sociedade americana decorre da influência da Revolução Francesa de 1789. Não é bem assim. A Independência americana se deu em 1776, antes da revolução dos jacobinos. De fato, as ideias iluministas francesas — egalité, fraternité e liberté — eram caras aos americanos. Tanto que a “segunda” pátria daqueles que propugnaram pela Independência dos Estados Unidos não era a Inglaterra, e sim a França. Mas, como perceberam, com rara felicidade, o jurista francês Alexis de Tocqueville — que visitou os EUA para entender seu sistema judicial e penitenciário e acabou apreendendo além disso — e a filósofa alemã Hannah Arendt, as belas ideias dos iluministas levaram a uma ditadura na França (a Revolução Francesa foi uma ditadura, digamo-lo explicitamente), porque os jacobinos não acreditavam nas instituições e sim em líderes carismáticos e voluntariosos, como Robespierre e Danton, que não tinham ampla experiência com processos democrático-institucionais. Os dois queriam mudar a França à força, num curto espaço de tempo, e acabaram perdendo a cabeça — literalmente. Fazer a revolução às vezes é mais fácil do que institucionalizar a democracia. O dramaturgo Georg Büchner escreveu, com propriedade, que a revolução é como Saturno — devora seus próprios filhos. Mas a Revolução Americana não devorou nenhum de seus filhos — Abraham Lincoln foi assassinado bem mais tarde, em 1865, por um homem que representava o atraso e que não entendia que o presidente, ao libertar os escravos e unir as economias do Sul e do Norte, articulava a expansão capitalista do país. George Washington (67 anos) e Thomas Jefferson (83 anos) morreram velhos, respeitados. Por que, ao contrário do que ocorreu na Revolução Francesa, na Revolução Americana — que Hannah Arendt respeitava — não houve uma guerra fratricida? Porque os políticos estadunidenses preocuparam-se, desde o início, com o fortalecimento das instituições, com leis precisas — a Constituição cabe numa página de jornal —, nas quais o respeito à liberdade individual é fundamento seminal. Lei, ficou estabelecido desde o início, é para ser cumprida. O respeito ao indivíduo, às suas liberdades, corresponde à obediência ao interesse coletivo. Sem destruir a energia individual — o que possibilitou o surgimento de Thomas Alva Edison, Bill Gates e Steve Jobs —, a sociedade americana criou, de fato e de direito, a ideia do cidadão. O cidadão é o indivíduo institucionalizado.
Se os americanos criaram um Estado em 1776, com uma noção de democracia e cidadania bem definida, o que perdura até hoje, apesar de suas guerras internas e externas, o Brasil começa a ter um simulacro de Estado a partir de 1808, com a chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, fugindo do poderoso Napoleão Bonaparte. Mas o país só conquista a Independência em 1822, quer dizer, quase meio século depois da Independência dos EUA. Portanto, quando os assuntos brasileiros começaram a ser discutidos internamente (pelo menos com mais energia), com a consolidação do Estado e uma economia local, os americanos estavam estruturados como país, com uma democracia sólida. Entretanto, 236 anos depois da Independência, os Estados Unidos não resolveram todos os seus problemas. Porque, como demonstrou o filósofo anglo-letão Isaiah Berlin, no seu exame crítico das ideias iluministas, nem todos os problemas têm solução precisa e rápida. Sim, 236 anos parecem muito, para quem está vivendo no seu próprio tempo é muitíssimo, mas, no cômputo histórico, é quase uma gota d’água no oceano. Veja-se o caso da miséria. O último Censo registra que há 46 milhões de americanos pobres (mais do que toda a população do Estado de São Paulo) — o equivalente a 15% da população do país. Mas os políticos americanos entenderam, mais do que os políticos brasileiros, que não se resolvem os problemas graves de uma nação com canetadas e voluntarismo. Mesmo as figuras carismáticas, como Franklin D. Roosevelt, têm de se submeter às leis. Durante a Segunda Guerra Mundial, Roosevelt queria apoiar os democratas europeus desde o início, mas esbarrou na sociedade e no Congresso Nacional. A ajuda era justa, política e humanamente, mas a democracia desmorona quando não se acata o império da lei, da Justiça. A seguir, vamos nos deter no caso brasileiro.
INFANTILISMO E AMADURECIMENTO - O Império brasileiro durou 67 anos, de 1822 a 1889, com revoltas, mas com estabilidade democrática — se se aceitar que uma sociedade escravocrata pode ser democrática. Em 1889, um golpe militar, com o povo pelo menos meio bestificado, derrubou o Império, devolvendo a família real à Europa. Os militares, não muito preparados para o exercício do poder democrático, tanto que Floriano Peixoto era chamado de “Marechal de Ferro”, dada sua faceta autoritária, saíram de fininho e passaram o bastão à oligarquia paulista. A República Velha é execrada, devido à corrupção e, sobretudo, às fraudes eleitorais, mas, apesar das revoltas militares — golpistas, e não democráticas, embora batalhando contra o que qualificavam de “arcaísmo” da política e da economia brasileiras —, foi um período de relativa paz política. Em 1930, com a corrosão da política do “Café com Leite”, rodízio entre São Paulo e Minas Gerais pelo controle do poder federal, houve uma ruptura.
São Paulo deveria ter permitido que Minas lançasse candidato a presidente da República em 1930, mas o presidente Washington Luís, avaliando a pujança da economia do Estado, decidiu bancar Júlio Prestes. Minas revoltou-se e avalizou a campanha do gaúcho Getúlio Vargas. Este perdeu a eleição, mas Minas, com o apoio do Rio Grande do Sul, derrubou Washington Luís e pôs Vargas no poder. O motivo alegado para o golpe político foi a fraude eleitoral, quando, como se sabe, as fraudes ocorreram dos dois lados.
Tornou-se consenso que o golpe de 1930 foi uma revolução, uma ruptura. A rigor, foi mais um golpe político do que uma revolução, porque não houve uma ruptura estrutural. Em 1932, com sua Revolução Constitucionalista, São Paulo tentou uma ruptura, mas foi vencido pelo governo federal. A rigor, devido à sua economia poderosa, São Paulo continuou no leme do país, puxando o governo federal para decisões que beneficiavam mais seus empresários do que o país. Dependente do café e, depois, da indústria paulista, cerne da economia, Vargas não tinha mesmo como ignorar a locomotiva São Paulo. Por isso, num determinado momento, teve de comprar a superprodução de café para não quebrar a economia paulista, quer dizer, a economia nacional. A política de substituição de importações, entronizada por Vargas para fortalecer o mercado interno, e não apenas em decorrência da Segunda Guerra Mundial, beneficiou mais São Paulo do que o restante do país, incipientemente industrializado.
O governo Vargas estabeleceu uma legislação trabalhista que, embora desagradando parte dos capitalistas, que chegou a apontá-lo como “comunista”, contribuiu para modernizar as relações entre patronato e trabalhadores. Não era uma revolução, e sim uma modernização retardatária. O capitalismo tardio patropi finalmente adequava-se às regras mundiais. Embora seja visto como meio provinciano, Vargas deve ser considerado como um dos primeiros políticos tupiniquins a pensar o Brasil em termos de globalização, de adaptação do capitalismo local às regras internacionais. O legado econômico dos governos Vargas obscureceu um dos problemas mais graves gerados por sua ascensão ao poder em 1930.
O golpe de 1930 abriu espaço para a participação militar no processo político, de modo não institucional, e sedimentou a tese de que se pode “tomar” o poder, derrubando aquele que foi constitucionalmente eleito, e de que não é preciso esperar eleições para tentar derrotar o adversário nas urnas. Portanto, a instabilidade institucional, a mesma que produziu o golpe de 1964, pode ser “filha” de 1930. No Brasil, no lugar de se trabalhar para melhorar e fortalecer as instituições, pensa-se logo em retirar do poder, por meio de golpe, aquele que foi eleito. Mas um caso pelo menos revela a maturidade brasileira: o impeachment do presidente Fernando Collor, ao contrário do que sugere o competente jornalista Luís Nassif, seguiu o rito democrático e a Constituição não foi desrespeitada. A opinião de Nassif revela mais uma tentativa de interferir no quadro político atual, na circunstância, e menos um interpretação objetiva a partir de uma perspectiva jurídico-histórica.
Ao vencer a resistência de São Paulo, em 1932, e, depois, com uma política econômica que subordinava o país aos ditames paulistas, Vargas, com sua formação positivista, avaliou que as instituições, como o Legislativo, o Judiciário e a Imprensa, estavam atrapalhando a adoção de medidas estruturais (todo ditador acredita que com uma canetada pode consertar os inconsertáveis homens e o mundo). Para eliminar a oposição aos seus projetos, que, em tese, modernizariam o país, tornando-o uma espécie de Alemanha dos trópicos, Vargas articulou o golpe do Estado Novo, em 1937. Ao abolir a democracia, de 1937 a 1945, Vargas se tornou o “pai” do país, não apenas dos pobres. O presidente passou a se considerar uma espécie de tutor da sociedade, um político acima das instituições, que, esvaziadas, passaram a organizar a sociedade não em benefício dos indivíduos, pensando-os como cidadãos, e sim de quem estava no poder, discricionariamente. Depois de 15 anos no poder, Vargas havia criado um governo forte, com tudo sob controle, inclusive a imprensa, mas uma sociedade frágil, não inteiramente capaz de defender as instituições, que, na democracia, são o escudo protetor da sociedade civil.
Como não havia contribuído para reforçar a sociedade, uma sociedade que acreditasse nas instituições — não se podia mesmo acreditar nelas, pois estavam subordinadas ao poder —, Vargas, quando precisou de alguém para defendê-lo, para impedir sua queda, não contou com nenhum apoio substancial. Até os militares, que o apoiaram durante 15 anos, sem contestá-lo, mudaram de lado e, de repente, se tornaram “democratas”, derrubando-o. O golpista de 1930 e 1937 era, em 1945, apeado do poder por meio de um terceiro golpe. Convocadas eleições, foi eleito não um civil, mas um varguista, o general Eurico Dutra. Seu governo foi relativamente democrático, mas manchado por ter posto os comunistas na ilegalidade. Na eleição seguinte, Vargas voltou ao poder, agora por intermédio de eleições.
Contestadíssimo, porque continuava sendo visto como o Vargas do Estado Novo, acabou tendo de se matar para evitar o golpe que se avizinhava. As instituições já estavam praticamente de “joelhos”, à espera do novo golpe, comandado por Carlos Lacerda — vivandeira-mor, ao lado do mineiro Magalhães Pinto — e militares. Ressalte-se que o suicídio de Vargas, e não as instituições, impediu o golpe. A população ficou irada e pôs Lacerda e séquito para correr.
O governo de Juscelino Kubitschek, apesar da inflação e do endividamento externo — hoje aceita-se mais que desenvolvimento é mesmo caro e a fundo perdido —, foi relativamente tranquilo. Claro que militares e civis tentaram derrubá-lo, mas, como não era de esquerda e tinha uma rara habilidade para administrar conflitos combinando ações pessoais e institucionais, acabou governando o mandato inteiro. João Goulart possivelmente teria caído, se tivesse sucedido Vargas. Jânio Quadros sucedeu JK e, de algum modo, acreditou que poderia repetir Vargas. Renunciou, em agosto de 1961, acreditando que voltaria nos braços do povo e, sobretudo, dos militares, que, em tese, não aceitariam a posse do vice, João Goulart, o Jango. Deu tudo errado e o Congresso Nacional aceitou sua renúncia e os militares não conseguiram impedir a posse de Jango.
Antes do golpe fatídico de 1964, o que arrancou Jango do poder, ocorreram três pequenos golpes, pouco examinados como tais. O primeiro foi a tentativa de impedir sua posse. O segundo foi sua posse forçada, com apoio do governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, e de militares amotinados. O terceiro foi a adoção do parlamentarismo à força, ainda que se deva ver isto como uma saída institucional possível, com vistas a garantir certa legalidade ao processo político. A volta do presidencialismo, decidida em plebiscito, mudou mais uma vez e rapidamente as regras do jogo — o que pode ter acelerado o golpe civil-militar de 64.
O Brasil teria eleições em 1965, quando Juscelino Kubitschek, do PSD, e Carlos Lacerda, da UDN, deveriam se enfrentar. As pesquisas mostravam ligeira vantagem de Juscelino e, por isso, possivelmente os militares decidiram antecipar a queda de Jango — e muitos militares de proa acreditavam que o presidente planejava mudar as regras do jogo e disputar a reeleição — e instalaram-se no poder.
O grupo do general Castello Branco, primeiro presidente militar, acreditava que a intervenção seria cirúrgica e, depois, “devolveriam” o poder aos civis. O mineiro Bilac Pinto — e não Carlos Lacerda — chegou a ser cotado, talvez até preparado, para substituir Castello Branco. Mas os militares em geral — excetuando, quem sabe, a Sorbonne militar, ou seja, Castello Branco, Ernesto Geisel, Golbery do Couto e Silva — queriam continuar no poder, desfrutando de suas regalias e com o objetivo declarado de “purgar” o país da corrupção, “coisa de civis”, e do comunismo. Nos governos militares, mesmo sob os aberturistas Ernesto Geisel e João Figueiredo, as instituições se tornaram reféns daqueles que estavam no poder. A sociedade, mais uma vez, esteve à mercê de políticos fortes, agora militares imbuídos de uma missão política, e as instituições deixaram de “perceber” as pessoas como cidadãs, e sim como indivíduos à deriva, subordinados a uma política de Estado autoritária e infensa às liberdades. As ditaduras contribuem para, de algum modo, infantilizar a sociedade. Espera-se tudo do poder, de quem está na Presidência da República, e pouco das instituições. Fala-se quase nada sobre o assunto, mas as instituições brasileiras estão livres do controle do poder federal, com seus representantes podendo decidir com base na lei e não a partir da opinião do ditador, há apenas 27 anos, se considerarmos 1985 como data inicial da “liberação” do país.
Depois de governos caóticos, como os de José Sarney e de Fernando Collor, e de um governo anódino, como o de Fernando Henrique Cardoso — que, embora democrata, não tem o porte de estatista de um Juscelino Kubitschek, pois faltou-lhe energia pessoal e vontade de decidir, talvez, quem sabe, por respeito às instituições —, o país parece ter visto em Lula uma espécie de Vargas e até mesmo um Emilio Garrastazú Médici.
Insistamos: por que, mesmo depois do fim da ditadura civil-militar, a sociedade brasileira prestigia um político como Lula da Silva, avesso às instituições? Talvez porque, num período de 82 anos, entre 1930 e 2012, o Brasil tenha sofrido pelo menos quatro grandes golpes de Estado, com as instituições submetidas e subordinadas ao poderoso do momento. No mesmo período, o país só teve 10 eleições presidenciais diretas — quatro depois do Estado Novo, entre 1946 e 1960, e seis depois do término da ditadura, entre 1989 e 2010.
O ex-presidente Lula sempre diz que o político que o inspira é Getúlio Vargas, o gaúcho que governou o Brasil por 15 anos ininterruptos. Do ponto de vista estritamente econômico, e mesmo da construção e fortalecimento do Estado, é um exemplo no mínimo razoável. Todavia, um democrata raramente tem um ditador como modelo. Mas Vargas, Jânio Quadros e Lula têm algo em comum. Como os outros dois, Lula avalia que não é imprescindível seguir os ritos das instituições. Ele avalia que é possível pressionar um magistrado do Supremo Tribunal Federal — algo inimaginável na Alemanha e nos Estados Unidos — e ainda rir da história. Noutro país, com as instituições e a sociedade civil inteiramente consolidadas, seria um escândalo maior do que foi o encontro traumático de Lula com o ministro do STF Gilmar Mendes. Mas, insistamos, por que Lula fez isto, por que pressiona as instituições, como está pressionando o Congresso Nacional para fazer uma CPI cangaceira? Porque avalia-se acima das instituições e da Constituição. É como se pensasse — no que repete os governantes militares — que a sociedade não está madura o suficiente para cuidar de si e, por isso, apresenta-se como tutor. Isto pode parecer simples e mais uma crítica ao líder do PT e, sobretudo, ao lulopetismo. Mas não é simples assim e o próprio Lula não percebe que seria maior se respeitasse as instituições, se seguisse os trâmites legais.
Hoje, o Brasil precisa de reformas — política e tributária —, no entanto, o Congresso Nacional está envolvido com uma CPI que não contempla os graves problemas nacionais, como a crise ampla no setor de saúde, a violência nas ruas (até policiais estão sendo assassinados), o consumo descontrolado de drogas, os arrastões em São Paulo, a não inclusão social de fato (a mera assistência cria um eleitorado de curral, repetindo os tempos dos coronéis). A CPI do Cachoeira esconde o mensalão e, também, as mazelas do país. Principalmente, seu espetáculo burlesco, com um relator que parece boneco de ventríloquo, não contribui para o amadurecimento e refinamento da sociedade brasileira. De que adianta comemorar o fato de ser a sexta maior economia do mundo, mas com alto índice de analfabetismo e baixo investimento em conhecimento e tecnologia? A obsessão pelo PIB esconde um Brasil sombrio, brutal. Se fosse brasileiro, Milan Kundera certamente escreveria o romance “A Insustentável Leveza do Nada”.
Uma sociedade sólida, política e institucionalmente, não permite mais líderes anti-institucionais, como Fernando Collor e Lula. Quando menos institucional um nação mais presentes os mitos, os homens que decidem tudo à revelia da sociedade e das leis. Uma sociedade se torna madura quando prescinde de salvadores da pátria. Neste sentido, a presidente Dilma Rousseff, que tem a moderação de Juscelino Kubitschek, é uma política mais afeita às instituições, embora não se saiba qual é exatamente o acordo que tem com Lula. Compare-se a relação da presidente com a imprensa, até aqui de profundo respeito, e veja-se que Lula não tolera a liberdade da mídia — daí ter trabalhado para controlá-la, felizmente sendo malsucedido na empreitada.

sábado, 30 de junho de 2012

A nova Guerra do Paraguai



RUY FABIANO


A nova Guerra do Paraguai amplia de tríplice para quádrupla a aliança contra o país vizinho, adicionando-lhe a presença e o comando venezuelanos.

Brasil, Uruguai e Argentina, que, ao tempo do Império, impuseram impiedosa derrota militar aos paraguaios, voltam a se reunir, sob a liderança da Venezuela, para se impor àquele país.
Naquela época, alegava-se que o Paraguai, em sua campanha militar expansionista, invadia territórios, ameaçando a soberania dos vizinhos. E agora, quais as alegações?
O Paraguai está sendo ameaçado por atos de política interna, que praticou à luz de sua Constituição, votada pelos representantes do povo. Uma democracia que segue sua Constituição não pode, de modo algum, ser acusada de autoritária.
Goste-se ou não, foi dentro das regras que ela estabelece que Fernando Lugo foi eleito e governou o país.
O Brasil, embora maior potência regional – e a que mais negócios diretos tem com o Paraguai -, segue o comando ideológico da diplomacia chavista, cuja palavra de ordem, felizmente não chancelada pelo Mercosul, é a de sufocar economicamente o vizinho, de modo a que se restabeleça o status quo político, devolvendo Lugo à Presidência da República.
Numa analogia pertinente, imagine-se o constrangimento político, diplomático e moral se algo remotamente parecido sucedesse ao Brasil; se, por exemplo, os países vizinhos nos acenassem com sanções econômicas em retaliação ao impeachment de Fernando Collor, alegando seja lá o que fosse.
Collor, por exemplo, foi cassado pelo Senado e, na sequência, absolvido pelo Supremo Tribunal Federal, por falta de provas. Parece contraditório? Ora, a Constituição do Brasil não vincula o julgamento político do Congresso ao do Judiciário.
Se o fizesse – e assim seria se a Constituição o determinasse -, Collor teria que ser reintegrado às suas funções, com um pedido público de desculpas. No mínimo.
Não apenas não foi, como teve que cumprir a abstenção de oito anos de seus direitos políticos. Ninguém, nem o próprio, cogitou de protestar. Lei é lei. E o país viu-se cumulado de parabéns por parte das forças políticas hoje no poder.
Transponha-se, porém, o mesmo quadro que enfrentou Collor a um contexto mais recente: o do Mensalão. Lula correu o risco de enfrentar um impeachment, que não se consumou pelo receio da oposição de que provocasse uma turbulência social.
Não se consumou também porque a oposição, num formidável erro de avaliação, julgou desnecessário. O então senador Antônio Carlos Magalhães dizia que Lula sangraria em público e até um poste o venceria na eleição presidencial.
Sob esse argumento convenceu a Ordem dos Advogados do Brasil a não ingressar com o pedido de impeachment na Câmara dos Deputados. Mas suponhamos que ingressasse e, tal como ocorreu a Collor, o impedimento se consumasse.
A partir do que está ocorrendo neste momento com o Paraguai, alvo da ação de uma diplomacia ideológica de esquerda, seguramente o Brasil seria cercado pelas mais infames acusações.
Basta ver a turbulência que cerca o julgamento do Mensalão, que as mesmas forças que investem contra o Paraguai consideram uma farsa e uma tentativa de golpe.
O mesmo Lula, que chegou a pedir desculpas em público pelo Mensalão, dizendo que fora traído e que o PT errara, passou a negá-lo como uma manobra golpista, o que, se verdadeiro, incluiria não apenas a Procuradoria da República, que fez a denúncia, mas também o STF, que a aceitou, entre os golpistas.
A simples enunciação de tal absurdo, em circunstâncias normais, justificaria um processo à parte contra Lula.
O episódio paraguaio é emblemático. Mostra os danos de uma diplomacia desonesta, movida não pelo senso de justiça e do princípio de não intervenção, mas da defesa de um ideário que faz da democracia mero rito de passagem.
A mesma, em suma, que finge não haver favorecimento às Farc, uma quadrilha de narcotraficantes e sequestradores, que mantém relações intoleráveis com as forças políticas hegemônicas. Trata o constitucionalismo paraguaio como delinquente e os bandidos das Farc como agentes políticos legítimos.

Saiba quem são os 37 denunciados por envolvimento com o Mensalão do DEM em Brasília


BRASÍLIA, 30 de junho de 2012 - "O Ministério Público Federal, pelo procurador geral da República e pela Subprocuradora Geral da República signatária, vem respeitosamente perante Vossa Excelência e esta Corte Especial (Superior Tribunal de Justiça), com base no artigo 129-I da Constituição, oferecer esta denúncia, para promover ação penal pública, contra.”
JOSÉ ROBERTO ARRUDA - Engenheiro eletricista, nascido em 05.01.1954, natural de Itajubá (MG).
PAULO OCTÁVIO ALVES PEREIRA - Empresário, nascido em 13.02.1950, natural de Lavras (MG). Assim como o notório Luiz Estêvão, é um dos empresários mais ricos de Brasília.
DURVAL BARBOSA RODRIGUES - Delegado de Polícia Civil aposentado, nascido em 25/10/1951 na cidade de Canto do Buriti/PI. Começou operando para Joaquim Roriz.
DOMINGOS LAMOGLIA DE SALES DIAS - Conselheiro do Tribunal de Contas do Distrito Federal e Territórios, nascido em 14/05/1948 em Delfim Moreira/MG.
JOSÉ GERALDO MACIEL
FÁBIO SIMÃO - Empresário, nascido em 30/01/1967, natural de Ipameri-GO.
RICARDO PINHEIRO PENNA - Nascido em 10/01/1950.
JOSÉ LUIZ DA SILVA VALENTE - Servidor público, nascido em 10/10/1958, natural de Pelotas/RS.
ROBERTO EDUARDO VENTURA GIFFONI - Procurador federal.
OMÉZIO RIBEIRO PONTES - Jornalista, natural de Brasília-DF.
ADAILTON BARRETO RODRIGUES - Natural de Itagimirim/BA.
GIBRAIL NABIH GEBRIM - Servidor público, natural de Goiânia/GO.
RODRIGO DINIZ ARANTES
MASAYA KONDO - Nascido em 02/01/1946, natural de Uberaba/MG.
LUIZ CLÁUDIO FREIRE DE SOUZA FRANÇA - Jornalista e advogado, nascido em 03/01/1963, natural do Rio de Janeiro/RJ.
LUIZ PAULO COSTA SAMPAIO
MARCELO TOLEDO WATSON - Nascido na cidade do Rio de Janeiro em 20/06/1969.
MARCELO CARVALHO DE OLIVEIRA - Nascido em 22/09/1961, natural de Uberaba/MG.
NERCI SOARES BUSSANRA - Nascida em 06/09/1963, natural de Votorantim/SP
JOSÉ CELSO GONTIJO - Empresário, nascido em 30/05/1944, natural de Bom Despacho/MG.
ALEXANDRE TAVARES DE ASSIS - Nascido em 18/09/1969, natural de Governador Valadares/MG.
ANTÔNIO RICARDO SECHIS - Engenheiro eletricista, nascido em 06/04/1959, natural de Nhandeara/SP.
ALESSANDRO QUEIROZ - Administrador de empresa, nascido em 27/01/1971, natural de Goiânia/GO.
FRANCISCO TONY BRIXI DE SOUZA - Empresário, nascido em 23/03/1960, natural de São Paulo/SP.
GILBERTO BATISTA DE LUCENA - Economista, empresário, nascido em 17/05/1950, natural de Campina Grande/PB.
MARIA CRISTINA BONER LEO - Empresária, nascida em 08/12/1960.
EURIDES BRITO DA SILVA – Foi flagrada recheando sua bolsa com maços de dinheiro público e reclamando que era pouco.
LEONARDO MOREIRA PRUDENTE - Geólogo, nascido em 16/08/1960, natural de Goiânia/GO.
RUBENS CÉSAR BRUNELLI JÚNIOR – Administrador e advogado, nascido em 20/02/1970, natural de São Paulo/SP. Pastor, pedia a proteção de Jesus Cristo ao dinheiro roubado.
RONEY TANIOS NEMER - Natural de Viçosa/MG, nascido em 08/02/1963.
BENEDITO AUGUSTO DOMINGOS - Nascido em 26/06/1934, natural do estado de Minas Gerais. Pastor, seu patrimônio cresceu vertiginosamente desde que se tornou político profissional.
AYLTON GOMES MARTINS - Nascido em 28/07/1969.
ODILON AIRES CAVALCANTE - Economista e analista de Finanças e Controle do Ministério da Fazenda, ex deputado distrital, nascido em Ponte Alta do Bom Jesus-TO. Odilon Aires é especialista em analisar e controlar finanças.
ROGÉRIO ULYSSES TELES DE MELLO - Natural de Brasília, nascido em 16/12/1974.
PEDRO MARCOS DIAS (PEDRO DO OVO) - Nascido em 09/07/1965. Pedro pode até ser conhecido como do ovo, mas não é de galinha e sim de esturjão.
BERINALDO PONTES (BERINALDO DA PONTE) - Natural de Planaltina/DF.
BENÍCIO TAVARES DA CUNHA MELO - Nascido em 01/04/1956. Perigoso.

Marconi Perillo se compromete cada vez mais com o clube de Lula, Zé Sarney, Collor, Jader Barbalho e Paulo Maluf, os grandes patrimonialistas brasileiros


BRASÍLIA, 30 de junho de 2012 - Segundo investigações da Polícia Federal, o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), vendeu, em 2011, uma casa ao mafioso Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e dobrou seu patrimônio com a compra de imóveis e cotas de participação numa empresa – diz, na edição de ontem, o jornal O Estado de São Paulo. “Suspeito de negociar a mansão no Condomínio Alphaville diretamente com o contraventor e por valor maior que o declarado, o tucano omitiu as transações realizadas em 2011 em depoimento à CPI do Cachoeira. Ano após ano, ele justifica a entrada de capital em suas contas graças a débitos contraídos com um de seus secretários” – diz o Estadão.
Segundo o jornal paulistano, os dados constam das declarações de Imposto de Renda de Perillo, remetidas à comissão, às quais o Estadão teve acesso. “Segundo os documentos, o governador tinha em 31 de dezembro de 2010 R$ 1.548.227 em bens e direitos, valor que salta para R$ 3.182.549 em 31 de dezembro de 2011, após a venda da casa, no Condomínio Alphaville.”
A Receita enviou à CPI nota técnica ponderando que não há indícios de variação "patrimonial a descoberto", o que será aprofundado nas apurações solicitadas pelo Ministério Público Federal (MPF) e pela comissão parlamentar de inquérito. “As dívidas e ônus declarados somam R$ 2,2 milhões, sendo R$ 1,7 milhão de duas empresas em nome do secretário de Estado de Planejamento, Giuseppe Cecci. Uma delas, a Galula Empreendimentos e Participações, forneceu R$ 700 mil ao tucano em 2007, valor que vem sendo repetido pelo governador nas declarações ao Fisco.”
Há indícios de que o Giuseppe Cecci cuida também dos negócios de Perillo, além do planejamento do Estado. Os goianos estão bem arrumados; acabaram de sair dos quatro anos do ex governador Alcides Rodrigues (PP), que quase afunda o Estado.
Também a Diluca Hotelaria e Turismo emprestou mais R$ 570 mil a Perillo em 2008, cifra inalterada no seu IR de 2011. Não consta, no período, abatimento nos débitos.
Segundo ainda o Estadão, concluída a operação de venda investigada pela Polícia Federal, Marconi Perillo obteve R$ 800 mil em ações da empresa SCP Boa Esperança e comprou um apartamento por R$ 1,16 milhão para sua filha, Isabella Jaime Perillo, no bairro Cerqueira César, em área nobre da zona sul de São Paulo, próxima aos Jardins e à Avenida Paulista.
Marconi Perillo usou um recurso comum para ocultar seus negócios: registrou o imóvel num cartório de Trindade, nos arredores de Goiânia, em vez de fazê-lo em Goiânia, onde mora, ou na cidade em que ocorreu a compra.
A declaração registra ainda a compra de terras em Três Ranchos (GO) por R$ 14 mil, investimento de R$ 101 mil na construção de uma casa em Palmeira de Goiás e outro de R$ 32,8 mil em melhorias na Fazenda Mateus Machado.
“Em 2011, Perillo aumentou suas dívidas em R$ 839,7 mil. O grosso desse valor (R$ 580 mil) refere-se à pendência com o proprietário do apartamento vendido ao governador na capital paulista, André Luiz de Oliveira. Nesta sexta-feira, 29, o Estado não conseguiu contatá-lo” – diz O Estado de São Paulo.
Estadão: “As escutas da Operação Monte Carlo indicam que Marconi Perillo recebeu, em vez de R$ 1,4 milhão, como foi declarado à Receita, R$ 2,2 milhões pela venda da casa a Cachoeira. Além dos cheques emitidos por uma cunhada de Cachoeira, ele teria recebido R$ 500 mil em bois. Perillo nega. Em 2011, o governador declarou um rebanho de 1.488 cabeças. Segundo a Receita, ele vendeu 377.
“Os dados da Receita mostram que o patrimônio do governador praticamente quintuplicou desde 2001, saltando de R$ 684 mil para os atuais R$ 3,1 milhões. Em 2011, ele recebeu R$ 240,5 mil de remuneração do governo de Goiás, o equivalente a R$ 20 mil mensais. Além disso, constam R$ 284 mil da atividade rural, R$ 158 mil de doação da mulher, Valéria Perillo, e R$ 552 mil de lucro pela suposta venda da casa a Cachoeira”.
Em nota, Perillo afirmou que sua evolução patrimonial é compatível com seus rendimentos e negou que tenha omitido informações à CPI. "Ele afirmou que seu patrimônio está declarado à Receita Federal" - diz a nota do governador de Goiás. Sobre os empréstimos obtidos junto ao seu secretário de Planejamento, o texto afirma que essas operações têm "caráter pessoal".
“Embora tenha adquirido vários bens no último ano, Perillo disse que não quitou os débitos porque não tinha como pagá-los” – diz o Estadão. "É um assunto pessoal, que não diz respeito a suas atividades como governador" - alega o tucano, por meio da assessoria de imprensa do governo de Goiás. Perillo também se negou a informar as atividades da empresa SCP Boa Esperança e quem são seus sócios alegando questões pessoais.”
É o velho patrimonialismo brasileiro, do qual o maior inimigo de Perillo, e responsável pelo seu desmascaramento, Lula, é useiro e vezeiro, como seus sócios políticos, o senador vitalício maranhense Zé Sarney, o valentão Fernando Affonso Collor de Mello (Veja que o diga), o morubixaba paraense Jader Barbalho, e agora um dos mafiosos mais procurados pela Interpol, Paulo Salim Maluf.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

1822, a desmitificação do Brasil


RAY CUNHA


BRASÍLIA, 29 de junho de 2012 – Só vim a compreender a história do Brasil agora, aos 57 anos de idade. Fiz o antigo curso primário no Barão do Rio Branco e o ginasial no Colégio Amapaense, duas das melhores escolas públicas de Macapá, minha cidade natal, quando o Amapá era território federal, durante a Ditadura dos Generais (1964-1985), e seus governantes eram oficiais graduados das Forças Armadas. Os professores que eu conheci, em Macapá, simpatizavam com a botina. A história do Brasil era lecionada burocraticamente. Também os historiadores, até os anos 1990, atinham-se à história oficial, ao ponto de vista dos portugueses, sem analise, muito menos investigação. A frase “Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil em 22 de abril de 1500” é de uma falta de senso crítico impressionante. Os ibéricos já conheciam o Brasil antes de Cabral.
Nos anos 1990, logo depois da Ditadura dos Generais – que esfacelou a educação pública brasileira, esfacelamento levado ao paroxismo em 10 anos de aparelhamento do Estado pelo PTMDB, ao ponto de o Ministério da Educação publicar livro afirmando que a grafia “Nós vai pescar” é correta -, uma nova leva de historiadores e de editores começou a chegar às livrarias, desmitificando a história do Brasil, por meio da publicação e análise de documentos que procuram, com honestidade, se aproximar da verdade, essa dama fluida, pantanosa, ilusória. Neste século, Laurentino Gomes veio coroar esses historiadores com 1808 e 1822, livros que já venderam mais de 1 milhão de exemplares, não somente no Brasil, mas também em Portugal, o que é sintomático.
Laurentino Gomes é jornalista; foi diretor de redação da maior revista semanal brasileira e uma das maiores do planeta, a prestigiosa Veja, que, aliás, tem sido fundamental para a consolidação da democracia brasileira. Em jornalismo que se aproxima do texto literário e baseado em pesquisa e investigação seriíssimas, Laurentino esmiúça, em 1808, a fuga das garras de Napoleão Bonaparte e chegada ao Rio de Janeiro de Dom João VI, resgatando como as coisas eram.
Quem quiser saber como foi feita a independência do Brasil da bocarra absolutista de Portugal terá que ler 1822 (Editora Nova Fronteira, 2010, 343 páginas), o livro em questão neste artigo, todo ele embasado, como já disse, em rigorosa pesquisa e investigação, e que até agora não sofreu, como 1808, nenhum desmentido de Portugal. Vemos, em 1822, que a independência do Brasil não foi pacífica, como é dado a entender. Foi uma carnificina, numa demonstração de que os brasileiros não suportavam mais os gafanhotos que colonizaram o Brasil.
Os portugueses já foram uma espécie de Estados Unidos, no século 15. Sua Escola de Sagres lembra a Nasa. Era um povo tecnologicamente avançado, que dominou parte da África, da Índia e da América do Sul, como gafanhotos, saqueando tudo, butim com que pagavam proteção à Inglaterra. Ironia: foi a Inglaterra que garantiu a independência do Brasil da bocarra de jacaré lusitano.
Até hoje, portugueses, olham para os brasileiros de cima para baixo, como devem olhar também para os angolanos e moçambicanos. E os brasileiros, colonizados durante 3 séculos, ainda conduzem esse DNA. Os amazônidas, por exemplo, são vistos pelos portugueses como índios, no que essa palavra tem de pejorativo. Com efeito, a Amazônia continua sendo saqueada, como sempre foi, primeiramente pelos gafanhotos lusitanos e depois deles pelo Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília.
Senão vejamos: Brasília (e o eixo Rio-São Paulo) recebe os dividendos da alumina produzida com a energia de Tucuruí, enviada para o Japão; ganha com o ferro que vai para a China; na época do Rio, ganhou com o manganês do Amapá, o melhor do mundo, agora estocado nos Estados Unidos; com as milhares de carretas cheias de toras de madeira de lei griladas; com o Eldorado, a montanha de ouro que há na Hileia, maior do que o lastro norte-americano.
Pior, fecha os olhos aos piratas que assaltam as águas mais piscosas do planeta, as costas do Amapá; aos aventureiros internacionais que incursionam nas gigantescas reservas indígenas; e à mais nefanda prática dos gafanhotos lusitanos, a qual brasileiros aprenderam rapidamente: a escravidão. Brasília está de costas para a Amazônia. Sempre esteve. De costas, da mesma forma que tapou os ouvidos para os gritos das crianças que moram nas zonas metropolitanas, berros de dor, que não chegam às mansões e às camas macias dos ladrões de colarinho branco. Melhor que a eles chegue chumbo quente.

Nelson Rodrigues explica Lula



Lula (montagem)



Editorial do Jornal Opção


GOIÂNIA, 24 a 30 de junho - A crítica teatral exigia que Nelson Rodrigues, nosso maior dramaturgo, fosse o Shakespeare patropi. Por isso deixou de perceber que o autor brasileiro não tinha a fleuma, a frieza de cirurgião e o distanciamento do bardo britânico. Nelson era (é) um grego nascido em Pernambuco. Sim, o teatro cru dos gregos, com suas histórias de assassinatos e incestos, aparece, logicamente tropicalizado, no drama do criador de Vestido de Noiva, Senhora dos Afogados e O Beijo no Asfalto. Qual era o verdadeiro segredo da qualidade das peças e das crônicas do pai de Viúva, Porém Honesta? Não sabemos. Podemos, no máximo, arriscar uma explicação.
Imensamente talentoso, Nelson desconfiava do que escrevia. Sabia-se grande entre os grandes, mas precisava que alguém o referendasse com frequência. O complexo de vira-lata, que detectou no brasileiro, também o acometia. Mas Nelson aprendeu aquilo que é necessário ao homem maduro: ria de si mesmo e, por isso, soube rir de todos nós e, sobretudo, de nossas mazelas, porque, de perto, ninguém é 100 por cento normal. Quando lemos Nelson, quando vemos suas peças e os filmes baseados em seus trabalhos, sentimos que está falando de nós, está mexendo com aquele bárbaro que habita nosso ser e que às vezes deixa de sair porque tememos as interdições morais ou legais (as leis). Nelson também fez uma “descoberta”, que hoje parece óbvia: parte dos escritores brasileiros — como Jorge Amado — tinha o hábito de enaltecer os pobres e depreciar a classe média e os ricos (quase sempre apresentados como gordos, bigodudos e mal-humorados), uma herança do realismo socialista. Nelson fez o contrário: debochou de todos, mostrando que as mazelas dos indivíduos nada têm a ver com classes sociais. São puramente humanas.
Nelson, ao modo dos gregos, nos faz ver que é preciso rir do trágico, para que não percamos a sanidade. Daí que, de algum modo, Nelson pode ser interpretado mais como moralista, num sentido mais amplo (filosófico), do que como pornográfico. O próprio dramaturgo chamava-se de “anjo pornográfico”, uma contradição em termos. No fundo, o que queria mesmo dizer é: “Somos o que somos e não o que dizemos ser” — ainda que aquilo que pensamos de nós, mesmo se falso, acabe por se tornar uma segunda pele. O “monstro” e o “anjo” habitam os mesmos corpos. Às vezes, o primeiro sai do corpo, esmagando o segundo, revelando a crueza do que é o homem que escapa à severidade das regras sociais. Há um monstro em cada anjo e um anjo em cada monstro — parece nos dizer o dramaturgo. O homem que raptou e engravidou uma menina índia de 12 anos — a notícia está nos jornais da semana passada — é nelsonrodriguiano em sua maldade e descontrole da libido. Entretanto, ao contrário do que se costuma pensar, Nelson tem compaixão dos “desgraçados” que exibe, numa espécie de strip-tease artístico, em suas crônicas e, especialmente, nas peças.
Durante a campanha de 2010, Dilma Rousseff disse a um repórter do Jornal Opção que era leitora dos escritores americanos Philip Roth, que escreveu “a velhice é um massacre” (Homem Comum, Companhia das Letras), e John Updike, que explicou, por meio de sua literatura, o puritanismo profundamente erotizado da sociedade dos Estados Unidos (a repulsa violenta ao sexo costuma ser vontade indireta de ter sexo em excesso). No afã de falar de sexo, o maior tormento humano — porque o sexo está associado ao prazer, mas também ao instinto, ao primitivo que habita todos nós —, Nelson era próximo de Updike. Os dois, o brasileiro e o estadunidense, falam muito de sexo, de repressão, traições, de situações-limite. Sobretudo, divertiam-se ao criar personagens e situações. Curiosamente, Updike tem um quê de Nelson, pois sua dramatização da vida tacanha aproxima-se do teatro. Tanto que, em alguns trabalhos, emulou Shakespeare. Citamos Updike porque na semana passada, ao término da reunião do G20, em Los Cabos, a presidente Dilma Rousseff, mostrando que tem cultura e humor (refinado), citou Nelson. De modo apropriado.
“Vocês se lembram do Nelson Rodrigues. Tinha um personagem chamado Sobrenatural de Almeida. Sabe o que eu acho? Existe um personagem que chamo de Inexorável da Silveira. As coisas não são do jeito que queremos”, disse Dilma Rousseff, ecoando tanto Nelson, que citou, quanto o filósofo anglo-letão Isaiah Berlin, que não nominou. A presidente usou a criatividade do dramaturgo para ilustrar sua interpretação da crise europeia. Como notou muito bem Clóvis Rossi, o veterano repórter da Folha de S. Paulo, Dilma Rousseff sugere que o avanço da crise europeia, “inexorável”, obrigará os líderes dos países a buscarem uma solução que possa salvar todos, ainda que com perdas graves para a maioria. Como as crises do capitalismo são cíclicas, novas crises virão e a Alemanha, que enfim conquistou “espaço vital”, cada vez mais terá de assumir responsabilidades pela recuperação das economias europeias.
Depois de ter surpreendido a imprensa, citando o Sobrenatural de Almeida, Dilma Rousseff frisou que a solução para a crise europeia — que está se transformando numa crise mundial — virá “no tempo certo, mas o tempo certo não é a gente que impõe”. Trata-se de uma referência, por assim dizer, ao Imponderável da Silva. A presidente escapa ao encanecido determinismo do positivismo e do marxismo. Mais nelsonrodriguiana, impossível. Aqueles que percebem Dilma Rousseff apenas como uma mulher durona, até insensível, talvez não consigam rir junto com a presidente. Ao citar Nelson, a petista está “rindo” e, também, lamentando a “tragédia” da economia europeia. Ao mesmo tempo, indica que há saídas, desde que não sejam mágicas e prêt- à-porter.
Noutra questão, Dilma Rousseff surpreendeu, mostrando que é diferente do ex-presidente Lula em muitas coisas e que o “amor” pela cultura faz muito bem. Como se sabe, a presidente é uma vítima da ditadura civil-militar, pois, quando bem jovem, foi presa e torturada pelos carrascos sádicos dos órgãos oficiais e dos porões. Uma vez eleita presidente, num sistema no qual, além de “executar”, praticamente legisla, por meio de medidas provisórias, poderia ter se tornado rancorosa e revanchista. Pelo contrário, ao criar a Comissão da Verdade, para apurar a história verdadeira de como o Estado foi instrumentalizado para torturar e mesmo matar, mostra que situa-se no campo institucional. Não se trata de perseguir, de acuar, mas de construir e reconstruir a história do país. Há notícia de que tem pedido paciência e equilíbrio a petistas mais agressivos e ressentidos. Nos bastidores, estaria sugerindo que não se estraçalhe a honra de militares, policiais e políticos. A presidente tem dito aos aliados que “limitem-se” aos fatos, sem forçá-los, para que a Comissão da Verdade não seja transformada noutra ditadura, a da palavra cortante que destrói a reputação e a vida das pessoas.
Na sexta-feira, 22, ao final da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, Dilma Rousseff disse que não odeia aqueles que a torturaram barbaramente na década de 1970. Suas palavras: “Com o passar dos anos, o melhor foi não me fixar nas pessoas, nem ter por elas qualquer sentimento: nem ódio nem vingança, mas tampouco perdão. Não há sentimento que se justifique contra esse ato. Há a frieza da razão. E a razão é não esquecer, por isso criamos a Comissão da Verdade. Odiar é ficar dependente. Isso não é bom sentimento. É preciso virar a página desse país”. A presidente destacou que o país tem de assumir “o compromisso de jamais deixar” a prática da tortura vigorar de novo. O ex-presidente Lula deveria ler, com atenção e desprendimento, o que Dilma Rousseff disse sobre “odiar é ficar dependente”. Recentemente, os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein escreveram um artigo, no “Washington Post”, no qual disseram que o presidente Richard Nixon teve de renunciar porque havia se tornado um escravo do ódio. No lugar de raciocinar, para entender as lições da história, Nixon cegou-se, dominado pelo rancor, e perdeu o bom senso. Avaliou, errado, que o poder, o seu micro poder, era eterno. Não era. Nunca é. O poder de um homem, mesmo quando longevo, é sempre provisório. Políticos que ficam no campo institucional, que não avaliam o poder como uma coisa obsessivamente pessoal, costumam ter um papel mais “iluminado” na história. É o caso de Juscelino Kubitschek. Com aquele sorriso matreiro, como se fosse somente um vendedor de esperanças e não de ilusões, JK, apesar da inflação e do endividamento público, possibilitou a formatação de uma nação mais aberta. Não à toa as artes — como a Bossa Nova de João Gilberto — floresceram em seu governo. Se se pode falar numa renascença cultural no Brasil, guardadas as devidas proporções, ela se deu entre o governo tranquilo de Juscelino e o governo conturbado mas democrático de João Goulart. O fato de Dilma Rousseff apreciar cultura, e demonstrar publicamente que gosta de bons livros e boa música, é positivo para o país. Pena que Lula não tenha aproveitado os oito anos que passou no Palácio do Planalto para se ilustrar.
MISSÃO DOS INTELECTUAIS - Falta cultura, e não necessariamente livresca, àquele político que não tem a mínima percepção de como ficará na história. O futuro nem a Deus pertence — trata-se do Imponderável da Silva. Mas há caminhos nefastos, menos nefastos e não-nefastos. Lula tem um lugar reservado na história do Brasil. Acima de tudo, será fixado como o primeiro político de origem operária a ter se tornado presidente da República do país. Prudente de Moraes, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek (de origem pobre, mas formado em medicina), Fernando Collor, José Sarney e Fernando Henrique Cardoso são homens do establishment político, econômico ou cultural. O petista é um genuíno homem do povo. Apesar do exagero de sua propaganda política, ficará na história também como aquele presidente que trabalhou, sem conseguir, erradicar a fome do país. A falta de cultura histórica, da noção de que as coisas mudam aos poucos, o que é típico da democracia, e não aos solavancos, frequentes mais nas ditaduras, leva certos dirigentes, como Lula, a acreditarem que se resolve um problema excruciante, como a fome, por intermédio de uma canetada.
Sobretudo depois que foi “maquiado” pelo marketing de Duda Mendonça e, em seguida, pelo de João Santana, Lula havia se tornado uma figura ambivalente. Políticos e empresários perceberam que o poder transformou aquele líder sindical relativamente magnânimo do ABC paulista. Por trás da imagem do homem que bebe cachaça e fala diretamente com as massas, sem a intermediação da parafernália midiática de jornalistas e de intelectuais, exceto dos marqueteiros, havia, decerto há, um homem duro, implacável. Presidente, teria dito que era preciso destruir o banqueiro-empresário Daniel Dantas. Tornou-se “editor” de uma revista semanal com o objetivo exclusivo de demolir a imagem do “Orelhudo”. Lula chama o dono do Opportunity de “Orelhudo”, assim como passou a fazer a revista porta-voz. O ex correspondente do New York Times Larry Rohter quase foi expulso do Brasil. Não cometeu nenhum crime. Tão somente publicou que o petista-chefe é dado a beber cachaça, e com certa frequência. Todos os jornalistas da corte brasiliense sabiam e sabem disso, mas, com aquele pudor típico dos que apreciam esconder o cotidiano dos poderosos, nada diziam, só murmuravam nos bares e gabinetes. O correspondente do jornal mais influente do mundo, acostumado à liberdade da mídia americana, que avalia que a vida privada de um político tem interesse público, só não foi expulso porque ministros, atentos à repercussão nacional, disseram ao presidente que não ficaria bem para o país, que seria comparado a uma reles ditadura. Conta-se que Lula teria dito ao seu ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos — o onipresente advogado de Carlos Cachoeira —, que não se importava com a opinião pública. Insistiram e disseram que, na democracia, a opinião pública, interna e externa, tem de ser levada em consideração. O presidente-supremo teria dito: “E daí?!”
Mas por que e como Lula se tornou Lula, o Sapo Barbudo? Nas fábricas — nas quais não era um operário afeito ao trabalho, revela O Que Sei de Lula, livro do jornalista José Nêumanne Pinto — e nas lides sindicais, Lula guardava certa suavidade, às vezes obscurecida pela grosseria verbal e pela insolência comportamental. No livro Partido de Deus — Fé, Poder e Política, o jornalista e historiador Luís Mir exibe o petista como “filho” das articulações intelectuais da Igreja Católica e de acadêmicos, como Francisco Weffort. O Sapo Barbudo — apelido criado por Leonel Brizola — nasceu aos poucos, potencializado por um ego tão gigantesco quanto o de Stálin. O curioso é que ninguém, no PT, procurou contê-lo. A razão: Lula sempre foi visto, com acerto, como o político que possibilitaria ao PT chegar ao poder por intermédio de eleições, não de golpe político, luta armada.
Parte da mídia e dos intelectuais de esquerda trata Lula como se fosse índio — inimputável. Até mesmo Fernando Henrique Cardoso, um dos críticos do petista, costuma tratá-lo de modo condescendente. Intelectuais petistas, como Marilena Chauí — para quem é Spinoza no Céu e Lula na Terra —, são, de alguma maneira, responsáveis pela criação do Sapo Barbudo. A frase “Lula pode tudo” — como se fosse uma criança mimada por pais negligentes — resume a trajetória do político no interior da máquina petista e, depois, no próprio país. Criticar o operário que chegou ao poder, “vítima de tudo”, era e ainda é quase um crime.
O resultado da omissão dos intelectuais e da mídia é que Lula se tornou um político autoritário, dado a arroubos perseguidores. Depois de submeter o PT, de torná-lo parte de um movimento, o lulopetismo, Lula quer submeter o país às suas parcas ideias do que é uma civilização. Hoje assiste-se a elite política e empresarial entre domesticada e aterrorizada pelo Estado, que usa, de modo implacável, Receita Federal e Polícia Federal para fiscalizar e investigar “irregularidades”, que não raro são potencializadas e, depois, contestadas e desmentidas na Justiça. Entretanto, se empresários, intelectuais e políticos se submeteram — muitos foram “afastados” pela estratégia nacional do petista-mor de esvaziá-los, caso dos tucanos Tasso Jereissati e Arthur Virgílio —, há uma resistência, por enquanto sólida, no Poder Judiciário e em parte da imprensa. A campanha para desmoralizar a Justiça é muito bem urdida, reforçando o preconceito de que as injustiças seculares da nação brasileira também têm origem na instrumentação do Judiciário pelos ricos. Quando lhe interessa, Lula e o lulopetismo usam o discurso “classista” com fervor religioso.
O que impressiona, e certamente deixaria um intelectual antiautoritário como George Orwell estupefato, é como os bem pensantes deixaram um homem sem instrução como Lula — muito inteligente, certamente — dominar seus corações e mentes. Entender como Lula se tornou um político autoritário, sempre prestes (o lulopetismo continua, apesar de certa contenção da presidente Dilma Rousseff) a tentar impor uma legislação para controlar a mídia, o Ministério Público e o Judiciário, é fundamental para entendermos para onde estamos caminhando. O país assiste, mesmerizado, o ilegal e o brutal se tornarem normas — inclusive com aplauso de políticos, promotores de Justiça e, mesmo, jornalistas.
O Brasil mediocrizou-se nos dois governos Lula? Em parte, sim. Mas não totalmente, senão não teríamos uma presidente como Dilma Rousseff, que procura governar sem ressentimento, tem certa cultura e, apesar do semblante fechado — decorrente, quem sabe, da ideia genérica e celebrada de que mulher séria tem a cara fechada —, tem humor, daí citar Nelson Rodrigues.
Se fôssemos dados ao exagero, diríamos que Lula está se tornando, aos poucos, uma espécie de Macunaíma, o herói sem nenhum caráter criado pelo prosador e poeta Mário de Andrade. Macunaíma, apesar de tudo, tem humor, graça. Na verdade, Lula está cada vez mais parecido com outro Silva, seu “parente” pernambucano. Lula se tornou uma espécie de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, da política. Implacável, espezinha seus adversários, acossando-os, e tenta destruí-los, quando, na democracia, o correto é apenas derrotá-los nas urnas. O lulopetismo, quando não consegue superar eleitoralmente um adversário político, trabalha para eliminá-lo, com o uso do Fisco e da Polícia Federal, descaracterizando duas instituições relevantes e respeitáveis.
O que fazer? Sugerir que Lula leia Nelson Rodrigues, para rir um pouco mais e se levar menos a sério — entendendo que o “viva e deixe viver” é um lema democrático —, esbarra no fato de que o ex-presidente não tem paciência nem mesmo para ler artigos de jornais e revistas. Por isso, os intelectuais do PT, muito deles respeitáveis, autores de obras sólidas, deveriam dizer ao petista-chefe que o futuro reserva uma história triste aos políticos que, mesmo que não tenham sangue nas mãos, se comportarem de modo autoritário, perseguindo adversários, tratando-os como inimigos.
Terminemos o Editorial com uma frase de Nelson “Sobrenatural de Almeida” Rodrigues: “O presidente que deixa o poder passa a ser, automaticamente, um chato”. Não há biografia mais sintética e perfeita do ex-presidente Lula da Silva. Mas o petista-chefe ainda tem tempo para reformá-la. Só depende dele e, claro, dos intelectuais que o cercam. Se pararem de bajular o ex-presidente, dizendo-lhe a verdade, vão deixá-lo bem na história, para além do “operário que se tornou presidente”.